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Na Espanha, o sonho partido dos imigrantes

Em Torrejon de Ardoz, perto de Madri, nada é mais como antes. Esta cidade-dormitório, que foi modelo de gestão, soube integrar milhares de imigrantes que vieram trabalhar numa Espanha em pleno boom econômico. Hoje está minada pelo desemprego e as ilusões perdidas.

Há três anos, neste local, a 30 minutos de trem da capital, os bares estavam cheios e os clientes faziam fila diante dos caixas das agências especializadas para enviar dinheiro a suas famílias.

Hoje, a maior parte dos estabelecimentos ainda abertos estão vazios. Não há mais centros telefônicos, penteados africanos e os bares baixaram a cortina.

Agora, observa-se, apenas, vestígios de uma época dourada, que fez de Torrejon, como de outras cidades da periferia, um ‘melting pot’ de imigrantes pouco qualificados, mas que encontravam trabalho facilmente, sobretudo na construção civil ou no setor de serviços.

Aí, dos 118.000 habitantes, um quarto é constituído de imigrantes; principalmente latino-americanos, romenos e africanos. Nos últimos 15 anos, a Espanha, em plena euforia da construção, recebeu mais de cinco milhões de estrangeiros. Em 2005, o país chegou a regularizar 600.000 trabalhadores em situação irregular.

“Habituamo-nos à boa vida, ao lazer, pudemos até comprar um pequeno terreno em nosso país, e mandávamos vir de lá nossas famílias. Mas tudo acabou”, resume Magali Quezada, uma peruana que chegou há dez anos a Torrejon.

Na agência de remessas de dinheiro onde trabalha, perto de Madri, os clientes escasseiam: muitos voltaram a seus países: outros não podem partir, por causa das dívidas.

Na mesma rua, perto de um cartaz com os dizeres “¡Stop desahucios!”, Parem os despejos, vive outra família equatoriana, a de Nelly Moreira, de 45 anos, que chegou com os três filhos há dez anos.

“No começo, vivíamos amontoados na casa de meu irmão até eu decidir comprar este apartamento”, explica.

“O banco e a imobiliária resolveram tudo”, deixando-me uma hipoteca de 200.000 euros para pagar em 35 anos, a razão de 1.300 euros por mês..

Em 2009, Nelly perdeu o emprego e o da filha, de 24 anos, não dá para pagar a dívida.

Tentaram vender o apartamento mas, depois da explosão da bolha imobiliária, perdeu a metade do valor.

Dessa forma, os imigrantes estão, hoje, na primeira linha, ante a crise.

Luis Mendes, 40 anos, da Guiné Bissau chegou em 1997, e achava ter encontrado o eldorado. Trabalhou na agricultura, depois como operário, na construção civil. Obteve até um empréstimo de mais de 100.000 euros para comprar um apartamento de 70 m2.

– “Rua das expulsões” –

“Eu ganhava bem, eram 1.800 euros por mês, fazendo horas extras; isso bastava para ajudar minha família que ficou na África”, lembra-se ele.

“Mas, hoje, não trabalho mais. Recebi o auxílio-desemprego durante um ano, mas agora não tenho mais”, prosseguiu Luis, que divide o apartamento com dois irmãos, também sem emprego.

A taxa de desemprego se eleva a 21,5% da população economicamente ativa na Espanha, chegando a 32,7% entre os estrangeiros. A maioria está muito endividada, após a onda de créditos fáceis, para a compra da casa própria ou de um carro, numa época em que os bancos emprestavam sem grandes exigências.

Hoje, Luis não consegue pagar suas contas e poderá ser expulso de um dia a outro.

No mesmo local onde mora Luis, chamada tristemente de “rua das expulsões”, porque a maioria dos moradores estão ameaçados, um grupo de “indignados” tentou em vão, no final de novembro, impedir a expulsão de Consuelo Lozano, uma equatoriana de 40 anos, que deve, ainda, 200.000 euros ao banco.

“É uma luta contra gigantes e eu não sou ninguém”, disse ela, em lágrimas, pouco após ter devolvido a chave de seu apartamento.

Com o marido desempregado e um trabalho como faxineira, Consuelo, que chegou em 1998, não pôde pagar a hipoteca da casa.

O banco reclama 180.000 euros (240.000 dólares), uma dívida que, se não puder pagar, recairá sobre a família de seu irmão, que foi avalista da transação.

Por isso, ela não pode sequer pensar em deixar o país, sob pena de transferir o débito.

Para Luís, “é tudo muito difícil, vivo muito mal”; mas, no meu país, é muito pior”, comenta ele.