Pesquisa mostra que um em cada três gaúchos está indeciso na disputa pelo governo
Trata-se da taxa mais alta entre os maiores colégios eleitorais do país
A inquietude do eleitor sempre foi uma das marcas da democracia gaúcha. Desde que a reeleição foi reintroduzida no Brasil, em 1998, o Rio Grande do Sul se ateve ferrenhamente ao princípio de não reconduzir seus governadores ao cargo — nada menos que seis deles fracassaram na tentativa de renovar seus mandatos. A sequência de alternância no poder teve um ponto fora da curva apenas em 2022, quando Eduardo Leite (então no PSDB, hoje no PSD) ganhou um segundo mandato — ele, no entanto, nem era mais governador, pois havia renunciado em março daquele ano para tentar uma candidatura presidencial, que não vingou. Também é célebre a maneira como o gaúcho mantém seu pêndulo político em constante oscilação entre direita, esquerda e centro, tanto para o comando do estado quanto nas disputas nacionais: desde a redemocratização, deu vitórias ao esquerdista Lula (duas vezes), aos centristas Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves e ao direitista Jair Bolsonaro.
Na corrida deste ano, o esforço para decifrar o que pensa o eleitor do Rio Grande do Sul ganhou um novo desafio. Pesquisa Genial/Quaest do final de julho mostra que quase um em cada três gaúchos está indeciso. O percentual de 31% é o mais alto entre os maiores colégios eleitorais do país, nos quais as taxas variam de 13% a 19%. Há mais eleitores sem saber em quem votar do que apoiadores dos líderes da disputa — Juliana Brizola (PDT), ex-deputada estadual e neta do ex-governador Leonel Brizola, e Luciano Zucco (PL), que foi líder da oposição a Lula na Câmara dos Deputados. Somados, os dois não convencem nem metade do eleitorado (veja o quadro). Essa indecisão se arrasta há meses: na sondagem de abril, Juliana tinha a mesma pontuação, enquanto Zucco tinha um ponto a menos.
O acirramento da polarização e a nacionalização da disputa estadual explicam, em boa medida, a hesitação do eleitor. A esquerda vai às urnas com uma aliança do brizolismo com o petismo, que tem Edegar Pretto como vice na chapa. O acordo custou caro ao PT, que abriu mão de nome próprio no estado pela primeira vez desde 1982 em troca do apoio do PDT à reeleição de Lula. Já a direita se escora no bolsonarismo, incorporado fielmente pela figura de Zucco, que tem como vice a deputada estadual Silvana Covatti (PP), próxima ao agronegócio.
O foco no embate entre direita e esquerda, no entanto, enfrenta resistência do eleitorado gaúcho. “As forças tradicionais no estado são o trabalhismo e a direita liberal, mas há uma insistência das campanhas locais em dividir todo o país em dois extremos”, avalia Silvana Krause, cientista política da UFRGS. A desconfiança do eleitor gaúcho persiste na disputa nacional. O cenário é de empate técnico no primeiro turno entre Flávio Bolsonaro (32%) e Lula (30%), enquanto os indecisos somam 19% — a mais alta taxa entre os dez estados mais populosos do Brasil.
O alto número de indecisos a dois meses da eleição é um desafio para os líderes da disputa, mas é também um alento para a terceira via. Candidato de Eduardo Leite, o vice-governador Gabriel Souza (MDB) patina nas pesquisas, mas tem a máquina pública, estruturas partidárias com boa capilaridade (MDB e PSD) e dois números que podem ajudá-lo: é desconhecido por 73% dos eleitores, enquanto 62% admitem que podem mudar o voto até outubro. Um problema para ele pode ser a população dividida em relação ao trabalho de Leite — 48% o aprovam e 42% o desaprovam. O próprio perfil político de Leite, distante dos extremos, pode impor limite ao crescimento do aliado. “Há dois candidatos claramente polarizados, enquanto o governador vai à briga pela sucessão sem alinhamento a nenhum lado”, diz o cientista político Elias Tavares.
Os números mostram que a tradicional inquietude gaúcha deixa em aberto o desfecho sobre quem irá triunfar no sexto maior colégio eleitoral do país. Uma constatação clara é que o cardápio dos candidatos não empolga. Outro fator é o peso das cicatrizes da devastação histórica provocada pelas enchentes de 2024, que pode estar contribuindo para a descrença política — além dos 31% de indecisos, há 12% de eleitores que pretendem anular o voto ou nem ir votar. “É visível que há um descrédito da classe política gaúcha perante o seu eleitorado”, pontua Marco Antonio Teixeira, da FGV-SP. O enigma do eleitor desconfiado se impõe às campanhas. Decifrá-lo ou não pode significar a diferença entre a vitória e a derrota em outubro.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007








