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Por Obama, fumacê da dengue volta à Cidade de Deus

Moradores criticam 'maquiagem' mas se envolvem no embelezamento da favela. Aluguel de casas, lajes e até calçadas movimenta economia do local

Por Aline Erthal, do Rio de Janeiro - 19 mar 2011, 14h48

“A gente está acostumada com fama, mas a fama positiva é novidade”, diz a costureira Leonícia de Jesus

Sumara Santos tirava a mesa do café, pouco depois das 9h deste sábado, quando viu uma fumaça. Incrédula, foi à janela: “É o fumacê! Nem me lembrava como era!”. Hoje, o carro passava pela primeira vez em três anos na Cidade de Deus, segundo moradores do local para onde está prevista a visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Os preparativos para o evento começaram antes das 8h na quadra esportiva da CDD.

“A gente pode pegar dengue, mas o Obama, não”, lamentou, com bom humor, Vânia Pinheiro Barreto, dona do trailer ao lado da quadra. “Só assim para a coisa funcionar”, completa. No momento, o estado do Rio enfrenta novamente a epidemia da doença em municípios do interior e em bairros pobres da capital, a dengue preocupa. Casos da doença são frequentes na Cidade de Deus, onde o problema se agravou no início do ano. “Era difícil achar uma casa sem alguém que tenha ficado doente”, diz Vânia Pereira, mãe de três crianças que foram contaminadas em janeiro.

Caminhões e carros da Comlurb passaram toda a manhã de sábado na favela. “Estão fazendo recapeamento, poda de árvore, pintura da quadra, dragagem do rio, puseram canteiros de planta na calçada. Faz bem ver tudo limpo assim. A gente está acostumada com fama, mas a fama positiva é novidade. Os filmes (Cidade de Deus e Cinco Vezes Favela) foram horríveis para nós, mostraram só violência, tristeza. Mas agora as celebridades vêm para cá. Estamos badalados”, anima-se a costureira Leonícia de Jesus.

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A ‘maquiagem’, como chamam os moradores, recebe críticas. Mas no fundo o ‘efeito Obama’ contagia os moradores, passaram a manhã lavando casas e enfeitando janelas. Nesta tarde, crianças e adolescentes do Centro de Referencia da Juventude ensaiam apresentações de karatê, dança e música, e preparam cartazes com desenhos e mensagens como “Love Obama”, “Violência não”, “Obama 100% Brasil” e “Karat Obama” (em que o presidente dos EUA aparece vestindo um quimono). Os primos Sami Jorge e Rodrigo de Souza Lopes, empolgadíssimos, cantam um rap de rima estranha: “Esse é o Obama / veio dos Estados Unidos / para aqui para o Brasil / para deixar tudo bonito”.

Lucros com alugueis – Perto dali, assistindo a todo o agito, Fernando de Souza conversa com um amigo e faz as contas. Desde o início da semana, os preparativos para a visita de Obama vêm movimentando muito mais do que as ruas da Cidade de Deus: eles mexeram com os bolsos dos moradores. O terraço de Fernando foi reservado pela polícia: “ali, ninguém mexe”. O segundo piso foi alugado por uma emissora de TV. “Várias equipes de reportagem estão reservando espaços nas casas para garantir a melhor visão”, conta outro locador, Gilson Rocha. O preço dos camarotes vip variam entre 2 mil e 3.500 reais, pelo período de sexta a domingo. Na casa de Gilson, até a calçada foi loteada: por 20 reais, moradores podem reservar cadeiras. Mas o pagamento só será feito na hora, pois há o risco de as equipes de segurança proibirem a arquibancada improvisada.

As ofertas crescem à medida que o domingo se aproxima. Gilmar da Costa Pinho, dono de uma academia, diz estar estudando as propostas. “Recebi várias, mas a cotação está aumentando. Se o valor puder crescer ainda mais, não será nada mau”, ri.

Nos arredores da quadra em frente à Cufa (Central Única de Favelas), até a coxinha de galinha foi inflacionada: de R$ 1,50, passou para R$ 2. Mesmo assim, esta semana Marta Torte vendeu quase o equivalente a três semanas normais: “Tem repórter e autoridade comprando água, biscoito e salgadinho direto. Está servida? Aproveita, porque amanhã não tem mais”.

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