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Nem, o bandido que precisa falar

Traficante que comandava a Rocinha pode entregar dezenas de policiais corruptos que o ajudavam a manter o controle da favela. Para o estado, foi sorte tê-lo encontrado com vida

Por João Marcello Erthal 10 nov 2011, 11h18

A tese de que o bandido se beneficiava da cobertura de policiais foi confirmada na tarde de quarta-feira, com a prisão de um grupo que dava proteção a traficantes que fugiam da Rocinha

Por tudo que fez nos últimos anos, Antônio Francisco Bonfim Lopes teve sorte de ser capturado com vida. A sorte também é do estado, que tem a esperança de, pela voz do homem que se transformou no temido traficante Nem da Rocinha, descobrir quantos e quem são os policiais que o ajudavam. Por trás do mito do bandido que controlava a favela e até “garantia segurança” na região, ‘proibindo roubos’, havia a estratégia de alimentar uma máquina de corrupção policial que inviabilizava as tentativas de combate à quadrilha na Rocinha.

O secretário de segurança do Rio, José Mariano Beltrame, que está na Alemanha, afirmou, à TV Globo, no início da tarde desta quinta-feira, o que espera ouvir do bandido. “Ele tem muitas explicações a dar sobre o tráfico de drogas. Mas também sobre corrupção de agentes públicos. Com a prisão do Nem, tivemos um ótimo exemplo de como há policiais honestos, interessados na pacificação do Rio. Mas também já tivemos um passado triste, com policiais que colaboravam com o crime”, disse Beltrame.

Nem sabe muito. Se quiser falar, pode levar para a cadeia algumas dezenas de policiais. Entre as lendas sobre sua equipe de seguranças, há a de que policiais de elite do Rio atuavam como seus guarda-costas. Faz sentido, portanto, a intenção do governador Sérgio Cabral de mantê-lo longe do estado, em um presídio federal de segurança máxima, nos moldes do que já acontece com Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, e, mais recentemente, Alexander Mendes da Silva, o Polegar da Mangueira.

A tese de que o bandido se beneficiava da cobertura de policiais foi confirmada na tarde de quarta-feira, com a prisão de um grupo que dava proteção a traficantes que fugiam da Rocinha. Assim como Nem, eles estavam confiantes na impunidade, e, escoltados pelos policiais, Anderson Rosa Mendonça, conhecido como Coelho, chefe do tráfico no morro de São Carlos, e Sandro Luiz de Paula Amorim, conhecido como Peixe, estavam acompanhados por Paulo Roberto Lima da Luz, conhecido como “Paulinho”; Varquia Garcia dos Santos, conhecido como “Carré”; Sandro Oliveiro; Carlos Daniel Ferreira Dias, policial civil lotado na secretaria de Saúde Pública; Carlos Renato Rodrigues Tenório e Wagner de Souza Neves, policiais civis lotados na Delegacia de Roubo e Furtos de Cargas; José Faustino Silva, PM reformado; e Flávio Melo dos Santos, ex-PM.

Os agentes de segurança presos são só uma parte do esquema criado por Nem. E, por isso, a partir de agora, é importante zelar pela vida do bandido. Preso, sem o mesmo poder que tinha encarapitado em seu ponto de vista privilegiado da Rocinha, de onde distribuía dinheiro, ele passa a ser alvo de todos os que corrompeu.

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