🔥 Mês do Cliente: Receba 4 Revistas Impressas por apenas R$ 35,90/mês. Aproveite!

Nova frente das facções organizadas explora furto de energia para produzir criptomoedas

Criminosos prejudicam o fornecimento de luz e trazem prejuízos às concessionárias

Por Ludmilla de Lima Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 17 abr 2026, 06h00 | Atualizado em 17 abr 2026, 09h54
Nova frente das facções organizadas explora furto de energia para produzir criptomoedas Priorizar nos meus resultados Google

Parece roteiro de cinema. No começo do ano, os moradores da pequena São Sebastião, uma região administrativa do Distrito Federal com cerca de 170 000 habitantes, se surpreenderam com a revelação de um dos maiores roubos de energia elétrica — os famosos “gatos” — já feitos no país. Cansados de sofrer com cortes de luz, eles notificaram a concessionária Neoenergia, que identificou um aumento brusco de consumo fora do padrão. Com apoio policial, vieram à tona ligações clandestinas que chamaram atenção pela escala, grau técnico e, sobretudo, ousadia. Cabos, postes e transformadores instalados na zona rural abasteciam oito centrais de computadores ultrassofisticados, usados para “minerar” criptomoedas, como é chamado o trabalho de validação e verificação de transações em uma rede descentralizada, como o blockchain. Em outros termos, é o processo realizado no ambiente digital para produzir criptomoedas. As apurações seguem em curso, mas já apontam perdas de quase 8 milhões de reais. Uma das operações desbaratou uma célula erguida em áreas de mata cerrada e contou inclusive com apoio de um helicóptero da Polícia Civil. No último dia 7 outras duas centrais do mesmo grupo criminoso acabaram descobertas. “Por baixo, a construção de cada unidade custou 1,5 milhão de reais”, avalia Arthur Franklin, gerente de gestão da Neoenergia. “Isso não é obra de bandidos comuns.”

ALIANÇA - Policial destrói ligação clandestina no DF: inquérito aponta para elos entre técnicos e bandidos
ALIANÇA - Policial destrói ligação clandestina no DF: inquérito aponta para elos entre técnicos e bandidos (Polícia Civil//)

Especialistas consultados por VEJA são unânimes em dizer que os chamados “criptogatos” se tornaram uma nova frente do crime organizado no Brasil. As polícias de Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Alagoas registraram ocorrências semelhantes, relacionadas à exploração ilegal de moedas digitais. O golpe consiste em roubar energia para movimentar grandes infraestruturas tecnológicas que, quando acionadas, premiam seus donos com esses ativos financeiros — daí o termo “mineração”. A compra e venda dessa moeda circulante apenas na internet depende de dinheiro de verdade para viabilizar a operação. É indispensável o investimento em um complexo sistema de criptografia para garantir a autenticidade dos arquivos, o que exige uma alta capacidade de processamento ininterrupto de dados. Apenas os supercomputadores conhecidos como Asics (circuitos integrados de aplicação específica, na tradução do inglês) são capazes de executar essa tarefa. Eles geram calor excessivo e necessitam de resfriamento constante. “É como se cada unidade fosse um chuveiro elétrico ligado de modo permanente”, diz Rudá Pellini, fundador-presidente de uma empresa de data centers no Texas, Estados Unidos.

Como a tarifa de luz do Brasil está entre as mais caras do mundo (a Rússia é exemplo na direção oposta), o negócio só vale a pena se houver a subtração de megawatts. O “criptogato” dos 654 equipamentos apreendidos em São Sebastião tinha potencial para gerar uma receita mensal de 400 000 reais, mas se pagassem pelo volume de energia necessário — capaz de abastecer uma cidade de 47 000 residências — o lucro cairia mais de dez vezes, uma margem inviável. Para baratear os investimentos, os criminosos compram as máquinas no mercado paralelo. Um modelo Asic de última geração não sai por menos de 30 000 reais, se adquirido com nota, por isso, os mineradores digitais têm recorrido ao velho esquema de contrabando do Paraguai. Recentemente, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu treze desses aparelhos na Via Dutra, com destino a Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Continua após a publicidade
NA EUROPA - Data center na Rússia: país é exemplo de tarifa mais barata
NA EUROPA - Data center na Rússia: país é exemplo de tarifa mais barata (Andrey Rudakov/Getty Images)

A dinâmica particular desse tipo de delito tem levado os investigadores a desconfiar de uma associação entre técnicos com o conhecimento para montar os intrincados dispositivos e quadrilhas capazes de financiar e proteger as instalações. No Rio, uma mineradora digital foi localizada em uma casa na entrada de uma favela na Ilha do Governador. Funcionava com “gato”, claro. Em Sorocaba, no interior de São Paulo, um integrante de um esquema foi assassinado em razão de um conflito em torno da sociedade de três mineradoras instaladas na periferia do município. “O sócio que entendia de informática prometeu um retorno substancial, que não veio”, afirma o delegado Rodrigo Ayres, da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic). “O bando achou que ele estava desviando dinheiro e executou o comparsa.”

Continua após a publicidade

Se capturados, os criminosos podem ser enquadrados no crime de furto de energia, com pena prevista de até quatro anos de reclusão — branda diante da magnitude do delito. Por isso, as forças de segurança buscam ainda indícios para caracterizar as ocorrências como associação criminosa e ocultação de valores, já que as quadrilhas poderiam estar usando os aportes em criptomoedas para lavar o dinheiro obtido em atividades ilegais bem mais lucrativas, como o tráfico de drogas e de armas. Identificar os responsáveis pelas mineradoras, no entanto, tem sido um desafio à parte, já que a maioria é operada a distância e tem sistema de monitoramento por câmeras. Em São Sebastião, dois suspeitos chegaram a ser detidos, mas foram liberados na audiência de custódia. “Há uma divisão de tarefas, ainda estamos tentando identificar os cabeças da organização”, diz o delegado Ronney Matsui. Os algoritmos fizeram a humanidade caminhar, apesar de problemas que brotaram com os avanços. Mas o anonimato facilitado pelas redes virou ferramenta para a bandidagem, cuja criatividade em nome do mal parece ser infindável.

Publicado em VEJA de 17 de abril de 2026, edição nº 2991

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner promocional com fundo verde-escuro. À esquerda, texto em verde-limão O MÊS É DO CLIENTE. e em branco A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua.. À direita, uma mão segura um smartphone exibindo um portal de notícias com banner e produtos, e ao lado, uma árvore estilizada em verde-limãoMão segurando um smartphone com aplicativo de notícias exibindo manchetes e produtos, ao lado do texto O MÊS É DO CLIENTE. A vantagem de ler as maiores marcas do país é sua em fundo verde-escuro, com um ícone de árvore no canto superior direito
ECONOMIZE ATÉ 76% OFF

Digital Básico

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 5,99/mês
OFERTA MÊS DO CLIENTE

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 59,99/mês
A partir de R$ 32,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).