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Na zona oeste, a eleição mais disputada do Rio

Bairros que somam 1,8 milhão de eleitores decidem o pleito na capital e são ponto obrigatório para candidatos a prefeito e vereador

Em 2008, a vitória de Eduardo Paes foi dada, em grande parte, pelos eleitores da zona oeste, onde o peemedebista obteve 57% dos votos

À medida que se aproximam as eleições municipais, é difícil percorrer ruas de bairros da zona oeste sem cruzar com alguns candidatos em campanha. A região com 1,8 milhão de eleitores é a preferida para as caminhadas e o corpo a corpo nos calçadões repletos de gente que vai e vem do trabalho e moradores de todas as idades. Não por acaso Campo Grande, bairro mais populoso da cidade, com 328 mil habitantes, é para onde convergem os políticos. A quantidade de moradores é quase duas vezes maior do que a soma de Ipanema, Gávea, Jardim Botânico, Lagoa, São Conrado e a favela do Vidigal, na zona sul. Quem cruza o pórtico de entrada sinalizado pelo aviso de “Bem-vindo a Campo Grande” vê um mosaico de placas dos candidatos a perder de vista.

Na Estrada do Mendanha, uma das principais ruas do bairro, estão estampados mais de 20 rostos de aspirantes à vereança e ao executivo do Rio, posicionados por toda a extensão da via. As placas parecem ter magnetismo: onde uma surge, outras brotam em seguida. Nem casas abandonadas, postes – o que não é permitido pela legislação eleitoral – e conjuntos habitacionais escapam dos cabos eleitorais. Mas a Estrada do Mendanha se revela apenas uma amostra da romaria dos candidatos ao local. Se Campo Grande é endereço certo dos políticos, o calçadão do bairro é uma espécie de Eldorado.

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Em 2008, a vitória de Eduardo Paes foi dada, em grande parte, pelos eleitores da zona oeste, onde o peemedebista obteve 57% dos votos. Em bairros como Bangu, Campo Grande e Santa Cruz, a parte mais pobre e onde as pessoas apresentam as menores taxas de escolaridade na região – e até mesmo na cidade -, Paes conseguiu vencer com mais de 60%. “Ao contrário de 2008, quando Marcelo Crivella disputou a eleição, Paes não tem quem tire esses votos da camada mais baixa dele. Há uma ausência de candidatos à prefeitura com base na zona oeste este ano”, explica Jairo Nicolau.

Ainda em 2008, a vereadora mais votada, Lucinha, do PSDB, conseguiu os 68.799 votos com sua base eleitoral montada na zona oeste. A área passou por um processo de expansão nos anos de 1960, época em que foram construídos conjuntos habitacionais para servir de moradia à população removida dos morros da zona sul. Hoje, vive tanto um processo de crescimento dos residentes de classe média, sobretudo na Barra da Tijuca e no Recreio, como uma expansão popular. De olho nesses eleitores é que todos os caminhos dos políticos desembocam na região.

Os cabos eleitorais são pagos para ficar, na média, nove horas por dia com bandeiras e santinhos em mãos no calçadão de Campo Grande. Os que recebem a melhor remuneração ganham, além de dores no braço após a jornada, 650 reais mensais. No caminho de aproximadamente um quilômetro, o comércio fervilhante se confunde com uma ode aos candidatos. Por isso, mesmo quem nunca teve relação com a região explora o movimento do bairro. “Abordar o eleitor no calçadão de Campo Grande é fácil para todo mundo. É difícil se destacar em meio a tantos candidatos”, pondera o cientista político Jairo Nicolau.

A política e o comércio disputam atenção. No calçadão, ficam pessoas do lado de fora das lojas tentando convencer o pedestre a entrar. Até os estabelecimentos que não vendem eletrônicos ou CDs e DVDs voltam sua caixas de som para a rua, com volume nas alturas, embalando a massa com pagode e sertanejo. No fim, o que se houve é um ruído indefinível de música, muita conversa e a estridência dos jingles em carros de som. “Param em lugares irregulares e fingem que é o sinal”, explica um dos guardas que tenta ordenar o trânsito no Calçadão. Eles não podem fazer muito: são cinco, para 50 mil pessoas por dia na rua de pedestres.

“Existe uma quantidade de decibéis que não pode ser ultrapassada. Ultimamente tenho que pedir para os carros de som dos candidatos diminuírem o volume. O pessoal aqui tem reclamado mais do barulho durante este período de eleições. Também chegam até nós para relatar que os cabos eleitorais têm incomodado e fechado passagens”, afirma o guarda.

Quem escapa do entregador de santinhos pode cair em armadilha maior: o próprio candidato. Flávio “Do Bis”, que tenta uma vaga na Câmara, vai todos os dias ao calçadão. Do Bis é o nome de seu restaurante, vizinho ao local preferido de campanha em Campo Grande. “Aqui é estratégico. Em dias de maior movimento, são quase 80 mil pessoas. É importante marcar posição”, afirma Flávio, ladeado por dois cabos eleitorais que lançam – de mão em mão, 15 mil cartõezinhos diariamente.

A soma dos santinhos incomoda quem passa e pesa para quem varre. Antes do início da campanha, a Companhia Municipal de Limpeza Urbana, Comlurb, gastava até 10 sacos de lixo de 120 litros para levar os resíduos do calçadão no turno das 15h às 23h. A partir da chegada dos candidatos, o número aumentou para 17 sacos – e aqui estão contados só os resíduos da varrição. “Já vieram muitos candidatos. Mas a maioria não dá para lembrar o nome. Sei que o Paes já esteve aqui”, diz o vendedor Carlos Henrique Pereira da Silva, que agora, além de enfrentar a concorrência no comércio, disputa o espaço com os cabos eleitorais.

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