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Policial do Bope comprou até uniforme de guerra para o tráfico

Grampos que flagraram relação de terceiro-sargento com chefes de quadrilha mostram ainda que agente da tropa de elite fluminense negociava munição para o crime

Por Leslie Leitão 6 jul 2015, 10h27

Gravações telefônicas feitas pela Polícia Civil com autorização judicial revelam o grande esquema de propina que uma das maiores facções criminosas do Rio de Janeiro, o autointitulado Terceiro Comando Puro (TCP), montou dentro da tropa de elite da Polícia Militar fluminense, o Batalhão de Operações Especiais (Bope). Por meio do sargento Arlen Silva, o TCP passou a ter um canal direto dentro do Bope para obter informações privilegiadas sobre eventuais operações, compra de armas e munições e até para adquirir uniformes militares de combate, como mostra um dos diálogos transcritos nesta reportagem.

Bope: falta de investigação atrapalha na hora de punir

No final de 2012, o Arlen Silva e um intermediário da quadrilha, identificado pelo apelido de Leitão, foram até uma loja do centro para comprar roupas para os membros do bando: botas, calças camufladas – tudo ao gosto do freguês, neste caso, Marcelo Santos das Dores, o Menor P, que só viria a ser preso pela Polícia Federal em 2014, num apartamento em Jacarepaguá. “Comprei a calça creme malhada (…) e a preta meio acolchoada”, diz Leitão, prestando contas ao traficante Ronaldinho, que, da favela, repassava a lista de compras.

O criminoso, na época um dos homens de confiança de Menor P, ainda cobrou de Leitão e do policial do Bope o restante dos itens encomendados: dois coletes táticos e uma luneta para fuzil. “Ele disse que tá guardado (luneta) lá no trabalho dele (Bope). E ele vai pegar e vai me dar para levar aí domingo”, explicou Leitão.

Como revelou VEJA nesta semana, as conversas gravadas revelam que outros policiais do Bope também faziam parte do esquema de corrupção. “Fala com ele que eu vou dar o negócio (dinheiro da propina) e do amigo dele (policial de outra equipe do Bope) na mão dele”, diz Ronaldinho na conversa. As investigações indicam que pelo menos cinco favelas do TCP faziam parte do esquema, que rendia até 12.500 reais por plantão: Maré, Morro do Dendê (Ilha do Governador), Favela de Acari, Morro da Serrinha (Madureira) e Vila Aliança (Bangu).

Semanas após a negociação de dois fuzis, o intermediário Leitão descobriu que suas conversas telefônicas estavam sendo monitoradas pela Polícia Civil. Preocupado, ele tentou avisar ao sargento do Bope, que ignorou: “Tranquilo. Hoje eu pego dobrado um dinheiro, né?!”.

Grampos

Leitão e Arlen compram roupas táticas, como as usadas por forças militares, encomendadas pela quadrilha. Ronaldinho cobra a luneta do fuzil que ele havia pedido, mas o objeto estava no Bope

Ronaldinho – Conseguiu comprar tudo?

Leitão – Tô acabando. Comprei a calça creme, meia malhada… parece até o cachorro dálmata. Não é essa?

Ronaldinho – Uma preta. Um coturno areia, um coturno preto, e uma camisa igual à calça?

Leitão – É.

Ronaldinho – E os dois coletes (à prova de balas) lá no coroa.

Leitão – A calça preta é acolchoada?

Ronaldinho – Isso. Deixa eu te falar uma parada. Tem como pegar a luneta lá com ele (Sargento Arlen) hoje?

Leitão – Acho que não. Ele (Arlen) disse que (a luneta) tá no serviço dele (no Bope), lá

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Ao fundo, Leitão pergunta a Arlen se tem como pegar a luneta.

Leitão – Ele disse que tá guardado lá no trabalho dele (Bope). E ele vai pegar e vai me dar pra levar aí domingo.

Ronaldinho manda Leitão avisar a Arlen que enviará a propina dele e de um outro suposto integrante de outra equipe do Bope

Ronaldinho – Comprou tudo direitinho?

Leitão – Comprei. A roupa, os coletes, dois coturnos. O Arlen é o cara mais engraçado da Terra

Ronaldinho – Já é! Fala com ele que eu vou dar o negócio (dinheiro do arrego) e do amigo dele (policial de outra equipe do Bope) na mão dele. Na tua mão, aí pra tu dar a ele depois.

Leitão faz contato e oferece munições de Arlen, para pistola e fuzil, a um traficante da Maré

Leitão – Munição de 40, de 45 (pistolas). Acho que tem 556 (fuzil). Munição, munição. O cara tá vendo aqui

Ronaldinho – Então vê as que ele tem e me fala

Leitão – Essas que eu te falei pequena (munição para pistola) tem muitas. Ele (Arlen) disse que vai ver quantas tem

Ronaldinho – Vê da grande (para fuzil)

Arlen tenta falar com Leitão, que alerta sobre o fato de seu telefone estar grampeado, mas o policial ignora, e diz que vai receber a propina em dobro

Leitão – Fala aí. Pô, eu não tô podendo falar muito, meu telefone tá todo grampeado, filho…

Arlen – Mas tranquilo, é pra eu pegar aquele negócio (propina) lá

Leitão – Pega lá, pega lá…

Arlen – Eu vou lá, vou pegar lá. Hoje é dobrado né? … Hoje eu pego dobrado também um dinheiro né? Hoje é dobrado!

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