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Polícia suspeita que pai de Bernardo tenha forjado telefonemas para encobrir morte

Leandro Boldrini teria ligado diversas vezes para o celular do filho mesmo sabendo que ele já estava morto, alega Justiça

Por Felipe Frazão - 7 Maio 2014, 08h16

Um despacho judicial desta terça-feira revelou um dos principais indícios obtidos pela Polícia Civil gaúcha para apontar o envolvimento do médico Leandro Boldrini na morte do filho Bernardo, de 11 anos, no dia 4 de abril em Frederico Westphalen (RS). Desde 14 de abril, ele está preso temporariamente, assim como a madrasta de Bernardo, a enfermeira Graciele Ugulini Boldrini, e a assistente social Edelvânia Wirganovicz, amiga dela. Ambas confessaram participação no assassinato. Leandro Boldrini se diz inocente, mas a polícia encontrou contradições na versão do médico e suspeita que ele tenha acobertado o crime.

Ao negar o segundo pedido de liberdade impetrado pela defesa do médico, o desembargador Nereu José Giacomolli, da 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, apontou uma sequência de atos de Boldrini sobre os quais a Justiça pede mais esclarecimentos. Giacomolli reproduziu textualmente a argumentação que o juiz Fernando Vieira dos Santos, da 2ª Vara de Três Passos (RS), usou para decretar a prisão dos três suspeitos. Santos foi o juiz plantonista que decidiu pelas prisões em 14 de abril. Na ocasião, ele analisou provas anexadas ao processo pela Polícia Civil e levantou a suspeita de que Leandro Boldrini tenha forjado telefonemas para o celular do filho nos dias seguintes à morte do menino, mesmo sabendo que o aparelho não estava com a criança. Santos argumentou que o médico deveria ficar preso porque pode ser punido penalmente, uma vez que a “omissão e negligência” podem configurar sua participação ou coautoria no crime.

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O despacho do desembargador Giacomolli traz mais trechos da decisão do juiz de Três Passos. Em um deles, Santos afirmou que o pai de Bernardo agiu “de modo no mínimo estranho” ao responder a interlocutores do filho que tentaram contato com o menino após o desaparecimento. Na versão do pai, Bernardo teria sumido na sexta-feira dia 4 de abril quando iria dormir na casa de um amigo – em verdade, ele foi levado pela madrasta a Frederico Westphalen e assassinado. Leandro Boldrini só deu queixa à polícia dois dias depois, no domingo 6 de abril. Nos dias seguintes, iniciou uma campanha de buscas em rádios locais e na internet. Ele teria, então, tentado telefonar para o celular do filho.

“Há relatos de pessoas que enviaram mensagens para o telefone celular do menino na sexta-feira, dia de seu desaparecimento, sem obter qualquer resposta; surpreendentemente, receberam, no domingo, resposta do pai, como se este tivesse tido acesso ao telefone do filho e tivesse, então, resolvido responder, não em seu nome, mas como forma de não deixar o interlocutor preocupado pela falta de resposta [do menino]”, anotou Santos em sua decisão.

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O desembargador destacou também outro entendimento de Santos: “Tivesse o pai acesso ao telefone do mesmo [Bernardo], não fariam sentido suas seguidas tentativas de contato com o menino, que conduzem à possibilidade, a ser melhor esclarecida, de que as ligações tenham sido uma forma de demonstrar preocupação com o filho, dissipando suspeitas”.

O juiz de Três Passos disse ainda que “essas circunstâncias também aparentam estar em desacordo com os pormenores do desaparecimento”, embora não tenha ficado claro se o menino estava ou não com o aparelho no episódio.

“A situação toda da própria comunicação do desaparecimento do menino mostrou-se intrigante”, escreveu Santos. “Vários relatos apontam o desleixo paterno com as saídas e visitas a terceiros, sendo frequentes referências a dias ou semanas que o filho passava em companhia de outrem sem qualquer preocupação paterna; justamente nesse final de semana [da morte de Bernardo], porém, o pai demonstrou-se – em termos – zeloso.”

Indicar a exata responsabilidade de Leandro Boldrini na morte do filho tem sido o principal objetivo dos investigadores nas últimas semanas. Depois de obter duas confissões de participação no assassinato, a equipe da delegada Caroline Bamberg Machado dedicou-se a obter provas sobre o pai do menino. Ela se diz convicta da culpa do pai. A defesa de Boldrini afirma que não há indícios do envolvimento dele – e argumenta que as demais acusadas o inocentaram.

O site de VEJA telefonou para a delegada na noite desta terça-feira, mas ela não atendeu. Defensor de Leandro Boldrini, o advogado Jader Marques também não atendeu as ligações. O criminalista decidiu entregar o histórico de chamadas do pai para o celular do menino no início das investigações, como forma de mostrar que ele tinha preocupação com Bernardo. A estratégia da defesa era mostrar que ele era um pai atarefado e ausente por motivos profissionais, mas não, omisso.

Procurada, a Assessoria de Imprensa da Polícia Civil disse que não se pronunciaria sobre os detalhes do inquérito apontados pelo desembargador. O relatório final com o provável indiciamento dos três acusados por homicídio triplamente qualificado deve ser entregue ao Ministério Público e à Justiça até a próxima terça-feira – no mesmo dia, vencem os prazos das prisões temporárias.

Nesta terça, os investigadores se reuniram em Porto Alegre com a equipe do Instituto Geral de Perícias (IGP) responsável pelos exames que devem apontar a causa da morte. A polícia espera uma resposta sobre a conclusão dos testes laboratoriais até quinta-feira. Um dos laudos apontou a presença da substância midazolam no organismo do Bernardo. A principal linha de investigação aponta para uma injeção letal, após superdosagem do medicamento sedativo.

(Atualizada às 21h)

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