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Na Maré, a vida termina às três da tarde

Serviços, creches e postos de saúde antecipam fim do expediente para evitar os confrontos armados. Taxa de analfabetismo entre jovens é quase o dobro da encontrada no restante do município do Rio. Moradores ainda não estão convencidos da pacificação

Por Pâmela Oliveira, do Rio de Janeiro - 3 Apr 2014, 07h27

Rajadas de balas, caveirões em disparada, movimento de homens com armas de guerra à porta de casa. Uma parte do drama de quem vive em áreas dominadas pelo tráfico de drogas é conhecida, ou imaginada, pela população “do asfalto”. Há, além do medo de morrer, um conjunto surpreendente de limitações que não comovem o mundo, não causam indignação de órgãos de defesa dos direitos humanos. Mas obrigam milhares de moradores, no caso do Complexo da Maré, a viver pela metade. Com a entrada dos policiais militares no conjunto de quinze favelas, no último domingo, começa a ser revelada até para os cariocas a rotina das 130.000 pessoas que habitam o labiríntico conjunto de paredes de tijolos expostos à margem da Linha Vermelha.

Se para o cidadão parado no engarrafamento os tiroteios podem transformar a pista em uma prisão, para o morador da Maré essa é uma perspectiva permanente. Uma prova de como o medo encurta os dias naquela área está no horário de funcionamento dos serviços. Creches, postos de saúde e outros estabelecimentos têm, na Maré, o meio da tarde como fim de turno.

“Aqui na Maré, quase nada funciona em turno integral porque as pessoas que não moram no complexo têm medo dos confrontos e querem sair antes do fim do tarde”, conta Andrea Mota, presidente da Associação de Moradores da favela Nova Holanda.

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Segundo Andrea, pelo menos três dos sete postos de saúde instalados dentro do complexo de favelas funcionam até as 15h. A maioria das creches públicas encerra o expediente no mesmo horário, o que obriga centenas de mães a deixarem seus filhos sob os cuidados de pessoas que cobram, em média, cem reais para tomar conta de cada criança. Os pais geralmente contratam vizinhas que, de forma improvisada, recebem as crianças em casa.

“É muito difícil alguém trabalhar e voltar para casa antes das 15h, a tempo de buscar o filho na creche. Por isso, a opção é deixar com uma vizinha que não trabalha e cobra para cuidar das crianças. Isso evita que os meninos e as meninas fiquem na rua sozinhos”, explica Andrea.

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O complexo formado por quinze favelas e sete conjuntos habitacionais tem, segundo o Instituto municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP), 22 escolas. A taxa de analfabetismo na população entre 10 e 14 anos dentro dos limites das favelas é de 4,25% – quase o dobro da taxa em todo o município do Rio, que tem 2,57% de analfabetismo entre os jovens nessa faixa etária. Os dados são do Censo de 2010, e mostram como a Maré e outras favelas têm dificuldade de acompanhar as conquistas do restante da população. O Índice de Desenvolvimento Social (IDS) na Maré manteve-se inalterado entre 2000 e 2010, em 0,55 (o máximo é 1). Nesse período, o município do Rio teve um avanço significativo, de 0,58 para 0,61, em média – com bairros da Zona Sul acima de 0,80. Os dados do IBGE também mostram que a maioria dos trabalhadores na Maré (76,26%) ganham até dois salários mínimos. Só 0,28% ganham acima de dez salários mínimos. Mais uma vez, encontra-se no dado de renda uma discrepância gritante com o restante da cidade. Em todo o município, o porcentual de trabalhadores que recebem até dois salários mínimos é de 47,25% – com 11,34% acima dos dez salários.

“O adulto analfabeto não tem oportunidade de aprender a ler, porque trabalha de dia. Os únicos projetos de alfabetização para adultos são realizados por ONGs, mas têm limite de idade. Só são aceitos estudantes com até 23 anos. Ou seja, se você tem 30 e não sabe ler, dificilmente vai conseguir se alfabetizar”, explica Andrea.

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Promessas – A promessa do governo do Estado é de levar finalmente os serviços públicos à Maré. Os moradores, no entanto, ainda não estão convencidos de que haverá avanços. “Como acreditar na pacificação se a gente está vendo que em outros locais pacificados, como a Rocinha, o Alemão e a Grota, a violência não acabou? Eu quero acreditar que a Maré vai ter paz, mas temos que esperar para saber o que vai acontecer”, diz Andrea.

Presidente da Associação de Moradores da Baixa do Sapateiro, que faz parte da Maré, Charles Guimarães tem o mesmo temor. “A gente não consegue acreditar na pacificação da forma que as autoridades anunciam. Casos de abusos policiais são frequentes em territórios pacificados. E esse é um dos nossos medos. A polícia deve fazer o trabalho dela, mas precisa respeitar o morador. A grande maioria da população da Maré é formada por gente correta, que trabalha e quer ter seus direitos garantidos”, disse Guimarães.

Alemão – No Complexo do Alemão, ocupado pelas forças policiais em novembro de 2010, o processo de pacificação trouxe melhorias para os moradores, como a instalação de um teleférico de 3,5 quilômetros de extensão, que facilitou o acesso à favela, e reforços na limpeza urbana. A instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), em 2012, no entanto, não livrou a população do domínio de traficantes. As obras prometidas, como pavimentação e ampliação do saneamento básico, ainda não chegaram. “Nenhuma rua foi pavimentada e ainda há muito esgoto a céu aberto”, afirma Marco Antônio Quintal, presidente da Associação de Moradores da Grota.

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