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No abrigo, a rotina de crianças que não sabem brincar

Com a emoção à flor da pele, menores se adaptam à abstinência e ao confinamento alternando momentos de calma com gritos de 'quero sair'

Por Cecília Ritto - 31 jul 2011, 10h54

“Um menino que estava há um mês aqui reencontrou o amigo do bando que ele andava antes. E o curioso foi vê-lo tentando ajudar o outro a superar os primeiros dias de abstinência. Ele dizia ao amigo que aquele sentimento era normal e que se fosse preciso ele chamaria um médico para ajudar”, diz Cláudia Castro, coordenadora de Assistência Social

Quando o silêncio se instala na Casa Viva, quem trabalha lá já sabe. É melhor não comentar que o dia está calmo. A qualquer momento um dos meninos pode gritar a senha – “Quero ir embora” – e acender o rastilho de pólvora que transforma a casa num pandemônio. Privadas do consumo de crack, as crianças e adolescentes são muito instáveis, e facilmente se contaminam com as crises de cada um. É algo previsível, ainda mais em situação de confinamento. São dez meninos e duas meninas, que podem circular livremente pela casa. Mas não têm autorização para sair à rua, a não ser acompanhados por funcionários da secretaria. A porta da casa é vigiada dia e noite. E as crianças pedem o tempo todo para sair.

Não é fácil adaptar a qualquer rotina menores que praticamente nasceram na rua. Alguns chegam à internação tão agitados que precisam ser contidas por até seis adultos. Outras estão tão fracas que têm de ser carregadas no colo. Na quarta-feira passada, na sala de brinquedos, a porta entreaberta permitia enxergar um menino coberto por um lençol em um dos cantos daquele espaço. A fresta foi suficiente para que ele notasse a visita da equipe de reportagem do site de VEJA e apelasse: “Quero ir para a minha casa, tia.” No corredor de entrada, um menino conversava com uma das assistentes sociais. “Quero cheirar tinner”, pedia. Em seguida, corrigiu-se: “Na rua, se me chamarem para usar droga, eu não vou”. Segundos depois o desespero se instalou: “Vou voltar para a rua para cheirar tinner com os meus amigos. Vou começar a fugir daqui”, disse.

Com a mesma rapidez com que a confusão se instala, volta a calma. Eles cantam (funk), riem, e por alguns momentos parecem recuperar o direito à infância. Às vezes, chamam de pai os educadores sociais, funcionários capacitados pela secretaria. À repórter do site, um deles disse: “Nunca te vi, mas sempre te amei”.

A rotina é importante para a adaptação dos menores. Eles acordam cedo e têm horário para tudo – até para brincar, uma atividade com a qual têm pouca ou nenhuma intimidade. Em um passeio à Cidade das Crianças, na zona Oeste, eles mergulharam na piscina e despois estenderam suas camisas no chão e se deitaram sobre elas, compondo um cenário semelhante à vida na rua. “A brincadeira delas fica na realidade. Eles vivenciam a dualidade entre bandido e mocinho. As meninas são mães precoces, e não tem tempo de brincar de boneca. Eles não passam pelo mundo da fantasia”, explica Ivone Ponczek, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (Nepad), ligado à Uerj.

Família – Na quarta-feira, um rapaz foi visitado pela mãe, Rosângela Mello, de 53 anos. Ele é um dos poucos que recebe visitas, e sua mãe, mesmo desconfiada, tem esperança no tratamento. Ela, moradora do complexo da Penha, acredita que o filho começou a usar drogas pela facilidade de encontrá-la perto de casa. O menino já conseguiu fugir uma vez da Casa Viva e foi reencontrado duas semanas depois, na cracolândia do morro do Cajueiro, em Madureira. Na hora da despedida, ele chorava e pedia um beijo. Disse que a amava, e insistiu para que ela levasse ao abrigo o pai dele – um ex-traficante.

Para os que não têm família, o importante é tentar recuperar outros vínculos. Um menor pediu a Cláudia Castro, uma das coordenadoras de assistência social da prefeitura, que ela fizesse uma operação no Jacarezinho para acolher amigos de rua dele. “Um menino que estava há um mês aqui reencontrou o amigo do bando que ele andava antes. E o curioso foi vê-lo tentando ajudar o outro a superar os primeiros dias de abstinência. Ele dizia ao amigo que aquele sentimento era normal e que se fosse preciso ele chamaria um médico para ajudar”, lembra Cláudia.

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