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“O Brasil não tem heróis”, diz ator Marcos Palmeira

Ator dá vida a capitão da Polícia Militar carioca em longa que chega aos cinemas no ano que vem

Por Bruna Motta - 13 dez 2019, 15h50

Uma policial recém-formada que integra uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em uma comunidade do Rio de Janeiro e, desde o primeiro dia, deve lidar com a delicada convivência entre agentes de segurança, traficantes e moradores – e todas as infindáveis questões éticas que essa realidade carrega. Tudo isso sob os olhos atentos do capitão Douglas, já acostumado ao dia-a-dia da corporação. Esta é a premissa do filme “Intervenção – É Proibido Morrer”, que estreou no Festival do Rio e chega aos cinemas em janeiro. Na pele do protagonista, o ator Marcos Palmeira avalia que a divisão irreal de mocinhos e vilões é um mal do país. “Estamos vivendo num limbo onde a gente quer um herói e um bandido e na vida não existe isso. O Brasil não tem heroi”, afirmou, durante o lançamento.

Para compor o personagem do capitão Douglas, Palmeira contou com o apoio de dez policiais que também participaram como figurantes no filme. “Foi como eu conheci também o lado deles na história”, afirmou o ator, que não poupou críticas ao governo federal a respeito das recentes polêmicas envolvendo a área da cultura. “Na minha geração, Bolsonaro talvez seja a pior figura presidencial que eu já vi. Agora sabemos que a intenção dele é acabar com a cultura”, enfatizou. A trama, aliás, também faz alusões a fatos reais, como a prisão de um governador.

Durante a produção, os roteiristas Rodrigo Pimentel e Gustavo Almeida, entrevistaram 50 pessoas que conviveram com a UPP, entre agentes de segurança e moradores de favelas no Rio de Janeiro. O objetivo, segundo Pimentel, é garantir que policiais quanto militantes dos direitos humanos saiam satisfeitos do cinema. No mesmo festival, há doze anos, ele lançava o polêmico Tropa de Elite que também falava sobre os problemas graves da segurança pública do Rio de Janeiro. “Intervenção mais um filme polêmico que vai trazer à tona problemas de segurança pública e mostrar que infelizmente nada mudou”, disse o ex-policial e agora roteirista.

O roteiro leva também a assinatura de Gustavo Almeida, ex-assessor de imprensa da Polícia Militar. Presente em 28 inaugurações de UPP, Gustavo conviveu de perto com os dramas do projeto. O filme se passa um pouco após o fim das Olimpíadas em 2016 e segundo ele, mostra a ressaca após o evento. “Não tem como falar da UPP sem falar que no Rio de Janeiro nenhum contrato é cumprido” explica o roteirista. A intenção dos roteirista foi mostrar o policial numa área cinzenta, fugindo do papel de herói ou vilão. “Queríamos um filme que não fosse maniqueísta, capaz de treinar a compreensão”, falou Gustavo.

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Na plateia, Flávia Lousada, de 39 anos, policial militar há 13, se disse representada pela história – protagonizada pela atriz Bianca Comparato, que vive a jovem Larissa. Única mulher presente na megaoperação policial de retomada do Complexo do Alemão em 2010, Flávia convive com uma bala alojada em sua perna, resultado de um confronto. “Os políticos usaram a UPP como panfleto eleitoral, mas na prática nem mesmo banheiro a gente tinha”, conta. Flávia diz também ter acreditado no projeto, sendo esta sua maior decepção dentro da carreira. “Uma cabine de polícia em Copacabana é blindada e nós dentro da favela com colete vencido”, desabafou a policial que também disse nunca ter recebido uma aula de tiro durante todos esses anos.

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