Mulheres vítimas de assédio sexual nas igrejas evangélicas quebram o silêncio
Após uma líder ter discutido casos em público, elas começam a sair das sombras
O Congresso dos Gideões, tradicional reunião anual de pastores de diversas denominações, transcorria na santa paz em Balneário Camboriú, Santa Catarina, quando um discurso fugiu radicalmente ao roteiro, causando tremores que até agora se fazem sentir no meio evangélico. Era 2 de maio, um sábado de casa cheia, e a pastora Helena Raquel disparou no palco: “Pedófilo não é ungido. Pedófilo é criminoso. Não existe capacidade de se encontrar na mesma figura um pastor e um abusador”. A pregação de uma hora e vinte minutos, proferida pela principal líder da Vida na Palavra, uma das vertentes da Assembleia de Deus, apontava o dedo para dentro do segmento religioso que mais cresce no país, chamando atenção para o fato de os casos de abuso sexual nos templos serem frequentemente varridos para debaixo do púlpito. E, então, o que era para ser mais um encontro pentecostal voltado para quem se dedica a disseminar os escritos bíblicos virou dinamite nas redes ao lançar luz sobre um daqueles tenebrosos tabus envoltos em silêncio e que tanto mal traz às vítimas.
As palavras da pastora não foram apenas notáveis pela coragem, mas também pela raridade. Embora aqui e ali líderes evangélicos tenham defendido junto a seus rebanhos a necessidade de denunciar crimes de cunho sexual, sobretudo quando praticados sob o teto dos fiéis, jamais alguém com tão potente microfone havia puxado publicamente a orelha de seus próprios pares. “A mudança deve vir de dentro, de pastores comprometidos de forma inegociável com a verdade da Bíblia, que repudia a violência e o abuso”, afirmou Helena Raquel a VEJA.
Na Igreja Católica, uma ordem baixada em 2019 pelo papa Francisco tentou tirar, apesar da dificuldade e resistência, o manto de impunidade sobre as inúmeras denúncias de pedofilia e outros abusos sexuais praticados por padres, movimento que ganhou gás depois de uma vasta investigação do jornal americano Boston Globe, tema do filme Spotlight: Segredos Revelados. Era ordem que veio de cima, embora ouvida com restrições. No universo evangélico, contudo, a decisão de enfrentar a chaga é sempre particular, depende de quem está à frente de cada feudo, em uma estrutura para lá de descentralizada, sem liderança nítida. “Não há uma autoridade única para falar de medidas protetivas e penas”, diz a antropóloga Jacqueline Teixeira, pesquisadora de violência de gênero e religião da Universidade de São Paulo (USP). Ela faz, no entanto, uma ponderação: “A organização evangélica em torno de comunidades é menos engessada e pode facilitar a mudança”.
O primeiro passo tomado pela pastora encorajou sobretudo mulheres, a imensa maioria entre os que são alvo de abuso, a começarem a romper o silêncio. Nas últimas semanas, VEJA colheu depoimentos de vítimas de pastores que, mesmo tendo sofrido a violência há algum tempo, só agora resolveram cutucar a ferida aberta. “Os pastores fazem tudo para não manchar a imagem da igreja. Por isso escondem essas violações”, diz a estudante Ana Carollo, 30 anos. Frequentadora da Assembleia de Deus no Rio de Janeiro, ela foi atacada quando tinha apenas 12 por um dos líderes, depois de ser chamada a uma sala sob o pretexto de auxiliá-lo com um programa de rádio. “Ele começou a se masturbar e a massagear meu corpo. Eu não entendi na hora, mas sabia que tinha algo errado”, relata. Com a ajuda de uma amiga um pouco mais velha, o caso chegou aos superiores. Uma tia, então sua responsável, ficou frente a frente com o tal pastor, que negou tudo. “A esposa dele, grávida à época, disse que eu estava destruindo sua família, me senti muito culpada. Deveríamos tê-lo denunciado, mas tive medo de ser retaliada”, desabafa Ana, que trocou de igreja.
As vítimas ouvidas pela reportagem dão vozes a enredos perturbadoramente parecidos: o pastor conquista a confiança, assedia e, quando denunciado, nega ou até admite o crime, tentando semear a empatia alheia sob a velha desculpa de ter “caído em tentação”. Quase nunca o caso chega à polícia e, não raro, é o agressor (isso mesmo) que recebe o amparo da comunidade. Por culpa e temendo represálias, a psicóloga Ane Almeida, 42 anos, guardou por décadas o pesadelo que enfrentou. Aos 14, já entrou na igreja carregando o trauma de ter sido abusada duas vezes por parentes na infância. “Tinha pensamentos suicidas, mas fui acolhida pelos pastores, com quem passei a compartilhar toda a minha vida”, lembra. Dois anos mais tarde, o contato com um dos líderes da denominação foi se tornando constante. Até o dia em que ele a levou a um motel e tirou sua virgindade. “Demorei meses para entender o que tinha acontecido. Meus olhos só se abriram quando ele disse que eu era uma enviada do satanás”, diz. Ane decidiu então procurar a esposa do pastor, que permaneceu do lado do marido, assim como toda a igreja. “Ele cedeu ao pecado”, atenuavam, enquanto ela mergulhava fundo em uma depressão e até deixou a pequena cidade no Paraná onde morava.
O escudo protetor dos lobos em pele de cordeiro é uma passagem bíblica que exorta os fiéis a “não tocarem nos ungidos de Deus”, conferindo aos pregadores certa identidade sagrada. “Muitas vezes, a vítima nem acredita que está sofrendo uma violência porque acha impossível um representante de Deus fazer aquilo”, afirma a teóloga Lusmarina Garcia, pastora da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.
É natural que, ao remexer um assunto posto no escaninho do impronunciável, direcionando sua crítica ao comando de igrejas país afora, a pastora Helena Raquel tenha causado tremores. Alguns líderes até vieram a público se manifestar, sempre em posição contrária à violência, ainda que ela esteja presente nos templos. “Quem comete algo nesse nível tem de ser tirado da igreja, é assim que ensinamos”, diz o pastor César Augusto, da Fonte da Vida, que nasceu em Goiânia e se espalhou nacionalmente. Causou especial revolta entre os eclesiásticos uma coleção de números trazidos à baila pela pastora no Congresso dos Gideões, como os que revelam que mulheres evangélicas sofrem mais agressões sexuais do que as católicas (38,7% ante 33,2%), segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “A mensagem é extraordinária, mas a pesquisa é manipulada e feita para nos prejudicar”, reage Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo.
Cada púlpito propaga sua própria leitura das Escrituras Sagradas, e é comum ver pastores sublinhando ideias que giram em torno da submissão feminina. “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos”, diz Paulo, o apóstolo, no livro Efésios. “Muitos pastores ignoram o resto do texto, onde se lê que o homem deve amar a mulher como Cristo amou a Igreja”, enfatiza Estevam Hernandes, à frente da Renascer em Cristo, uma das poucas denominações a manter ouvidoria para receber denúncias de assédio. E assim a violência sexual vai sendo perigosamente absorvida e encoberta pelas próprias vítimas. Mas não por todas. Aos 17 anos, a administradora de empresas Jéssica Korbe, hoje com 33, participava de um retiro de jovens em uma chácara em Santa Catarina, onde foi apalpada na piscina por um pastor da Assembleia de Deus. Casado, ele passou a lhe enviar mensagens. “Repetia que tinha sonhos eróticos e queria dormir comigo”, diz. De nada adiantou denunciá-lo ao presidente da igreja. O abusador só foi preso quando descobriram a extensão de seus malfeitos — ele levava adolescentes a motéis, onde eram amarradas e violentadas. “Se eu tivesse sido ouvida, as outras pessoas não teriam passado por isso”, lamenta.
A blindagem mal travestida de fé reproduz uma cadeia rígida de hierarquias sustentada pela cultura do silêncio. “Sob essa lógica, o lugar de acolhimento das dores vira território fértil para o abuso”, analisa a socióloga Camila Galeti, da Universidade de Brasília. A cantora gospel Vanilda Bordieri, 52 anos, tinha apenas 16 quando começou a ouvir conselhos na igreja para se envolver amorosamente com um líder de lá, que estava recém-separado. “Falavam que eu teria uma boa casa e seria cuidada por um marido de Deus”, recorda. Finalmente ela cedeu a um primeiro encontro em que nada, nem de longe, saiu como o esperado. Levada a uma casa distante, foi estuprada e abandonada no meio da madrugada. “Acabaram me jogando nas mãos de um predador”, diz ela, que conta ter penado com o julgamento de gente que achou que era ela, no fim, a culpada. Que o franco depoimento de Vanilda e de muitas outras, que, após tão longo calvário, agora conseguem sair das sombras, contribua para livrar de vez as mulheres desse mal.
Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997







