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‘Não quis ofender’, diz rainha de bateria que usou máscara de escrava

Renata Spallici, da escola paulistana Barroca Zona Sul, alega que acessório que remete à escrava Anastácia representa a 'falta de voz' de todas as mulheres

Por Luís Lima - 27 jan 2020, 15h50

Ornamentada com correntes prateadas, conchas e uma máscara de flandres, usada no período da escravidão, a rainha de bateria Renata Spallici comemorou nas redes sociais o seu primeiro ensaio técnico à frente da escola de samba paulistana Barroca Zona Sul. “Chegou um dos dias mais importantes para nós, amantes do Carnaval: o nosso primeiro ensaio técnico no Sambódromo”, escreveu na foto, posteriormente apagada. No momento da postagem, não imaginou a repercussão negativa que o look causaria entre grupos que defendem a cultura afrobrasileira. O coletivo Samba Quilomba acusa Renata de desrespeito à história e a cultura dos negros no Brasil e condena a exibição da máscara, conhecida por ter sido usada pela escrava Anastácia.

“Minha intenção nunca foi ofender, ou causar dor. Peço perdão”, diz a modelo fitness, em entrevista a VEJA. “A máscara representa a falta de voz de todas as mulheres, de oportunidades, de direitos, de se colocarem na sociedade”, justifica Renata.

Na história da escravidão brasileira, o acessório era usado para impedir que os escravos ingerissem alimentos. Costumava ser feito de chapa de aço e era trancado com um cadeado atrás da cabeça, com orifícios apenas nos olhos e nariz. A releitura com direito a pedras de brilhante, foi assinada pelo Espaço Luz Atelier, que produz fantasias exclusivas na capital paulista. 

Renata justifica que o acessório foi interpretado “de forma completamente oposta” ao que gostaria, e afirma que não teme processos. “Tenho um histórico de causas que abraço, como empresária ou rainha de bateria, além de uma participação efetiva na escola”, sustenta.

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O coletivo Samba Quilomba, representado por Juliana Fênix e Lyllian Bragança, considera acionar o Ministério Público (MP) com um processo contra a influenciadora. “Não houve cuidado ou pesquisa. Não é por ela ser branca que ela não pode fazer referência à história da cultura negra. O que não poder é usar a mídia para atrair visibilidade dessa forma”, diz Fênix. “Ela não tem nada a ver com a luta negra, não tem tradição no samba. Ela pode comprar o cargo (de rainha de bateria), mas não a dignidade de um povo”, acusa.

Este ano, a escola de samba Barroca Zona Sul homenageará Tereza de Banguela, líder quilombola que viveu no Mato Grosso no século XVIII. A escola vai reestrear no Grupo Especial do carnaval paulistano na sexta-feira, 21 de fevereiro. O próximo ensaio técnico está marcado para o dia 31 de janeiro. Renata diz que usará outra fantasia, “para continuar uma história”, e que remeterá à situação da mulher na atualidade. “Espero que o carnaval continue sendo democrático e que arte, subjetiva, possa gerar discussões, mas sempre apontado para o lado positivo dos problemas. Entendo o que causou a dor, mas não os ataques”, diz Renata.

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