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No Ceará, a luta de uma mãe por esclarecer a morte da filha

A professora Isorlanda Caracristi cobra respostas para a morte de Isabelle, de 22 anos, no endereço onde vivia com o namorado, João Munhoz

Por Ludmilla de Lima Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 set 2026, 11h51 | Atualizado em 20 set 2026, 12h00
No Ceará, a luta de uma mãe por esclarecer a morte da filha Priorize VEJA no Google

Em um apelo desesperado nas redes sociais, a professora universitária do Ceará Isorlanda Caracristi cobra respostas para a morte da filha, Isabelle Caracristi, de 22 anos, que vivia com o namorado em Fortaleza. A jovem morreu na noite do último domingo, 13, em circunstâncias ainda desconhecidas, no endereço onde residia com o companheiro, João Munhoz, e a família dele. A mãe só soube da perda da filha no começo da tarde do dia seguinte, segunda-feira, pela síndica do prédio. O corpo da estudante de direito, que cursava o segundo semestre, teria sido encontrado na área externa do condomínio, no bairro de Aldeota, e já estava naquele momento no Instituto Médico-Legal. A Polícia Civil do Ceará investiga o caso e divulgou ontem, sábado, que analisa imagens de câmeras e que colheu depoimentos de quatro pessoas, sendo que outras quatro serão ouvidas em breve. O resultado do laudo pericial do corpo tem prazo para outubro.

Neste domingo, o vídeo publicado na sexta-feira pela mãe, professora de Geografia da Universidade estadual Vale do Acaraú, já tinha sido visto por mais de 500 mil pessoas. Isorlanda conta que, após passar o final de semana com a filha, recebeu na noite de domingo uma última mensagem dela – que estaria com o namorado e parentes dele -, dizendo: “Mãe, eu te amo”. Em seguida, a jovem não se comunicou mais. “Respondi: eu também te amo, não esquece de tomar o relaxante muscular. Depois disso, nada. Não deu boa noite, achei estranho, e meu coração sempre apertado”. De sábado para domingo, Isabelle foi cuidada pela mãe porque estava com torcicolo. Nesse tempo, Munhoz não parava de enviar mensagens à namorada. “Eram muitas mensagens. Ele era extremamente controlador, fora do normal, obsessivo”.

Na segunda de manhã, a professora tentou diversos contatos com a filha e com João Munhoz, que a bloqueou no telefone e também em suas contas no Instagram. “Aí eu me desesperei”, conta ela, que foi para o endereço em Aldeota: “Foi a caminhada mais desesperadora”. Ao chegar, notou o comportamnento estranho de funcionários do condmínio e foi encaminhada à sala da síndica. Após ameçar chamar a polícia e de longa espera, veio a notícia dilacerante. “Quando entramos na sala da síndica, eram funcionários pálidos, tremendo feito varas. E eu me destruindo por dentro e pedindo muito a Deus que não fosse nada. Aí ela deu a notícia: ‘Dona Isorlanda, sua filha morreu ontem à noite e já esta no IML’. Minha Nossa Senhora, vocês não sabem o que é isso, não. A dor que eu senti. É como se tivessem rasgando todo o meu corpo”, lembra a mãe, em lágrimas.

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Munhoz, de família de juristas conhecidos de Fortaleza, e seus parentes – ele vivia com a mãe e um irmão – nunca fizeram contato com a professora nem compareceram ao enterro. “Por que me deixaram saber dessa notícia no outro dia, já no começo da tarde, pela síndica? Por que deixaram minha filha quase como indigente no IML?”, questiona a mãe. “Não estamos lidando com pessoas, estamos lidando com monstros, canalhas, covardes”, se revolta: “Eu preciso de respostas”.

Mãe angustiada com relacionamento

Isorlanda faz longo relato sobre a história do relacionamento da filha com João Munhoz, cujo nome ela não cita na gravação. Em julho deste ano, Isabelle conseguiu estágio em um escritório grande da capital, e o homem, de 33 anos, que exerceria cargo de chefia no local, logo a chamou para a sua área. Em menos de dez dias, os dois iniciaram um namoro, o que gerou preocupações na mãe. Para ela, a filha, pela idade e por estar muito “apaixonada”, não conseguia ver que se tratava de assédio.

A professora relata que testemunhou uma cena impactante, quando ao acompanhar a filha na ginecologista o namorado tentou entrar no consultório. “Isso acendeu todos os meus alertas como mãe, porque era um comportamento muito louco. Simplesmente, a minha filha começou a cada vez mais frequentar a casa dele. Tive grandes discussões, mas ela tinha 22 anos, era de maior, e eu temia brigar e nos afastar”.

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Outro episódio estranho que a mãe conta foi quando a filha revelou um pedido do namorado para usar o seu cartão de crédito, no pagamento de uma cirurgia. Ele também teria dito querer abrir uma empresa no nome da estudante. O assunto também gerou discussões entre mão e filha, que logo após avisou que ia morar com o namorado. “Havia mágoa e desespero dentro de mim. Mas não queria brigar para não estar longe dela”. Até que no final de semana passado, as duas – “éramos um grude” – estiveram juntas. Isabelle deixou a casa da mãe no domingo dizendo que iria a uma missa e procissão com Munhoz e sua família. Elas trocaram mensagens por volta das sete da noite, com a jovem avisando primeiro que tinha deixado um “frango na air fryer”. Depois, ela escreveria o seu último “eu te amo” para a mãe.

Homem não trabalhava como advogado

Em nota pública, a OAB Ceará, por meio da Comissão da Mulher Advogada, da Comissão Especial de Enfrentamento ao Feminicídio e à Violência de Gênero e da Comissão de Apoio ao Acadêmico de Direito, manifestou profunda solidariedade aos familiares, amigos e à comunidade acadêmica diante do falecimento de Isabelle. O comunicado diz que, devido à gravidade do ocorrido, a Ordem solicita apuração “com celeridade, rigor técnico, diligência e perspectiva de gênero, mediante a adoção de todas as providências investigativas necessárias à reconstrução circunstanciada dos fatos”.

O escritório onde os dois atuavam divulgou, segundo o g1, que João Munhoz exerceu “exclusivamente atividades de natureza administrativa” e que deixou de prestar serviço à empresa. Já Isabelle, de acordo com o escritório, trabalhou no local por “aproximadamente 20 dias, do final de julho ao início de agosto, quando solicitou seu desligamento por razões de ordem pessoal”.

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