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Policiais mataram testemunha-chave de esquema de corrupção

Homem que, segundo a Polícia Civil, fazia o pagamento de propina policiais corruptos de São Gonçalo, foi morto horas depois de a cúpula da PM tomar conhecimento da operação Dezembro Negro

A Divisão de Homicídios de Niterói e São Gonçalo, que comandou nesta segunda-feira a prisão de policiais militares e do comandante do 7º BPM (São Gonçalo), investiga a morte de uma testemunha-chave do esquema de corrupção envolvendo o batalhão. Encarregado de pagar diretamente a propina a dezenas de PMs, o gerente do tráfico do Morro da Coruja, Rafael Rosa Guimarães (conhecido como Chacal), foi morto em confronto com policiais do mesmo batalhão. Coincidência ou não – e é isso que a polícia vai precisar responder -, o episódio ocorreu horas depois de a cúpula da PM ser comunicada pela Secretaria de Segurança de que a ação seria deflagrada na segunda-feira. A ação resultou na prisão do comandante do 7º BPM, coronel Djalma Beltrami, e de seis PMs daquela unidade.

Chacal, de acordo com a investigação de sete meses, era o responsável por entregar o suborno em mãos aos policiais corruptos. Com ele, foram encontrados uma pistola 9 mm e um rádio transmissor. Para evitar um atrito entre instituições, com policiais civis invadindo um batalhão para prender PMs, o secretário de Segurança José Mariano Beltrame, determinou que a Corregedoria da PM atuasse na prisão dos PMs ao lado da Corregedoria Geral Unificada (CGU). A decisão foi comunicada por volta das 14h de sexta-feira à chefe da Polícia Civil, a delegada Martha Rocha, por telefone. Nesse dia foram expedidos os mandados de prisão.

Agora, os órgãos de inteligência investigam se houve vazamento de informações. O PM Alexandre de Abreu Rodrigues, do 7º BPM, que registrou o auto de resistência, disse ter dado um tiro de alerta numa das pernas do traficante. Segundo o depoimento do policial, nesse momento, caiu a bermuda do criminoso, que mesmo assim insistiu em sair correndo e acabou sendo alvejado na outra perna. Também estava na ocorrência o PM Pedro Moacir Evangelista de Araújo. O caso foi registrado na 74ª DP (Alcântara), sob o número 074-11220/2011. Nenhum dos dois PMs está na lista dos agora acusados de corrupção.

Uma escuta telefônica com autorização da Justiça interceptou uma conversa em que um traficante e um policial do 7º BPM negociam um reajuste do suborno. De acordo com a conversa, gravada no dia 11 de setembro de 2011, cada uma das quatro equipes do Grupamento de Ações Táticas (GAT) daquele batalhão recebia 4 mil reais por semana. Na conversa, os policiais pedem que o valor passe para 5 mil reais. Eles também pediam 10 mil reais semanais para o coronel Djalma Beltrami, que assumira havia poucos dias o comando da unidade.

“Os policiais usavam celulares frios para se comunicar com os bandidos. Mas conseguimos provar que eles usavam aqueles telefones. Numa das ligações, eles marcaram um encontro com os traficantes. Fomos até o local e registramos imagens. O GPS das viaturas também comprova que eles estiveram lá naquela hora”, explica o delegado Alan Luxardo, da DH de Niterói.

Comerciante desaparecido – Também na última sexta-feira, outro alvo dessa investigação, um comerciante identificado como Pedro, desapareceu após fechar seu comércio dentro do Morro da Coruja. Ele era investigado por vender munição aos traficantes e também teve a prisão decretada. Na manhã desta segunda-feira, a casa dele estava revirada. A polícia agora quer saber se ele fugiu após saber da operação ou se foi pego pelos policiais acusados ou bandidos.