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Polícia a serviço do crime: operação caça acusados de revender armas para traficantes

Corregedoria desmonta esquema criado por 11 PMs e dois policiais civis para faturar com a devolução de fuzis e pistolas para as quadrilhas

Por Rafael Lemos, do Rio de Janeiro 13 dez 2011, 10h50

Para o cidadão comum, é difícil entender como as quadrilhas de traficantes de drogas do Rio, mesmo com apreensões quase diárias de armamento pela polícia, conseguem ostentar arsenais como o do traficante Nem, da Rocinha, ou as centenas de fuzis e pistolas recolhidas no Alemão. Uma parte do problema, obviamente, está no descontrole das fronteiras e nos vazadouros que só a corrupção explica. Outros mecanismos são bem mais simples, mas não menos revoltantes: policiais simplesmente revendem para os bandidos os itens que acabaram de recolher, sejam armas ou drogas.

Uma ação da Subsecretaria de Inteligência, da Secretaria de Segurança do Rio, tenta prender, desde as primeiras horas desta terça-feira, 19 acusados de participar de um esquema que explorava a revenda de materiais apreendidos em operações para os traficantes. Até o fim da manhã desta terça-feira, 193 agentes cumpriram 18 mandados de prisão. O único foragido é o traficante Jorge Luiz Bernardes Fraga, conhecido como Russo, Neném ou Narigudo. Com os presos, foram encontradas armas, munições, maconha e cocaína. Na casa de um PM, havia um montante de 18 mil reais.

As operações, na maioria das vezes, eram clandestinas, montadas apenas para recolher esses objetos e faturar com a devolução. As falsas diligências aconteciam com a participação de policiais de folga, que se uniam a outros em horário de expediente para usufruir de viaturas da corporação. Para abandonar o posto, os envolvidos subornavam Oficias de Dia e os responsáveis pela Reserva de Armamentos.

“Se o plantão deles acabava às 8h, eles saíam à meia-noite. Para isso, precisavam do consentimento do Oficial de Dia e do responsável pela Reserva de Armamentos, uma vez que não podiam sair com a arma de trabalho”, explicou Fábio Galvão, subsecretário de Inteligência.

Segundo Galvão, informantes desempenhavam um papel fundamental no esquema, avisando sobre os locais onde havia drogas e armas, além de atuar como intermediários entre policiais e traficantes na revenda. No entanto, também há registros de policiais que tratavam diretamente com os bandidos. “A prioridade é o combate à corrupção. A sociedade não tolera mais desvios de condutas de policiais. O recado já foi dado. Quem quiser pagar ver, vai se dar mal”, alertou o subsecretário.

A maioria dos acusados integra a Polícia Militar. Onze são PMs e dois são policiais civis. Os outros seis são traficantes e informantes. O nome escolhido para a ação é sugestivo: “Operação Herdeiros”, em referência à exploração do que se conhece como ‘espólio’ de guerra – o nome dado ao que os agentes desonestos conseguem recolher para revender.

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Ao longo das investigações, dez pessoas foram presas, mas oito delas já estavam em liberdade. Todos foram novamente detidos na manhã desta terça-feira. O cabo da PM André Luiz Meneses dos Santos, do 41º BPM (Irajá), foi preso em sua casa, no bairro de Cascadura, na zona norte. De acordo com a polícia, havia dois carros de luxo na garagem. Entre os presos está também o ex-chefe de segurança da Câmara de Vereadores de Niterói. Com ele foi encontrado uma carteira falsa da Polícia Civil. O segurança já foi exonerado do cargo.

A Operação Herdeiros foi deflagrada após investigações identificarem dois grupos formados por policiais civis e militares que se associaram para arrecadar material apreendido em operações clandestinas ou mesmo em operações regulares, realizadas em favelas do Rio. Os policiais obtinham informações sobre a localização de traficantes, armas e drogas e após a operação os materiais desviados eram vendidos a traficantes por meio de comparsas que realizavam uma espécie de ponte entre os policiais e os bandidos.

As investigações apontaram ainda que o destino dessas armas era a favela do Jacarezinho, em Benfica, zona norte do Rio. Nessa comunidade, as negociações entre os traficantes e os policiais criminosos eram feitas, principalmente, por um ex-militar do Exército identificado como Asdrubal Bacon Dias Marques Junior, o Juninho. Para ganhar uma blindagem nas operações, ele tentou entrar para a PM, chegando a cursar o curso de formação de sargentos. No entanto, assim que foi descoberto, o ex-militar, que já respondia a por associação ao tráfico internacional na Justiça do Federal do Paraná, foi expulso do curso.

(Com Agência Estado)

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