Pedreiro fala das três décadas de espera para ter justiça após a morte do filho de 2 anos
'Nunca desisti de lutar'
Após três décadas da morte do meu filho Maicon, vítima de uma bala perdida da polícia, conseguimos enfim reabrir o inquérito criminal e receber um pedido de desculpas formal do Estado brasileiro. Eu nunca desisti de lutar, nem um dia desde que ele se foi, sempre cobrando uma resposta do Ministério Público do Rio. Maicon era um bebê, tinha apenas 2 anos, quando levou um tiro no lado esquerdo do rosto. Ao ver o boletim de ocorrência, não acreditei. Lá dizia: autor de auto de resistência. Como se ele, um garotinho, tivesse resistido à abordagem dos agentes. Era 15 de abril de 1996, pouco antes das 17h. Maicon estava brincando de recolher chapinhas de refrigerante com outras crianças e o irmão, em um beco próximo à nossa casa, na favela de Acari, na Zona Norte carioca. Minha mulher costurava, eu lavava a bicicleta, e, em meio a uma ação policial, o tiroteio começou. Como era o menor do grupo, Maicon não conseguiu correr tão rápido e foi atingido. Saí em disparada em sua direção e ouvi um PM falando, com uma pistola na mão: “Maldita hora em que entrei nesta favela”.
Não aguentei. Parti para cima dele e segurei a arma, para que não atirasse mais. Foi a mãe que pegou nosso filho no chão, todo ensanguentado. Ela acha que foi ali que ele morreu, no seu colo. Levei-o ainda ao hospital, onde chegou sem vida. O irmão tinha 6 anos e até hoje se lembra de ver Maicon caído e dos vizinhos lavando o sangue na porta de nossa casa. Nunca se recuperou do trauma e hoje, aos 36 anos, vive em Portugal, sem jamais ter pisado de novo no Brasil. O movimento por justiça começou já no cemitério, com um monte de gente da comunidade prestando solidariedade. Maicon era uma criança ativa, que deixou muita saudade. Sensível, adorava levar as flores que achava nas ruas para a mãe. Não tem uma vez que eu passe por um canteiro e não me emocione. A perda de um filho é irreparável. Minha mulher, recém-diagnosticada com Alzheimer, ficou com sequelas emocionais que nunca a abandonaram.
Durante todo esse tempo, fiz vigília na porta do Ministério Público sempre na data da morte do Maicon e no dia de seu aniversário, 25 de outubro. Levava comigo um grande cartaz com um coração no meio, seu nome e a palavra justiça. O painel aparece até em uma cena do filme Tropa de Elite 2. Se não fosse pela minha religiosidade, já teria morrido de tanto esperar. O caso foi arquivado em 2019 e acabou sendo reaberto pelo MP, que atendeu a uma recomendação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Ouviram, enfim, meu apelo. A comissão disse com todas as letras ter havido ali violação do direito à vida e da proteção à criança. A cerimônia de reparação foi no próprio MP, com um pedido de desculpas apresentado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Assinamos inclusive um acordo, e o velho registro da ocorrência que ceifou a vida do meu filho foi mudado. Agora, diz: “vítima de agente do Estado”.
Senti um alívio, limpamos o nome de Maicon, mas ainda falta modificar a certidão de óbito, outra etapa deste longo processo. Também será erguida uma estátua dele no mesmo Ministério Público, onde por tantos dias fiquei de pé, na entrada. Segundo o acordo que assinamos, o Estado terá ainda que explicar à Comissão de Direitos Humanos o inexplicável sobre a morte do meu filho. Foram cinco policiais envolvidos e não sei o que fazem da vida. A Polícia Civil precisará investigá-los. Mas, pelo imenso tempo que passou, não existe a possibilidade de um trabalho de apuração para valer. Não haverá júri nem condenação, portanto faltará um ponto-final para tamanha dor. Que nossa batalha pelo menos sirva de exemplo para que outros persigam a justiça, sempre. Nunca desisti dela nem do meu filho, que teria hoje 32 anos.
José Luiz da Silva em depoimento a Ludmilla de Lima
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003






