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Na devassa do Bope, a busca por uma fortuna

O verdadeiro motivo da investigação na tropa de elite do Rio é o sumiço de milhões de reais em operação contra o tráfico em uma favela carioca em junho

Por Leslie Leitão 10 jul 2015, 18h02

A Corregedoria Interna da Polícia Militar promoveu, na quinta-feira, uma série de buscas tanto no quartel do Batalhão de Operações Policiais Especiais, o Bope, quanto na casa de pelo menos seis policiais: dois majores, entre eles o subcomandante da unidade, um capitão, um cabo e dois soldados. A justificativa era a apuração de uma denúncia de desvios de conduta durante uma operação realizada pelo Comando de Operações Especiais (COE), do qual o Bope faz parte, na madrugada do dia 22 de junho, no Morro da Covanca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. A reportagem de VEJA apurou do que se trata esse desvio de conduta: um butim que pode chegar a nada menos que 15 milhões de reais sumiu no ar durante essa ação. Tudo o que os policiais registraram na delegacia como material apreendido na operação, que deixou cinco mortos, foram seis fuzis e pacotes de drogas. Sobre os milhões, nenhuma palavra.

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A apuração da PM foi desencadeada por uma detalhada denúncia recebida pela Corregedoria. No decorrer da operação na favela, os policiais foram levados por um bandido encapuzado ao ponto exato da mata no alto do morro onde o dinheiro estava enterrado dentro de tonéis. Um capitão do Bope ficou encarregado de dividir a dinheirama e parte dela foi parar, inclusive, nas mãos de outros agentes do COE, órgão responsável, além do Bope, pelo Batalhão de Choque e pelo Batalhão de Ações com Cães. No Morro da Covanca funciona atualmente uma espécie de central de abastecimento de drogas da fação Comando Vermelho – daí a existência de tanto dinheiro vivo escondido na favela.

A busca pelos milhões desaparecidos começou com a Corregedoria realizando o que chamou de “devassa” no quartel do Bope em Laranjeiras, Zona Sul carioca, seguida de buscas na casa dos suspeitos. O dinheiro não apareceu. No quartel, aliás, armários foram abertos e gavetas reviradas, sem que nada se encontrasse – o que levantou suspeita de vazamento de informação. Já as buscas nas casas foram mais proveitosas. Na do soldado Flávio da Silva Alves, em São Gonçalo, havia treze granadas, dois frascos de spray de pimenta e uma pistola com a numeração raspada; em outros endereços foram apreendidos balas de fuzil, anabolizantes e um colete balístico. Quanto a dinheiro vivo, um major tinha em seu poder 40 000 reais em espécie, mas, segundo a polícia, comprovou a “procedência lícita” do dinheiro. Com o soldado foram achados outros 20 800 reais – meros trocados perto da fortuna que se evaporou. O soldado Alves e o major João Rodrigo Sampaio, chefe do serviço reservado, foram presos, mas o oficial pagou fiança e ganhou a liberdade.

Todas estas investigações fazem parte de um Inquérito Policial Militar (IPM) sobre desvios de conduta no Bope que a PM afirma estar transcorrendo em sigilo. A devassa acontece justamente na semana em que VEJA trouxe à tona uma série de irregularidades cometidas por policiais do Bope que até então eram mantidas escondidas – infrações que indicam brechas na blindagem ética da corporação que o Brasil identificava com a imagem de absoluta correção, como retratado no filme Tropa de Elite. Entre os casos relatados na reportagem, grampos da polícia mostram os negócios ilícitos de um sargento com um traficante em que se faz menção, inclusive, a outros membros da corporação, sugerindo a ação de uma quadrilha interna. A reação do comando do Bope a essa banda podre era, invariavelmente, de transferir na mesma hora os suspeitos para outros quarteis – prevenindo a contaminação, mas sem assegurar a punição dos culpados. O IPM agora em curso pode ser o começo do fim da prática do Bope de jogar os maus feitos de “caveiras” para debaixo do tapete.

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