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Perícia: ligações de celular desmentem versão de Mizael

Primeiro dia do julgamento de ex-PM acusado pela morte da advogada Mércia Nakashima contou ainda com testemunhos de irmão da vítima e de biólogo

Por Da Redação - 11 mar 2013, 21h59

Um perito em engenharia elétrica convocado pela acusação disse na noite desta terça-feira que é “impossível” que o advogado e ex-policial militar Mizael Bispo de Souza, acusado pelo assassinato da advogada Mércia Nakashima, estivesse nas proximidades do Hospital Geral de Guarulhos, no momento do crime, conforme sustenta a defesa do réu.

Em depoimento à polícia na época do crime, em 2010, o ex-PM disse que passou parte do dia com uma prostituta em seu carro, que permaneceu estacionado próximo ao hospital. A defesa apontou dados do GPS do carro para comprovar a afirmação,

Mas ao testemunhar, o perito Eduardo Amato Tolezani disse que, enquanto o GPS mostrou o carro parado na região do hospital, o celular de Mizael apontou que ele estava em outro local. O perito disse ter analisado duas chamadas feitas pelo réu na noite do dia 23 de maio de 2010, quando Mércia foi baleada e morreu afogada numa represa de Nazaré Paulista, a cem quilômetros de Guarulhos.

Segundo o perito, as ligações foram completadas com o auxílio de antenas que não atendem a região do hospital, e, portanto, o aparelho usado por Mizael estava em outra região. “Os dados sugerem que as ligações estão acontecendo de locais diferentes do GPS”, disse o perito, que é mestre pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

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O julgamento de Mizael começou por volta de 10h desta segunda. Logo após o início, a sessão começou a ser transmitida pela internet – um caso inédito na Justiça paulista.

A transmissão só foi interrompida por volta de 19h, quando a terceira testemunha, o engenheiro, foi convocado. Antes de começar a falar, ele pediu ao juiz que a transmissão fosse interrompida e o pedido foi atendido. Tolezani falou por cerca de uma hora e meia. O julgamento só terminou por volta de 20h30, e deve ser retomado na manhã de terça-feira.

Alga – Mais cedo, a acusação também chamou para testemunhar o biólogo Carlos Eduardo de Mattos Bicudo, do Instituto de Botânica de São Paulo. Durante as investigações, ele havia analisado restos de uma alga encontrada na sola do sapato de Mizael. Segundo a perícia do biólogo, a alga era compatível com uma espécie que existe no lago da represa de Nazaré Paulista, onde o corpo de Mércia foi encontrada. Segundo o perito, a alga grudou no sapato de Mizael quando ele colocou os pés dentro do lago.

A defesa tentou levantar dúvidas sobre o parecer do perito, que disse que a alga pode ser encontrada em outros locais do estado de São Paulo. A defesa de Mizael também apresentou um relatório elaborado pelo físico Oswaldo Negrini Neto que contesta o parecer de Bicudo. Negrini deve ser ouvido pela defesa nos próximos dias.

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Irmão – A primeira testemunha de acusação ouvida nesta segunda foi o irmão da vítima, o empresário Márcio Massami Nakashima, que afirmou que Mizael se tornou uma pessoa possessiva e ciumenta ao longo do relacionamento com Mércia. “No início era um relacionamento normal. Depois o Mizael foi se transformando em um sujeito muito ciumento, possessivo”, afirmou o empresário, que pediu para ser ouvido sem a presença do réu no plenário. “Ele ligava várias vezes e ficava cercando a Mércia. No final, foi um relacionamento bastante conturbado.”

Questionado pelo promotor Rodrigo Merli, Márcio Nakashima não soube especificar por que o relacionamento da irmã com o réu acabou, mas afirmou que Mércia estava tendo problemas na sociedade com o namorado no escritório de advocacia e que cobrava de Mizael o pagamento de honorários de causas em que haviam trabalhado. Segundo o empresário, a vítima havia relatado à irmã, Cláudia, uma discussão “mais truculenta” com o namorado. A família, contudo, não chegou a presenciar agressões de Mizael contra Mércia.

“Quando acabou a sociedade, a Mércia se afastou e o Mizael não aceitou”, disse. Ele relatou que Mizael ia atrás da irmã na casa dela, que tentava forçar a entrada no prédio e que a procurava no trabalho, além de fazer ligações constantes para a vítima. “Ela trocou de celular algumas vezes, mas ele sempre acabava conseguindo o número dela”. Márcio disse ainda que em um e-mail que consta no processo, Mizael disse que Mércia teria “um encontro com Deus”.

Jurados – Cinco mulheres e dois homens fazem parte do júri. No total, deverão ser ouvidas onze testemunhas, sendo cinco de acusação, cinco de defesa e uma convocada pelo juiz. O ex-PM é acusado por homicídio triplamente qualificado – praticado por motivo torpe, com emprego de meio cruel e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima. A promotoria defende que o advogado matou a namorada por ciúmes, após o término da relação.

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Mércia Nakashima desapareceu após sair da casa dos avós, em Guarulhos, em 23 de maio de 2010. Em 10 de junho, após receber informações de um pescador, o carro dela foi localizado submerso em uma represa de Nazaré Paulista, no interior do Estado. O corpo, em avançado estado de decomposição, foi encontrado um dia depois. Mizael se entregou à polícia em fevereiro de 2012.

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