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O medo do coronavírus em uma das cidades com mais idosos do país

Prefeitura de Veranópolis intensifica visitas domiciliares a moradores dessa faixa etária e cria anexo hospitalar exclusivo para problemas respiratórios

Por Eduardo Gonçalves Atualizado em 24 mar 2020, 12h34 - Publicado em 23 mar 2020, 20h21

O que sempre foi motivo de orgulho e de reconhecimento nacional para Veranópolis agora virou um problema. Batizada de “Terra da longevidade” na década de 1990, quando a expectativa de vida local era de 71,59 anos, bem acima da média brasileira da época (63,3), a cidade ficou conhecida pelo cuidado com os mais idosos, justamente o principal grupo de risco do coronavírus. Agora se prepara como pode para a chegada da doença.

“Estamos nos preparando para o pior. Não é fácil segurar os idosos em casa. São os mais ‘cabeças-duras'”, disse o prefeito Waldemar de Carli, de 67 anos, que divide o trabalho de mandatário com o de médico cardiovascular. Ele chegou a cogitar pegar os idosos mais frágeis e isolá-los num retiro, mas depois percebeu que a medida era inviável – até pela teimosia de seu público-alvo. A prefeitura, então, passou a intensificar as visitas em domicílio dos mais adoentados – são cerca de 100, conforme o banco de dados da administração.

A prefeitura improvisou um anexo no único hospital da cidade para receber pacientes com problemas respiratórios. “Temos quatro respiradores, mas atendemos a toda a região. Essa será uma unidade só para pessoas com suspeita de coronavírus”, disse o prefeito. Desde 2016, Veranópolis possui o certificado da Organização Mundial da Saúde (OMS) de “Cidade Amiga do Idoso”. Guiada por esse mote, a prefeitura possui uma Secretaria da Longevidade, um instituto de pesquisa da longevida e está prestes a receber um hotel geriátrico, cujas obras agora devem ser adiadas por causa da pandemia.

Apesar da fama, a cidade formada por descendente de imigrantes italianos, que também é considerada o “Berço Nacional da Maçã” (onde a primeira macieira foi plantada no Brasil), industrializou-se nos últimos anos e a proporção de idosos hoje é de 16% da população, ainda acima da média nacional, que é de 10%.

A cidade com o maior número proporcional de idosos do país fica a 110 quilômetros dali. É Coqueiro Baixo, no Vale do Taquari, também no interior gaúcho, com cerca de 1.500 habitantes. Lá, a cada dez pessoas, três são idosos. Com bem menos estrutura que Veranópolis (não tem nenhum hospital), o prefeito não teve muito o que fazer: decretou o fechamento das aulas e comércios e, com “peso no coração”, cancelou as festividades da região – a principal é o Coral de Música Tradicional Italiana, que costuma ocorrer em abril e reúne grupos de idosos de diversos municípios da região.

“Estamos bastante apreensivos com essa doença, porque a partir de abril o clima aqui é bem parecido com o da Itália. A preocupação é grande “, disse o prefeito Jocimar Valer. Coqueiro Baixo figura em primeiro lugar no ranking das cidades com maior predomínio de idosos do Brasil, com base em dados do IBGE. Dentre as 20 primeiras, outras dezessete pertencem ao Rio Grande do Sul. Questionados sobre o motivo da grande concentração de pessoas com mais de 60 anos na região, os prefeitos citam o ritmo pacato das comunidades e a alimentação típica – bastante churrasco e vinho. Que o coronavírus não acabe com esse estilo de vida característico.

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