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PMs que mataram testemunha adulteraram cena do crime

Perito registrou, em depoimento, que local da morte de Raphael foi modificada. Ele era, segundo a Polícia Civil, o responsável pelo pagamento de propina a policiais militares de São Gonçalo

Por Leslie Leitão e Rafael Lemos 22 dez 2011, 18h31

Ao delegado da Polícia Civil, ele afirmou que “foi difícil se deslocar até o local onde estava o corpo, sendo improvável que o opositor conseguisse fazê-lo, estando baleado”

Os policiais que mataram uma testemunha-chave do esquema de corrupção descoberto pela Polícia Civil em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, adulteraram o local do crime. Apesar da afirmação de que policiais “guardaram” o local em que estava o corpo de Raphael Rosa Guimarães, o Chacal, morto na última sexta-feira no Morro da Coruja, o perito que atendeu a ocorrência, Márcio Assimos de Almeida, encontrou a cena do crime modificada – o que prejudicou a elaboração da perícia criminal.

O perito registrou em seu depoimento – ao qual o site de VEJA teve acesso – que, ao chegar ao local do suposto auto de resistência, por volta de 1h do dia 17 de dezembro, “constatou que o mesmo não estava preservado, uma vez que não foram encontrados estojos de fuzis nem a arma utilizada pelo opositor (Raphael)”. Também não foram encontrados os estojos de fuzil das armas dos policiais – utilizadas no suposto confronto.

O procedimento foi irregular, como explica o perito: “tal fato caracteriza a não preservação do local, uma vez que os objetos devem ser arrecadados após a perícia pela autoridade policial”.

Os horários dos registros oficiais também expõem o que é, no mínimo, uma irregularidade a ser apurada. Assimos informou que o primeiro telefonema solicitando o trabalho da perícia ocorreu “pouco depois das 21h”, e o último por volta das 23h30. Ele chegou ao local por volta de 1h da manhã do dia 17. Segundo os próprios policiais envolvidos na morte de Raphael – o cabo Alexandre de Abreu Rodrigues e o sargento Pedro Evangelista de Araújo – a suposta troca de tiros que resultou na morte de Raphael ocorreu entre 17h20 e 17h30. Ou seja: quatro horas antes da primeira comunicação com a perícia.

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Em seu depoimento, o encarregado da perícia afirma que estranhou a posição do corpo e as manchas de sangue no chão. “O local em que o corpo estava era de muito difícil acesso e o declarante estranhou a posição das manchas em relação ao cadáver, bem como o fato de ele estar nu (…)”. Ao delegado da Polícia Civil, ele afirmou que “foi difícil se deslocar até o local onde estava o corpo, sendo improvável que o opositor conseguisse fazê-lo, estando baleado”.

Propina – Raphael era, segundo a polícia, o encarregado de pagamento de propina a policiais do 7º BPM. A Operação Dezembro Negro, iniciada na segunda-feira, prendeu 12 policiais, entre eles o comandante da unidade, coronel Djalma Beltrami. O oficial foi libertado por meio de um habeas corpus na madrugada de quarta-feira. Nesta quinta-feira, a PM informou que Beltrami foi afastado do comando e transferido para o Departamento Geral de Pessoal (DGP), a “geladeira” da PM, para onde são transferidos os policiais que precisam sair das funções de maior visibilidade.

Como mostrou o site de VEJA, a morte de Raphael tem pontos controversos. O registro de ocorrência do suposto auto de resistência – termo técnico que designa mortes em confronto com policiais, quando o suspeito oferece perigo aos agentes da lei – informa que Raphael foi atingido por dois tiros, um em cada perna, e que esta seria a causa da morte.

O laudo do Instituto Médico Legal (IML) em poder da família do jovem informa que Raphael morreu em decorrência de um tiro no tórax. A Polícia Civil abriu inquérito para investigar a suspeita de execução contra ele. Raphael poderia depor e informar quem eram os policiais que recebiam a propina do tráfico.

O batalhão de São Gonçalo foi de onde partiram, segundo denúncia do Ministério Público, os policiais que mataram a juíza Patrícia Acioli. O ex-comandante da unidade, tenente-coronel Cláudio Luiz de Oliveira, está preso, acusado de ser o mandante do crime.

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