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Os 45 dias que levaram Marina Silva às urnas

Como o 'furacão Marina' que chacoalhou a eleição presidencial perdeu força e pode até sair das urnas menor do que na disputa de 2010

Por Talita Fernandes - 5 out 2014, 07h31

Na noite de 12 de setembro, um dia antes de completar um mês da trágica morte de seu companheiro de chapa Eduardo Campos, Marina Silva deixou uma marca importante em sua campanha para a Presidência da República. Foi nesse dia que ela subiu em um palanque montado na Praça do Ferreira, no centro de Fortaleza, e fez um de seus discursos mais emocionantes. Naquele dia, Marina conseguiu deixar de lado a imagem de mulher frágil e, com olhos marejados e voz embargada, deu uma pancada na presidente-candidata Dilma Rousseff (PT). Na época, Marina estava irritada com boatos espalhados pela máquina de propaganda petista de que ela acabaria com o Bolsa Família se eleita. Do alto de um palanque, dedo em riste, Marina disparou: “Dilma, fique ciente! Eu não vou lhe combater com as suas armas. Eu vou lhe combater com a nossa verdade, com o nosso respeito e com as nossas propostas. Eu ofereço a outra face (…) Nós vamos manter o Bolsa Família. Sabe por quê? Eu nasci no Seringal Bagaço. Eu sei o que é passar fome”, discursou.

A fala, que remete à Páscoa de 1968, quando seus pais abriram mão de comer para distribuir o pouco de comida que tinham aos oito filhos, foi parar no programa eleitoral de Marina. Os “marineiros” gostaram e reconheceram no discurso uma energia que Marina não foi capaz de manter ao longo dos 45 dias que deixou o papel de vice para assumir a candidatura à Presidência da República. Uma semana antes de viajar para Fortaleza, Marina viu seu bolso se encher de bilhetes em meio a um comício em Vitória da Conquista (BA) enquanto aguardava para discursar em um palanque no centro da cidade: moradores entregavam pedacinhos de papeis para ela e para o seu vice, Beto Albuquerque, perguntando sobre a continuidade de programas como o Bolsa Família e a pavimentação de estradas na região, caso os dois fossem eleitos. Os questionamentos eram reflexo dos boatos espalhados pelo PT nos rincões do Brasil. Àquela altura, o PT mais uma vez apostou que o terrorismo eleitoral e a desconstrução da imagem de Marina, pintada como uma candidata volúvel, daria certo. Segundo as pesquisas, deu.

Ainda no comício no Ceará, Marina mostrou sua habilidade em improvisar discursos e responder a críticas. Do palanque, a candidata se deparou com um burburinho entre os que assistiam ao comício. Um grupo de jovens do movimento LGBT (sigla para Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) ensaiou vaias enquanto levantava cartazes com mensagens de protesto ao recuo da candidata do PSB sobre o casamento gay. Para abafar a vaia, Marina voltou a recorrer à história de vida dizendo que se sentia em casa no Ceará, estado de onde partiram seus pais rumo ao Acre durante o ciclo da borracha. “Todos podem se manifestar. Só na ditadura é que não. Respeitamos a opinião e o desejo de manifestação livre. Agora, vamos conversar. Estou muito feliz de estar no Ceará. Eu me sinto em casa. E na casa da gente, a gente recebe bem, a gente recebe com educação”, afirmou.

Na manhã seguinte ao comício em Fortaleza, Marina deu sequência a uma intensa agenda de campanha no Nordeste, o que lhe custou a voz e ajudou a estampar cada vez mais em seu rosto a marca do cansaço. Na manhã do sábado, 13 de setembro, ela visitou Sobral, no interior do Ceará, de onde partiu para duas cidades paraibanas, Campina Grande e a capital João Pessoa. A agenda só terminou na madrugada, após um comício em Teresina, no Piauí. Durante aquele sábado, o percurso percorrido por Marina e seus assessores próximos, em um avião fretado pela campanha, foi marcado por recordações de Campos. Era a segunda vez que a candidata viajava em voo fretado desde a morte do companheiro de chapa. O medo de avião é uma marca da ex-senadora, que costuma pegar voos de carreira sempre que possível. Como a agenda tornou-se cada vez mais intensa, ela teve de enfrentar o medo e encarar outros voos em aeronaves menores.

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Programa – Os protestos enfrentados em Fortaleza mostram que os percalços de campanha não têm origem apenas nos boatos espalhados por seus adversários. O que era para ser sua grande bandeira de campanha, o programa de governo, símbolo da “aliança programática” costurada com Campos, acabou se tornando uma dor de cabeça. Às 10h50 do dia 30 de agosto, menos de 24 horas após o lançamento do documento de 242 páginas, a equipe de comunicação da campanha divulgou a segunda errata, alterando o capítulo LGBT. A primeira correção foi divulgada ainda no dia 29 de agosto, excluindo do capítulo sobre energia, a proposta de estímulo à energia nuclear.

Ao alterar o capítulo LGBT do programa, Marina retirou o texto que pregava a lei que criminaliza a homofobia e que defende o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Hoje, a lei brasileira, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), reconhece apenas a união civil entre pessoas do mesmo sexo, o que não implica na alteração do estado civil. A campanha tentou se explicar atribuindo o erro a uma “falha processual na editoração”. Era tarde. Muitos dos que tinham comemorado a proposta na noite de sexta, passaram a publicar nas redes sociais que Marina teria cedido às críticas do pastor Silas Malafaia, que disparou no Twitter criticando o programa da ex-senadora. Ao ler o texto que fora divulgado já em sua casa, na noite do dia 29, Marina procurou seus assessores irritadas e deixou um recado: “Vocês que erraram que resolvam”.

Outra crítica que teve origem no programa de governo, especialmente por parte do PT, é uma herança deixada por Campos. A defesa da independência do Banco Central. Um assessor próximo à Marina conta que ela, e nem mesmo um dos principais economistas da campanha, Eduardo Giannetti, concordavam com a declaração formal do BC independente. “Mas o Eduardo argumentou que a descrença do mercado era tão grande com o Banco Central que era preciso mais do que uma sinalização, mas um compromisso formal”, conta, dizendo que a argumentação do pernambucano fez com que a campanha acatasse a ideia do ex-governador.

A defesa do Banco Central independente, embora tenha sido aplaudida pelo mercado, foi um prato cheio para o PT divulgar um programa de TV que mostrava a comida sumindo do prato de uma família, cena intercalada com um jantar de banqueiros felizes e sorridentes. A “propaganda do medo” de Dilma passava o recado que a proposta do PSB de independência ao Banco Central significaria perda das conquistas sociais e a entrega do país aos banqueiros.

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A mesma discussão sobre o Banco Central independente foi usada por Dilma durante debate de presidenciáveis na TV Globo, no dia 2 de outubro. No lugar da firmeza que a candidata do PSB mostrou nos dois primeiros debates – da TV Bandeirantes e do SBT -, Marina mostrou-se apagada. Quando foi sorteada com o tema “autonomia do Banco Central”, Marina escolheu Dilma para responder à pergunta: “Candidata Dilma, a senhora tem feito uma série de acusações em relação à autonomia do Banco Central, que, aliás, a senhora defendeu em 2010, e entrou, inclusive, numa batalha campal com o candidato Serra, porque ele era contra. Agora você diz que também é contra a autonomia do Banco Central. Qual é a Dilma que está falando agora?”, questionou. Dilma devolveu afirmando que autonomia e independência são coisas distintas. Não soou bem para Marina.

Simultaneamente à queda nas pesquisas, sua voz desaparecia. A equipe chegou a contratar uma fonoaudióloga às pressas, mas a voz continuou falhando até o fim da campanha. Desde então, ela começou a andar cada vez mais com sua garrafinha térmica com água quente. Por recomendação de um médico ortomolecular a água morna visa a aliviar as marcas da contaminação por metais pesados. A garrafa térmica é levada pelas filhas, que têm se revezado em algumas agendas da mãe. A caçula Mayara, que estuda jornalismo em Campinas (SP), acompanhou Marina em agenda na cidade do interior paulista no último dia 20 de setembro. A primogênita, Shalon, tirou férias em outubro e tem seguido Marina em suas viagens pelo país. No evento no Recife que abriu a última semana de campanha, Shalon subiu no palaque ao lado dos filhos de Eduardo Campos.

Nas entrevistas coletivas, Marina também passou a demonstrar impaciência com alguns questionamentos mais espinhosos. A agenda intensa, que lhe impunha até três coletivas no mesmo dia, também fez com que a assessoria da campanha encurtasse cada vez mais o número de perguntas.

Na visão de um assessor que acompanha Marina há anos, falta habilidade à ex-senadora para lidar com ataques. Ele lembra de um episódio vivido pela candidata ainda no Acre, quando disputava o cargo de vereadora de Rio Branco. Em meio a uma caminhada de campanha, Marina ficou inconformada com uma mulher que apareceu em sua frente esbravejando: “Marina, eu te odeio”. Marina passou dias remoendo a bronca.

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Em entrevista recente a VEJA, Marina deixou claro que não esperava que o PT usasse “um marketing tão selvagem”. Durante a conversa, a candidata deixou transparecer uma mágoa em relação a seu antigo partido, e tentou suavizar sua mágoa com Lula. “Eu peço a Deus que Lula ajude o PT a sair dessa lógica dos aloprados”, declarou. Para um aliado, essa ligação com o passado é um dos fatores que atrapalham Marina a aceitar que o cenário mudou. “Ela tem sido aconselhada a deixar de lado essa história e a endurecer mais as críticas”, conta. Nos últimos dias, quando aconselhada a voltar a demonstrar alegria, como fizera em 2010, Marina silenciou.

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