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O último vôo do Fênix 4

VEJA mostra imagens gravadas pelo helicóptero da PM em sua última missão

Por Leslie Leitão - Atualizado em 10 dez 2018, 09h31 - Publicado em 25 nov 2016, 11h37

Eram 10h16 da manhã quando o coronel Henrique Marinho, subchefe do Estado Maior, deu a ordem para acionar o Fênix 4. O comandante Rogério Melo Costa saiu apressado com outros três tripulantes. Era um acionamento corriqueiro, para apoiar colegas que, mais uma vez, estavam encurralados debaixo de uma chuva de tiros disparados por traficantes em algum lugar do Rio de Janeiro. Havia sete minutos que a Linha Amarela estava fechada na altura da Cidade de Deus, chegando à Barra da Tijuca (sim, exatamente no trajeto percorrido por delegações do mundo inteiro em agosto, para as Olimpíadas). A equipe do Grupamento Aeromóvel (GAM) chegou e o cenário de guerra era bem menos caótico. Outras equipes da PM, por terra, já haviam ajudado os agentes da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) a sair do sufoco. Quando o helicóptero sobrevoava a favela, às 11h02, o oficial pediu permissão para ir embora. Foi autorizado. A obstinação deles, no entanto, não permitiu. Exatamente às 11h06, o major Melo avistou um grupo de criminosos armados com fuzis e pistolas, caminhando por becos e vielas e indo em direção à mata. As imagens, algumas das últimas captadas pela câmera acoplada à aeronave, foram obtidas pelo site de VEJA.

Elas revelam, primeiramente, o já batido e impressionante poderio bélico dos criminosos nessas favelas ocupadas que o ex-secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, propagava ter eliminado. O coronel Henrique – responsável pela parte operacional da PM – deu outra ordem, para que o Batalhão de Operações Especiais (Bope) fosse imediatamente para a região. “Só coordenar as equipes de solo, porque eles não vão sair enquanto estivermos aqui”, avisou o major lá do alto. O Flir (equipamento de monitoramento) flagrara o grupo se escondendo debaixo de uma árvore. O material (fotos e vídeos) foi  enviado para um tenente dos Caveiras. Era uma questão de tempo cercar o grupo de bandidos que tentava atravessar a Linha Amarela para invadir a vizinha Gardênia Azul, dando sequência à sangrenta disputa de território que já durava mais de três dias.

Só que o Bope não chegou. Ou melhor, chegou, mas demorou. A determinação de seguir para o ponto exato apontado pelos ‘olhos’ do Fênix 4 ficou para depois. No meio do caminho, a tropa de elite mudou sua rota. Foi até a delegacia do bairro da Taquara, onde um informante e um delegado da Polícia Civil diziam ter informações valiosas. Henrique se irritou. Já passava de 1h da tarde. E não era a primeira ordem dada a alguma equipe do Comando de Operações Especiais (COE) que ficava pelo meio do caminho. Em 10 de outubro, o dia que decretou a queda do arquiteto das UPPs José Mariano Beltrame, o Bope havia sido acionado de manhã para apoiar a equipe que fora atacada enquanto patrulhava os morros do Pavãozinho e Cantagalo. Quando os agentes já estavam no meio do trajeto entre Laranjeiras e Ipanema, uma ordem superior (do COE) determinou que todos voltassem à unidade. Horas mais tarde, tiveram que sair outra vez em socorro. Naquele dia, três policiais foram baleados.

Em 31 de outubro, outra decisão do COE irritou a cúpula da PM (desta vez, já nos primeiros dias do comando do coronel Wolney Dias, um oficial que estava na reserva e que foi colocado para chefiar a corporação a contragosto de muita gente). Naquela manhã, o Bope operava no mesmo Pavãozinho quando veio o pedido de ajuda aos policiais da Companhia que estavam encurralados no Morro do Banco, no Itanhangá. Veio socorro de várias unidades e até da Polícia Civil, mas a elite da polícia carioca não chegou a tempo no Alto da Boa Vista.

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Na Cidade de Deus o Bope, enfim, entrou. E aconteceu o óbvio. Tiros. Muitos tiros. As imagens reveladas agora por VEJA mostram não apenas a quantidade, mas a audácia de criminosos donos de um território que, está claro, jamais perderam (só em 2016, dois agentes da UPP morreram ali). “Eles estão a caminho do mangue”, avisou o major Melo no rádio. O relógio marcava quase duas da tarde. Enquanto o Bope tentava seguir em frente, o grupo de bandidos – quase todo descalço, com fuzis ou pistolas nas mãos – atacava. Vários deles estavam  em frente à Igreja Evangélica Tenda dos Milagres. Um homem pulava no meio da rua. Se preparava e disparava. Um cachorro tentava avançar na perna dele. Parecia querer brincar. Saltava junto de volta em busca de abrigo.

Outros traficantes chegavam para o meio da rua, olhavam, não enxergavam. E todos se abrigavam novamente diante dos tiros que vinham do outro lado. A todo instante um deles voltava para olhar, às vezes atirava, às vezes recuava. Com um fuzil FAL 7.62 nas mãos, é possível avistar um criminoso de camisa vermelha com um colete à prova de balas. Um outro bandido se agachava e atirava mais, enquanto um comparsa, de pé, atirava por cima. Três homens tentavam rastejar em busca do melhor ângulo para uma nova saraivada de tiros. À essa altura o Fênix 5 (chamado de Sapão, que é blindado) era acionado. Ele, sim, ficaria mais perto da favela, com a missão de se aproximar do combate. O risco do Fênix 4 era maior não apenas por não ser blindado, mas por carregar o Flir, um equipamento avaliado em mais de 2 milhões de dólares.

Entre idas e vindas para abastecer, o Fênix 4 cumpriu sua última missão. A tragédia que matou o major Rogério Melo Costa, o capitão William de Freitas Short, o subtenente Camilo Barbosa Carvalho e o sargento Rogério Felix Rainha, já no início da noite, ainda não tem uma causa definida. Os bandidos atiraram contra a aeronave, sim. Mas não foi encontrada, ao menos numa primeira análise, qualquer marca de disparo que ateste que foi esse tiro que derrubou o helicóptero. A Cidade de Deus continuou em chamas. Na mata, o Bope alcançou parte do grupo que escapara. O confronto se desenrolou noite adentro e resultou na morte de sete traficantes. É o reflexo de um processo de pacificação fictício que agora cobra sua conta.

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