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Nem só de meio ambiente vive o PV

Presidente da executiva de Natal, Edivan Martins está entre os entusiastas da vaquejada, criticada por ambientalistas

Humberto Dantas, cientista político: “O PV guardava seus princípios, mas agora isso mudou. Manter a ideologia de um partido é eleitoralmente impossível”

O PV cresceu e apareceu no cenário político brasileiro. Defensor do meio ambiente, o partido ganhou projeção nacional com a candidatura da senadora Marina Silva (AC) à Presidência. Ela conquistou quase 20 milhões de votos no primeiro turno e teve o apoio cobiçado pelo PSDB e pelo PT no segundo turno. Os números demonstram o quão interessada está a população no discurso verde. Mas, apesar da bandeira progressista, nem todos os integrantes da legenda se notabilizam pelo engajamento em causas ambientais. Como acontece com outros partidos, interesses políticos, muitas vezes, falam mais alto.

Há quem promova práticas contrárias ao que prega o PV. É o caso do secretário da educação e presidente da executiva municipal do PV em Natal (RN), Edivan Martins. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o secretário é filiado ao PV desde 2005. Ficou mais conhecido na região como especialista em vaquejada – competição em que o objetivo é arrastar um boi jovem pela cauda, derrubá-lo e encurralá-lo em uma área demarcada. Assim como o rodeio, a atividade é criticada por entidades ambientalistas e vai contra os princípios do partido.

Até 2009, Martins apresentou o programa Valeu o Boi, exibido pela SIM TV. Com tom bem humorado, o secretário exaltava, entre outras coisas, a vaquejada. Atualmente, está longe das câmeras. Mas, segundo sua assessoria, tem planos de que uma nova temporada vá ao ar assim que ele negociar contrato com alguma emissora local.

Curisoamente, Martins chegou a propor alguns projetos que defendiam os animais quando foi vereador. Segundo Enrico Lippi Ortolani, professor titular da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), “a vaquejada é pior do que o rodeio”, já que expõe os animais a uma série de problemas locomotores, consequência das lesões causadas pelas quedas bruscas próprias da competição. A ambientalista Ingrid Eder, gerente de campanhas da Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA, em inglês), explica a razão pela qual a classe é veemente contra a prática da vaquejada: “O uso do sofrimento para o entretenimento é inaceitável. Em algumas ocasiões, a cauda do novilho é decepada durante a prova.”

Procurado pela reportagem do site de VEJA, Martins preferiu não se pronunciar. Micarla Araújo de Sousa Weber, prefeita de Natal e presidente da executiva estadual do PV, também não quis comentar o assunto.

A Frente Parlamentar Ambientalista, da qual faz parte o deputado federal Fernando Gabeira (PV), assim como os demais deputados da legenda, é contra o Projeto de Lei nº 4.548 de 1998, cujo objetivo é modificar a Lei de Crimes Ambientais (9.605/98) de modo a facilitar a realização de rodeios e vaquejadas. “Conheço pouco de vaquejada, mas acredito que qualquer prática de maus tratos a animais está começando a ser vista de uma nova maneira, onde o ideal é fazer um meio-termo, mantendo a tradição cultural e retirando o componente do abuso”, diz Gabeira.

Questionado sobre as atitudes de Martins, seu companheiro de legenda, Gabeira responde: “Se isso fere as diretrizes do partido, é possível que as ações do secretário sejam contraditórias. É difícil opinar, já que não conheço Martins e nem o seu programa de televisão.”

Ideologia – Humberto Dantas, cientista político e conselheiro da ONG Voto Consciente, afirma que a maior parte dos políticos que se aproxima das chapas não se importa com a ideologia da legenda. “Os partidos são vistos somente com meios de viabilizar uma candidatura. Não existe uma cobrança por parte deles”, diz. “O PV guardava seus princípios, mas agora isso mudou. Manter a ideologia de um partido é eleitoralmente impossível”, ressalta o acadêmico.

O especialista lembra que, no Brasil, as legendas são estimuladas a agir com foco em interesses regionais e não nacionais. O que impede, na prática, que os partidos tenham de tenham total controle sob os diretórios regionais.

Presidente do PV, José Luiz de França Penna reconhece as características regionais do país. Para manter viva a sua ideologia, ressalta, o partido promove debates entre seus filiados a fim de garantir que todos os donos de cargos públicos atuem de acordo com os princípios da legenda. No entanto, ele reconhece que é impossível ter controle total sobre a conduta dos integrantes. “O partido funciona como uma carta de convicções, mas não podemos nos comportar como um quartel”, diz.