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O Gigante do orçamento

O relator da mais poderosa comissão do Congresso, encarregado de ordenar as despesas do primeiro ano do governo Dilma Rousseff, já usou o Orçamento para mandar dinheiro público a empresa da família

Por Da Redação 7 dez 2010, 18h20

Rodrigo Rangel

Fenômeno
O senador Gin Argello é uma espécie de Midas da política: negócios prosperam desde que ele abandonou a carreira de corretor de imóveis
Fenômeno
O senador Gin Argello é uma espécie de Midas da política: negócios prosperam desde que ele abandonou a carreira de corretor de imóveis VEJA

Entre as dezenas de comissões que funcionam regularmente no Congresso Nacional, uma é especialmente cara aos interesses dos parlamentares, do governo e dos brasileiros em geral. Pelo crivo da Comissão Mista de Orçamento, formada por trinta deputados e dez senadores, passa todos os anos o trilionário Orçamento da União – um conjunto de planilhas que define como, onde e com que o governo vai gastar os recursos dos impostos pagos pelos contribuintes. Se quiserem, os parlamentares podem virar de ponta-cabeça os planos de um governo. Podem incluir ou retirar projetos considerados prioritários, limitar gastos, criar novas des-pesas. Depende do aval dos congressistas, inclusive, a definição sobre o valor do novo salário mínimo. Também é na Comissão que são enumeradas as obras que receberão dinheiro federal e a respectiva fiscalização do cumprimento. É, portanto, uma das atividades mais nobres e importantes do Parlamento e fundamental para o bom funcionamento da democracia. Com todas essas responsabilidades e poderes, com tanto dinheiro e interesses envolvidos, é mais do que compreensível que a Comissão de Orçamento atraia o que há de melhor do Congresso. O relator deste ano, por exemplo, é o senador Gim Argello, do PTB do Distrito Federal.

À exceção de um grupo de brasilienses mais atentos, Gim Argello passaria despercebido em qualquer lugar. Sem um único voto, ele assumiu a vaga no Senado há três anos no lugar de um amigo, o ex-governador Joaquim Roriz, que renunciou para evitar problemas mais sérios com a polícia. Ex-corretor de imóveis, Gim é um sedutor profissional. No Congresso, aproximou-se do presidente José Sarney, virou “amigo de infância” do senador Renan Calheiros e, com isso, rapidamente passou a frequentar como convidado especial as reuniões do grupo político mais influente do Parlamento, principalmente aquelas em que se discutem os temas que ninguém ousa tratar diante do grande público. Gim conseguiu ainda o que nem os seus mestres Roriz, Sarney e Renan tiveram a capacidade de conquistar: a atenção especial da presidente eleita Dilma Rousseff. O senador se diz “amigão” da presidente, com quem chegaria, inclusive, a compartilhar alguma intimidade. Que grau de intimidade? “Não insiste nisso que você me compromete”, responde, em meio a gargalhadas. Há quem diga que não existe intimidade alguma.

ANÕES 
O ex-deputado João Alves foi protagonista de um dos maiores escândalos políticos da história, que resultou na cassação e renúncia de dez parlamentares
ANÕES
O ex-deputado João Alves foi protagonista de um dos maiores escândalos políticos da história, que resultou na cassação e renúncia de dez parlamentares VEJA
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A aproximação do senador e da presidente eleita aconteceu em 2007, logo depois de Gim Argello assumir o cargo. Ele já conhecia Dilma, mas amizade mesmo ele tinha apenas com Erenice Guerra, a principal assessora da então ministra. Gim morava perto da casa de Dilma, no Lago Sul, em Brasília. Um dia, seu jardineiro contou-lhe uma novidade: Dilma passeava com o cachorro em horários diversos. Como os bons corretores, Gim viu ali a oportunidade de um excelente negócio, e ordenou ao funcionário que lhe avisasse quando a ministra saísse de novo. Por dias, o funcionário não fez outra coisa a não ser ficar vigiando a movimentação na casa vizinha – até que Dilma apareceu. Avisado, Gim calçou o tênis e foi caminhar. Parecia uma incrível coincidência: todas as vezes que Dilma saía, Gim cruzava o seu caminho. Os dois sempre completavam o percurso juntos, conversando animadamente. Foi assim que começou a grande amizade, segundo o senador descreveu várias vezes a seus colegas mais próximos. Mas essa é apenas uma das habilidades do senador. A outra é o toque de Midas, adquirido depois que ele ingressou na política.

NAS DUAS PONTAS 
Gim Argello transferiu recursos do Ministério do Turismo, através do Instituto Recriar (à dir.), para a emissora de rádio em nome do filho do senador
NAS DUAS PONTAS
Gim Argello transferiu recursos do Ministério do Turismo, através do Instituto Recriar (à dir.), para a emissora de rádio em nome do filho do senador VEJA

Observando-se o patrimônio declarado do senador, enxerga-se um sujeito de classe média, mas é apenas impressão. Gim tem muitos negócios, alguns em nome de parentes. Ele é dono de uma agência franqueada dos Correios. Anos atrás, comprou em nome do filho uma rede de lojas de pneus. O senador, que mora em casa de 873 metros avaliada em 6 milhões de reais, também é dono de emissoras de rádio e continua atuando com força no ramo imobiliário, sua principal especialidade. O modo Gim de negociar, aliás, é quase sempre heterodoxo. Ao comprar uma casa de 2,5 milhões de reais, anos atrás, Gim mandou um emissário fazer uma estranha consulta aos proprietários do imóvel: queria saber se poderia pagar-lhes em dólares.

A Comissão de Orçamento já protagonizou um dos maiores escândalos políticos da história. Em 1993, descobriu-se que havia um grupo de deputados manipulando emendas parlamentares em benefício próprio. Quatro deputados renunciaram e seis tiveram o mandato cassado, inclusive o líder do grupo, o então deputado João Alves, que, assim como Gim, era o relator da comissão. Dezessete anos depois, não se pode dizer que os anões, como ficaram conhecidos os parlamentares corruptos da época, devido à baixa estatura, não existem mais. Pela lei, cada parlamentar tem direito a reservar 13 milhões em emendas para suas bases eleitorais. No Orçamento do ano passado, Gim Argello destinou 3 milhões de reais do seu quinhão a três entidades desconhecidas. A reportagem de VEJA seguiu o caminho de uma dessas emendas – e eis que surge uma novidade. O senador recomendou ao Ministério do Turismo a contratação do Instituto Recriar como uma das entidades capacitadas para executar programas de promoção de festas e eventos turísticos. Seguindo o que foi determinado por Gim em sua emenda aprovada, o Ministério do Turismo assinou convênio com o tal instituto.

Em julho passado, com o dinheiro de emenda do mesmo ministério, o Recriar contratou a Rádio Nativa FM para fazer a divulgação de eventos turísticos. Pagou a ela 550 000 reais pelo serviço. A emissora está arrendada em nome de Jorge Afonso Argello Júnior, filho mais velho de Gim. Ou seja: o todo-poderoso relator do primeiro Orçamento do governo Dilma Rousseff enviou indiretamente recursos públicos para uma empresa da própria família. O presidente do Recriar, Jilvan Fonseca, que mal sabe dizer a razão pela qual o convênio foi firmado, disse que nunca falou com Gim, nem imaginava que a rádio contratada pela entidade pertencia ao filho do senador. “Não tinha noção disso”, disse. O Ministério do Turismo informou que apenas cumpriu o que determina a lei. Procurado, o senador afirmou que a contratação da rádio foi feita com “legalidade e transparência”. Apesar de ter empregado uma metodologia similar à dos anões do Orçamento, Gim nem de longe se parece com a turma da pesada que atuava na década de 90. O senador tem perto de 1,80 metro de altura.

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