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O submundo das festas clandestinas que se espalham pelo país na pandemia

Muvuca ilegal é apoiada em estruturas ultraorganizadas e embalada por uma turma alheia ao perigo; Rio encabeça a lista

Por Jana Sampaio, Sofia Cerqueira Atualizado em 18 mar 2021, 23h20 - Publicado em 26 fev 2021, 06h00

No palco montado sob uma imensa lona, DJs, contorcionistas, malabaristas e cuspidores de fogo desenvolviam suas coreografias enquanto a plateia fervia na pista embalada pela batida eletrônica. O contato humano seguia a todo o vapor entre as 500 pessoas que foram conferir a festa Circus — “com toda a estrutura”, alardeava o convite — no sábado 20, em Magé, município vizinho ao Rio de Janeiro. Para sacudir o esqueleto naquelas bandas, os presentes obedeceram regiamente a uma cartilha de transgressões que vem sustentando no Brasil uma movimentada indústria de festas clandestinas em plena pandemia. Ela começou tímida, com uma balada aqui, outra ali, até ganhar vulto e girar uma cadeia produtiva que, em fins de semana, chega a pôr de pé até 1 500 delas em todo o país. Segundo as estatísticas reunidas pela página no Instagram Brasil Fede Covid-19, o Rio encabeça a muvuca ilegal, seguido de Santa Catarina e São Paulo.

O ESQUEMA - Pagamento de ônibus: o destino final só é revelado na chegada -
O ESQUEMA - Pagamento de ônibus: o destino final só é revelado na chegada – Alex Ferro/VEJA

Festas Clandestinas em plena Pandemia

A reportagem de VEJA trilhou todas as etapas envolvidas na ida à Circus, um passo a passo que se repete hoje na proibida cena festeira da cidade. Os promoters fazem o convescote circular nas redes sociais, sem nunca revelar a identidade. Interessados entram em contato e recebem os dados bancários para a compra do ingresso (neste caso, 80 reais). Enviado o comprovante de transferência, revela-se onde será o ponto de encontro para a partida dos ônibus que, enfim, conduzirão a multidão à festa. Naquele dia 20, umas 100 pessoas, a maioria sem máscara nem sinal de álcool em gel, se aglomeravam para embarcar no local combinado, na Baixada Fluminense, às 23 horas. Duas viaturas policiais passaram por ali como se nada houvesse. O endereço do balaco, distante 30 quilômetros, só seria revelado na chegada. “Sei que não é certo, mas não aguento mais ficar trancafiado em casa”, explicava um jovem animado, dando voz à falta de noção coletiva. A música rolou até as 7 da manhã. Às 8 horas, os mesmos organizadores anunciavam uma pool party — esta matutina, com direito a mergulho de piscina noutro canto do Rio.

arte alerta

O submundo das festas clandestinas vem se sofisticando conforme o cerco a elas aumenta, num jogo de gato e rato entre os organizadores e o poder público, que muitas vezes perde a queda de braço. Aos frequentadores, impõem-se cada vez mais regras — e não são as de segurança sanitária, com certeza. Em certos casos, os celulares precisam ser depositados em um guarda-volumes na entrada, para evitar fotos. É comum também que, para despistar as autoridades, o endereço de uma balada seja alterado diversas vezes. Com o novo coronavírus ainda em patamar alto, festas estão terminantemente proibidas por todo o país. As boates podem funcionar com mesas e cadeiras ocupando a pista de dança e a música deve ser mantida em volume moderado. Já nos bares, a lotação foi reduzida e as mesas, espaçadas. Mas há sempre os espertalhões de plantão para dar um jeito. “As pessoas burlam a lei das formas mais variadas. Sabemos, por exemplo, que bares se transformam em boates fervilhantes quando a vigilância arrefece”, diz o criador da página Brasil Fede Covid, que registra denúncias de aglomerações em todos os estados. Ele pediu anonimato por estar sofrendo ameaças depois que começou a mexer no vespeiro.

Pico de Festas Clandestinas no Carnaval

No Carnaval, os números da ilegalidade dispararam: de 800 para 5 000 festas por dia — e, ao que tudo indica, continuarão inflados. A imagem de uma massa de gente amontoada para comparecer a um baile no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio, é difícil de apagar de tão desconcertante. O cantor Belo, a atração principal, acabaria preso (e logo solto) por descumprir as resoluções municipal e estadual que vetam aglomerações e por associação criminosa, já que o evento fora organizado com o aval dos traficantes. “A minha responsabilidade era só me apresentar para os fãs. Mesmo numa crise sanitária, tenho contas a pagar. Mas peço desculpas”, disse a VEJA. A reportagem procurou 43 profissionais que atuam em festas clandestinas, entre artistas, DJs e promotores de eventos, além de donos dos estabelecimentos que as sediam. Apenas nove falaram e cinco aceitaram dar o nome. Todos se eximem do peso de participar de algo indesejável no meio de uma pandemia argumentando, como Belo, que precisam trabalhar. “Sei que o momento não era para isso, mas chegou um ponto em que eu não tinha mais de onde tirar dinheiro”, alega um DJ, que já deu os ares da graça em sete festas proibidas neste ano.

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CRIME E CASTIGO - Noite carioca: na sexta-feira 19, a prefeitura multou bares por muvuca na calçada e interditou uma festa -
CRIME E CASTIGO - Noite carioca: na sexta-feira 19, a prefeitura multou bares por muvuca na calçada e interditou uma festa – Alex Ferro/VEJA

As festas clandestinas movimentam uma robusta engrenagem. Um evento do porte da Circus, no Rio, ou do Industria Club, que chega a realizar em São Paulo seis festas em um único fim de semana, conta com um staff de cerca de sessenta profissionais, entre montagem, limpeza, segurança, técnicos de luz e som, recepcionistas, garçons, DJs e artistas. O lucro para os organizadores fica em torno de 70 000 reais em uma noite. “Esses eventos estão transformando o segmento no lobo mau da pandemia. É preciso desenhar um retorno ordenado”, diz a promoter Carol Sampaio, que comandava vinte festas por mês — hoje não faz nenhuma. O setor festeiro está elaborando um protocolo nacional para os tempos de novo normal — testagem rápida na porta, lotação limitada e a tríade máscara-­álcool em gel-distanciamento estão lá. Ainda aguarda um aval das prefeituras e uma melhora na situação pandêmica. Afinal, reconhecem os próprios empresários do ramo, é duro frear o ímpeto humano para aglomerações em plena balada. Em novembro, quando festas ainda eram permitidas no Rio, André Barros organizou uma para 1 000 pessoas na Marina da Glória, seguindo as boas regras sanitárias. Na madrugada, porém, ninguém lembrava mais o que era distanciamento social. “Funcionários foram hostilizados ao cobrar o uso da máscara”, conta André, à frente da iniciativa da nova cartilha de festas pós-vírus.

A imprudência e o negacionismo diante da pandemia são uma praga mundial. Em julho passado, no auge do verão no Hemisfério Norte, já pipocavam as chamadas corona parties, o que fez com que muitos países limitassem o horário de casas noturnas e estipulassem multas polpudas para os sem-noção. Só no fim de semana de 20 e 21 de fevereiro, 370 festas foram interditadas pela polícia em Madri. Também no Brasil, medidas vêm sendo tomadas para restringir o agito noturno. Em São Paulo, a partir de sexta-feira 26, a circulação de pessoas está vetada entre 23 e 5 horas — quem for pego na primeira vez será apenas advertido. Na segunda, receberá multa em torno de 500 reais. Uma força-tarefa sairá às ruas à caça de aglomerações clandestinas, sujeitas a penalidades de até 290 000 reais. Em Salvador, tapumes foram erguidos para impedir o acesso às praias mais visadas. No Rio, quem não cumpre o distanciamento social nem usa máscara paga 112 reais, enquanto os que promovem a balada podem desembolsar 15 000 reais. “A gente fica em cima, mas sempre acham uma maneira de infringir as regras”, admite Brenno Carnevale, da Secretaria de Ordem Pública (Seop) do Rio. Nos últimos dez dias, foram aplicadas 613 multas e feitas 45 interdições.

FOLIA SEM LEI - Praia do Rosa, em Santa Catarina: a multidão ignorou o cancelamento do Carnaval -
FOLIA SEM LEI - Praia do Rosa, em Santa Catarina: a multidão ignorou o cancelamento do Carnaval – //Reprodução

A reportagem de VEJA acompanhou a ronda da Seop na sexta-feira 19, entre 19 horas e 2 da manhã. Vastos aglomerados foram dispersados nas calçadas de bares, uma festa foi interditada e outra, antevendo o perigo, havia mudado de endereço. Para disfarçar o movimento, estabelecimentos fechavam as cortinas. Autuado uma vez, o promoter Guilherme Acrízio segue com sua festa semanal Treta, em Copacabana, ilegalmente. “Adoto os protocolos sanitários, mas não dá para obrigar as pessoas a obedecer-lhes”, reconhece. “Quando os jovens estão em grupo, o senso de responsabilidade, o medo e a culpa se diluem”, observa a psicóloga Ceres Araujo. Baixar a guarda antes do tempo só vai adiar a hora de festejar para valer.

Colaborou Maria Eduarda Barros

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Publicado em VEJA de 3 de março de 2021, edição nº 2727

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