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O ‘sarau do mensalão’ segue com Cazuza e Pessoa

“Senhor procurador, 'sua piscina está cheia de ratos, suas ideias não correspondem aos fatos'”, empolgou-se o advogado de Anita Leocádia

Por Branca Nunes 16 ago 2012, 16h55

A veia poética do ministro Carlos Ayres Britto, presidente do Supremo Tribunal Federal, continuou provocando entusiasmo nos advogados dos réus do processo do mensalão durante a segunda semana de julgamento. Chico Buarque, tão mencionado nos primeiros dias, deixou de ser convocado pelo batalhão de bacharéis para ceder espaço a Cazuza, Fernando Pessoa, Luiz de Camões e, por que não, trechos de obras dos próprios defensores.

“Iria usar uma frase de Chico Buarque, que já foi citado aqui. Mas Chico já deu o que tinha que dar nessa tribuna”, avisou Luiz Maximiliano Leal Telesca Mota, advogado de Anita Leocádia, ex-assessora do então deputado federal Paulo Rocha. “Vou usar então uma citação minha: ‘Nós precisamos de um choque de serenidade. De uma bomba que produza calma, que produza jurisprudência. Essa denúncia não sobrevive a um olhar sereno'”.

Embora tenha concedido uma folga a Chico, Telesca Mota seguiu explorando a música popular brasileira. “Senhor procurador, ‘sua piscina está cheia de ratos, suas ideias não correspondem aos fatos'”, disse, ao encerrar sua sustentação oral com um trecho de O tempo não para, de Cazuza.

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Houve até quem arriscou improvisar em cima de uma obra prima de Luis Vaz de Camões. Depois de recitar a estrofe inicial do poema Sete anos de pastor (veja lista abaixo), João dos Santos Gomes Filho, advogado do ex-deputado petista Paulo Rocha, aventurou-se com um “não represento Raquel, mas Paulo Rocha”.

Antonio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay – advogado de Demóstenes Torres, Carolina Dieckmann e, no caso do mensalão, de Zilmar Fernandes, sócia do publicitário Duda Mendonça – também não resistiu à travessia do Atlântico. No desfecho de sua fala, empolgou-se com uma passagem do poema O que há, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa: “Há sem dúvida quem ame o infinito, há sem dúvida quem deseje o impossível, há sem dúvida quem não queira nada. Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: porque eu amo infinitamente o finito, porque eu desejo impossivelmente o possível, porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, ou até se não puder ser”.

As explanações orais foram enriquecidas com frases do rabino Nilton Bonder e de Malesherbes, advogado do rei Luís XVI, entre outras personalidades. A procissão dos advogados foi encerrada nesta quarta-feira, quando Joaquim Barbosa, relator do processo, começou a ler seu voto. Nos próximos dias, será a vez dos outros dez ministros do Supremo Tribunal Federal. Só então será possível saber se a magistratura anda tão inspirada quanto a nata da advocacia nacional.

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