O extraordinário salto em detenções de adolescentes com armas de fogo no Brasil
Número de menores internados quadruplicou desde 2017, segundo o Ministério dos Direitos Humanos; casos de estupro e estupro de vulnerável também crescem
De 2017 a 2025, o número de crianças e adolescentes internados compulsoriamente por posse ou porte de armas de fogo cresceu 331% no Brasil, passando de 80 para 345 — em outras palavras, o número de casos mais que quadruplicou em nove anos. Os dados são do levantamento Sinase, publicado anualmente pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
Além da alarmante alta nas internações, o número de internados não chega a arranhar a superfície dos casos registrados. Apenas desde 2020, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o país abriu 14.635 novos processos por atos infracionais (crimes cometidos por menores de idade) relacionados ao Sistema Nacional de Armas — que incluem, além da posse e porte, o disparo e o comércio ilegal de armas de fogo.
O fenômeno é indissociável do avanço das facções criminosas nas comunidades mais vulneráveis do país, que têm no aliciamento de jovens uma de suas principais estratégias para ampliar seus quadros, como mostra reportagem de VEJA. Desde 2020, também conforme o CNJ, nada menos que 116.935 processos contra adolescentes por tráfico de drogas foram abertos na Justiça, cerca de um quarto de todos os casos envolvendo menores de idade.
Para as facções, o recrutamento de menores de idade é uma estratégia para burlar a lei penal, visto que os infratores só podem ser internados por até três anos — e, em geral, cumprem menos de metade deste tempo. Além das punições mais brandas, os adolescentes, em razão do próprio ciclo de desenvolvimento humano, são mais propensos a participar de empreitadas arriscadas e violentas. “A tomada de decisões é regulada pelo lobo frontal do cérebro, que só se desenvolve plenamente na vida adulta. Adolescentes são naturalmente impulsivos, e o meio onde vivem define, em grande parte, se esta tendência levará ao crime”, explica Fernanda Bassani, doutora em Psicologia Social e pesquisadora associada ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Casos de estupro praticado por menores disparam; governo vê relação com armas de fogo
A reboque do aumento de armas de fogo nas mãos de jovens, outro lamentável indicador também cresceu de forma alarmante: os casos de abuso sexual praticado por autores menores de idade, que escalaram vertiginosamente nos últimos anos.
Desde 2021, segundo o CNJ, os registros de atos infracionais relacionados a estupros cresceram 48,6%, passando de 1.043 naquele ano para 1.550 em 2025. No mesmo período, os índices de estupros de vulneráveis (quando a vítima é menor de idade ou adulta e incapaz de recusar o ato) por adolescentes são ainda mais estarrecedores: os casos subiram de 3.640 para 4.595, alta equivalente a 26,2%.
Na visão do governo federal, os três fenômenos — tráfico de drogas, armas de fogo e estupros — estão intrinsecamente relacionados e aliados a uma cultura que glorifica a misoginia e a violência. Pilar Lacerda, secretária nacional da Criança e do Adolescente, explica que adolescentes estão cada vez mais expostos a discursos de objetificação das mulheres e que, ao entrar para gangues e facções, ganham status social dentro de suas comunidade. “Dentro da estrutura machista da sociedade, dar um revólver a um jovem de quinze anos é dar a ele o poder de se impor sobre meninas que o rejeitam”, afirma Pilar Lacerda, secretária nacional da Criança e do Adolescente.






