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Nas brutas favelas cariocas, a polícia tenta um toque suave

Como a Unidade de Polícia Pacificadora vem mudando a realidade de 120 mil moradores da Cidade de Deus

A polícia fez mais de 200 prisões desde que retomou a Cidade de Deus, e a criminalidade tem caído: seis homicídios no ano passado em comparação aos 34 em 2008

Leonardo Bento ansiava por vingança depois que um policial matou seu irmão, cinco anos atrás. Então, quando soube que a nova força de “polícia pacificadora” na Cidade de Deus estava oferecendo aulas gratuitas de caratê, Bento se inscreveu, esperando que, pelo menos, pudesse espancar o instrutor.

Oficiais da Unidade de Polícia Pacificadora de Cidade de Deus visitam uma creche: trabalho social para melhorar a relação com a comunidade. (Foto: Lalo de Almeida/The New York Times) Oficiais da Unidade de Polícia Pacificadora de Cidade de Deus visitam uma creche: trabalho social para melhorar a relação com a comunidade. (Foto: Lalo de Almeida/The New York Times)

Oficiais da Unidade de Polícia Pacificadora de Cidade de Deus visitam uma creche: trabalho social para melhorar a relação com a comunidade. (Foto: Lalo de Almeida/The New York Times) (/)

Mas o inesperado aconteceu. Eduardo da Silva, o instrutor da polícia, o conquistou com bom humor e um aperto de mão. “Comecei a perceber que o policial na minha frente era apenas um ser humano, não o monstro que imaginava na minha cabeça”, disse Bento, de 22 anos.

Anos de ódio e desconfiança estão derretendo em algumas das favelas mais violentas do Rio. Convocados a aliviar preocupações com segurança antes que a cidade apareça duas vezes no palco internacional – na Copa do Mundo de 2014 e nas Olimpíadas de 2016 – as autoridades cariocas deram início a um ambicioso plano para tomar o controle das favelas das mãos de traficantes que as dominaram durante anos com grandes armas e terror abjeto.

Os policiais pacificadores são fundamentais para isso, ocupando os locais depois que a polícia militar limpa as ruas em batalhas que podem durar semanas. Sua tarefa é agregar ao trabalho tradicional da polícia, a ação social. Eles se dedicam a conquistar moradores marcados por décadas de violência – alguns nas mãos da própria polícia. E as dicas dadas a eles pelos moradores ajudam em seus esforços, dizem os oficiais, para manter uma paz relativa.

Durante décadas, a Cidade de Deus – cujo passado brutal foi imortalizado em um filme de 2002 – foi um dos bairros mais temidos da cidade, tão perigoso que raramente a polícia se atrevia a entrar. Esses dias parecem distantes. O tráfico de drogas continua, e em pelo menos uma área, estranhos só podem entrar com permissão de jovens locais que patrulham as ruas.

Ainda assim, os homens com grandes armas se foram, ou pelo menos se dirigiram ao submundo. E a vida está voltando às ruas.

As crianças agora brincam sem medo de balas perdidas. Pulam corda e jogam tênis de mesa com raquetes feitas de ladrilhos. Partidas de futebol, antes uma questão violenta, estão mais civilizadas, com policiais por vezes se juntando aos jogos.

Mas depois de quase dois anos da chegada das novas unidades, muitos moradores dessa comunidade de 120 mil pessoas continuam resistindo a aceitar que os 315 policiais que trabalham em turnos de 12 horas ao seu redor já não são mais seus inimigos. Outros saúdam a calma, mas desconfiam dela, preocupando-se que a Unidade de Polícia Pacificadora deixe o bairro com o fim das Olimpíadas.

“Ninguém gosta de nós aqui”, diz o policial Luís Pizarro durante uma patrulha noturna. “Isso pode ser frustrante às vezes.” Pizarro e outros dois policiais patrulhavam ao longo de um rio estreito sufocado pelo lixo, cheirando a excrementos humanos e de animais. As famílias se reuniam ao redor de fogueiras improvisadas. Mulheres dançavam samba enquanto os homens bebiam cachaça. Quase ninguém acenou ou cumprimentou os policiais, que atravessaram um corredor coberto de papel colorido, usado para embalar crack e cocaína. “Lá vai a Tropa de Elite”, disse um homem, rindo enquanto os policiais passavam.

Policiais da UPP de Cidade de Deus patrulham as ruas da favela durante a noite. (Lalo de Almeida/The New York Times) Policiais da UPP de Cidade de Deus patrulham as ruas da favela durante a noite. (Lalo de Almeida/The New York Times)

Policiais da UPP de Cidade de Deus patrulham as ruas da favela durante a noite. (Lalo de Almeida/The New York Times) (/)

A hostilidade não é difícil de entender. Por décadas, autoridades do governo se recusaram a assumir a responsabilidade pelas favelas, e como quadrilhas de traficantes usam os locais como esconderijo de armas, tornou-se difícil para a polícia entrar sem tiroteio. Os moradores se ressentiam do abandono policial e ficaram injuriados pela brutalidade que marcava suas invasões sangrentas.

Sem a presença policial diária, os serviços municipais sofreram, e médicos e outros profissionais começaram a fugir das favelas por razões de segurança. Os líderes dos traficantes se tornaram o juiz e o júri.

“As pessoas não tinham coragem” para retomar as favelas, disse José Mariano Beltrame, que se tornou secretário de Segurança Pública do Rio em 2007. “As pessoas preferiam jogar a sujeira embaixo do tapete para evitar enfrentar o problema.”

As favelas raramente se rendem sem luta. Pelo menos oito pessoas morreram na Cidade de Deus em 2008, nas primeiras batidas policiais. Essas batalhas devem se generalizar com a ida da polícia a novas vizinhanças. Até agora, eles instalaram 12 unidades pacificadoras, que cobrem 35 comunidades. Mas Beltrame pretende instalar unidades em 160 comunidades até 2014, incluindo favelas como a Rocinha e o Complexo do Alemão, maiores que a Cidade de Deus.

Mesmo com violentos desafios pela frente, muitos moradores do Rio estão torcendo pelo programa. Milhões de dólares em doações de empresas como a Coca-Cola e do bilionário empresário Eike Batista também estão chegando, para ajudar a equipar os policiais e a manter o programa.

Beltrame disse que seu principal objetivo é livrar as ruas das “armas de guerra”, não necessariamente acabar com o tráfico de drogas. Ele também está trabalhando, disse, para diminuir a corrupção policial. Muitos dos policiais pacificadores são propositadamente recrutados antes da formatura na academia de polícia, e antes de serem tentados a aceitar dinheiro de drogas para complementar os salários relativamente baixos.

Uma antiga base do tráfico agora é ponto de apoio da UPP, na Cidade de Deus. (Lalo de Almedia/The New York Times) Uma antiga base do tráfico agora é ponto de apoio da UPP, na Cidade de Deus. (Lalo de Almedia/The New York Times)

Uma antiga base do tráfico agora é ponto de apoio da UPP, na Cidade de Deus. (Lalo de Almedia/The New York Times) (/)

Ainda assim, é claro que a presença da polícia mudou para melhor a vida em toda Cidade de Deus. Os serviços oferecidos pela cidade agora entram mais livremente. A frequência escolar aumentou. Uma escola de segundo grau teve um acréscimo de 90% nas matrículas depois que a polícia chegou à comunidade, disse um funcionário. Tratores de terraplanagem estão dragando o rio estreito, cheio de esgoto, e caminhões de lixo passam três vezes por semana.

A polícia fez mais de 200 prisões desde que retomou a Cidade de Deus, e a criminalidade tem caído: seis homicídios no ano passado em comparação aos 34 em 2008. Os moradores são especialmente gratos, embora alguns digam que algo intangível foi perdido, um certo espírito de liberdade nervoso.

O capitão José Luiz de Medeiros, que lidera a unidade de polícia na Cidade de Deus, disse que estava construindo uma força de longo prazo, e trabalhando pesado para conquistar a confiança dos moradores. Cerca de uma dezena de policiais visitaram uma nova creche recentemente. As chupetas giravam em seus dedos, enquanto as crianças brincavam com seus rádios e subiam em suas pernas com armas no coldre.

Alguns dos policiais foram retirados da patrulha para dar aulas de violão, piano e inglês. Silva, o instrutor de caratê, é um dos que ensinam em tempo integral. Bento, que se juntou às aulas depois da morte de seu irmão, disse que pensava em se juntar ao tráfico de drogas para ter acesso a armas. Mas desde que conheceu Silva mudou de ideia e agora tenta ajudar outros moradores a perder o medo da polícia. Silva disse que entende o receio das pessoas. “É impossível para eles esquecer o passado”, disse. “Tudo o que posso fazer é ter certeza que estou aberto a eles.” Ele chega à Cidade de Deus desarmado e sem colete à prova de balas. “A força não traz a paz”, disse Silva. “Ela pode criar respeito, mas não confiança.”