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Quatro erros fatais de Bolsonaro na vacinação contra a Covid-19

Mais de 2 meses após seu início, a campanha de imunização contra Covid-19 ainda caminha a passos lentos no país devido à escassez de doses

Por Giulia Vidale Atualizado em 25 mar 2021, 21h04 - Publicado em 23 mar 2021, 12h54

A vacinação contra a Covid-19 começou no dia 17 de janeiro, quando São Paulo aplicou a primeira dose da CoronaVac na enfermeira Mônica Calazans, logo após a Anvisa conceder a autorização de uso emergencial do imunizante do Instituto Butantan e da vacina de Oxford, produzida e distribuída no Brasil pela Fiocruz. Depois de dois meses, a campanha de vacinação ainda caminha a passos lentos no país.

Até segunda-feira, 22, 11,9 milhões de pessoas já foram imunizadas. O que corresponde a menos de 6% da população. Destas, apenas 4,2 milhões completaram o esquema de vacinação com duas doses. A lentidão está associada à escassez de vacinas. Até o momento, 29,1 milhões de doses foram disponibilizadas aos estados, mas o governo federal determinava que metade do quantitativo de CoronaVac recebido deveria ser armazenado para aplicação da segunda dose. Essa regra foi extinguida na segunda-feira, quando o Ministério da Saúde liberou a aplicação imediata de todas as vacinas entregues e as que estavam em estoque, reservadas para administração da segunda dose. De acordo com a pasta, a decisão “levou em conta a previsão de entregas semanais do Butantan e da Fiocruz, que aceleraram a produção”.

A falta de vacinas se deve sobretudo a erros cometidos pelo governo federal. Por bastante tempo, o presidente Jair Bolsonaro preferiu apostar em tratamentos sem comprovação científica, como a cloroquina e a hidroxicloroquina, em detrimento de vacinas. Confira abaixo principais  erros cometidos por Bolsonaro que comprometeram a aceleração da campanha de imunização.

1. Ignorou a primeira oferta da Pfizer: A farmacêutica americana enviou em agosto de 2020 uma proposta inicial ao governo federal para o fornecimento de 70 milhões de vacinas. A oferta previa a primeira entrega já em dezembro e as demais ao longo do ano. No entanto, o governo simplesmente ignorou essa oferta e também uma carta enviada por Albert Bourla, CEO global da Pfizer, retomando a proposta e enfatizando a importância da companhia trabalhar com o Brasil, conforme revelou VEJA em entrevista com o presidente da Pfizer Brasil no ano passado. Em diversas ocasiões, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde Eduardo Pazuello criticaram a Pfizer e os termos exigidos pela farmacêutica no contrato e a quantidade de doses oferecidas. Diante do agravamento da crise sanitária no país, com um atraso de sete meses, o governo assinou o contrato. Mas as doses só começam a chegar em abril.

2. Recusou a compra da CoronaVac: Durante muitos meses, o presidente se recusou a comprar a CoronaVac, vacina desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac, produzida e distribuída no Brasil pelo Instituto Butantan, ligado do governo do estado de São Paulo. Quando ao imunizante começou a ganhar a dianteira, Bolsonaro disse em várias oportunidades que não compraria “a vacina chinesa”. Em outubro, Bolsonaro chegou a cancelar a compra da vacina, anunciada anteriormente por Pazuello, sob a alegação que o povo brasileiro não seria “cobaia de ninguém”. Quando a Anvisa suspendeu os testes fase 3 realizados no Brasil após a morte de um voluntário – que não estava associada ao uso da vacina -, Bolsonaro chegou a insinuar que havia vencido a discussão sobre o imunizante chinês, ao comentar o post de um simpatizante sobre o assunto.

3. Aposta em apenas uma vacina: Em julho de 2020, o governo federal fechou acordo com a AstraZeneca para a aquisição de vacinas e transferência de tecnologia para a produção do imunizante, desenvolvido em parceria com a Universidade Oxford, pela Fiocruz. No entanto, quando questionado sobre possíveis acordos com outras empresas, Bolsonaro disse que os fabricantes deveriam correr atrás do mercado brasileiro, e não o contrário. “Pessoal diz que eu tenho que ir atrás [da vacina]. Quem quer vender [é que tem]“, disse o presidente. Vale lembrar que praticamente todos os países que começaram rapidamente suas campanhas de vacinação e hoje têm a disposição uma grande quantidade de doses, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e União Europeia, fecharam acordos para a compra de milhares de doses, com diversos laboratórios, quando as vacinas ainda estavam em fase de desenvolvimento.

4. Negação sobre a importância da vacinação: Desde que começou a ser pressionado para a aquisição de vacinas, Bolsonaro desconsiderou a importância da vacinação. Desde o início, o presidente questionou a segurança dos imunizantes, defendeu a não obrigatoriedade da vacinação e afirmou que, ele mesmo, não tomaria a vacina. “Eu não vou tomar vacina e ponto final. Se alguém acha que a minha vida está em risco, o problema é meu”, disse Bolsonaro durante entrevista à TV Bandeirantes, em dezembro de 2020. Em momento algum o presidente enfatizou a importância da vacinação no combate à pandemia e explicou o impacto que a escolha individual de cada um, ao se vacinar ou não, pode ter na saúde coletiva.

Apenas recentemente, quando o país enfrente seu pior momento da pandemia, tornando-se a segunda nação com maior número de óbitos e casos, atrás apenas dos Estados Unidos, Bolsonaro passou a defender a vacinação.

Ainda em março de 2021, logo após um discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em que o petista defendeu a vacinação e criticou o governo federal, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente, defendeu a vacinação em suas redes sociais. “Nossa arma é a vacina”, escreveu em suas redes sociais. Também neste mês, o governo finalmente fechou acordos para a compra de doses das vacinas da Pfizer e da Janssen. No entanto, devido à demora, o maior contingente destes imunizantes só chegará ao país no segundo semestre.

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