Polícia faz reconstituição do dia em que Juan sumiu
Policiais que participaram da operação e testemunhas estão no local onde o menino foi baleado quando voltava para casa

Os policiais envolvidos na operação que resultou no desaparecimento do menino Juan de Moraes, de 11 anos, voltam à favela Danon, em Nova Iguaçu, nesta sexta-feira. Eles participam, junto com testemunhas, da reconstituição da ação realizada no dia 20 de junho. O objetivo é esclarecer os muitos pontos nebulosos que persistem no caso que expôs uma impressionante sucessão de erros da polícia fluminense. Os preparativos começaram pouco antes das 11h, mas a reconstituição do momento crucial da ação – aquele em que Juan e seu irmão Wesley foram pegos no meio de um tiroteio – só acontecerá quando escurecer, que é quando chegam os policiais envolvidos. Antes disso, os peritos aproveitam a luz do dia para colher vestígios da ação, como manchas de sangue e marcas de tiro.
O diretor de Polícia Técnica e Científica, Sérgio Henriques, diz que a reconstituição será trabalhosa, porque existem muitas versões, e todas as situações têm que ser reproduzidas. Um exemplo: algumas testemunhas dizem que havia um holofote aceso na travessa pela qual Juan passava. Outras dizem que não. Então será preciso fazer a cena com e sem luz. É importante aproveitar o dia para produzir fotografias em que seja possível entender a dinâmica dos acontecimentos e a posição correta das testemunhas, das viaturas e dos policiais militares. Henriques explica que, por esse motivo, os PMs envolvidos podem chegar apenas à noite. “Quando eu precisar analisar se o policial militar conseguia identificar alguma pessoa, como por exemplo o suspeito de tráfico morto durante a operação, obviamente terei que fazer isso à noite”,diz.
São esperadas 12 pessoas na reconstituição, incluindo os PMs. O jovem Wanderson dos Santos Assis, de 19 anos, que foi baleado na operação, já compareceu e prestou depoimento. Wesley é esperado, mas ainda não apareceu. O advogado Edson Ferreira, que defende os policiais, compareceu ao local e disse à imprensa que seus clientes mantêm a versão de que nada sabem sobre o desaparecimento de Juan. “O que eles têm de notìcia do menino é através do jornal”, disse o advogado.
Juan foi enterrado na quinta-feira, em Nova Iguaçu. Ele estava voltando para casa com o irmão, Wesley, e os dois foram pegos no meio de um tiroteio. Wesley , ferido, correu para buscar socorro, mas Juan desapareceu Mais de 10 policiais da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) isolaram o local onde aconteceu o incidente e ainda ruas que dão acesso ao beco da comunidade. Ao longo do dia, será feita a marcação de onde cada pessoa estava no momento do confronto.
Veja a sequência de erros cometidos pela polícia:
20 de junho: policiais do 20º BPM (Mesquita) fazem uma operação em busca de traficantes na favela Danon, em Nova Iguaçu. Juan e seu irmão Wesley são pegos no meio de um tiroteio quando voltavam para casa.
No mesmo dia, PMs registram o caso como auto de resistência – situação de confronto que resulta em morte de suspeito – na 56ª DP (Comendador Soares). E informam ter encontrado com Wanderson uma pistola, uma granada e um radiotransmissor. Não falam sobre Juan.
21 de junho: a família de Juan de Moraes denuncia que ele foi baleado e está desaparecido.
24 de junho: a polícia admite que as armas e o rádio não pertencem a Wanderson. Mas o rapaz, que estava internado algemado à cama, só é solto quatro dias depois.
25 de junho: os PMs que participaram da operação são afastados do serviço de rua, mas permanecem no mesmo batalhão, fazendo serviços internos.
28 de junho: oito dias depois da operação, é feita a primeira perícia no local. O chinelo que Juan usava quando desapareceu é encontrado. E, finalmente, começam as buscas pelo corpo.
30 de junho: dez dias depois do desaparecimento de Juan, polícia encontra um cadáver identificado como sendo de uma menina pela perícia.
5 de julho: A chefe da Polícia Civil, Martha Rocha, convoca a imprensa para comunicar que o corpo encontrado na semana anterior é de Juan. O delegado da 56ª DP e a perita que deu o laudo errado são afastados.