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MP abre mão de ouvir primeira-dama de Campinas

Para promotores, já existem evidências suficientes para denunciar suspeitos de corrupção; depoimento de Bumlai, amigo de Lula, é mantido em segredo

Por André Vargas 31 Maio 2011, 20h25

Primeira-dama e chefe de gabinete da prefeitura de Campinas, Rosely Nassim Jorge dos Santos não será mais convocada a depor pelo Ministério Público. Promotores do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) concluíram que não é necessário conhecer a sua versão dos fatos para entrar com ações cíveis e criminais na Justiça contra suspeitos de envolvimento em um esquema de corrupção no município, nos próximos dias.

Rosely é apontada como chefe da quadrilha que corrompia e chantageava empresários depois de favorecê-los na obtenção de contratos com a administração pública, em especial com a Sanasa, empresa de abastecimento e saneamento de Campinas. Estimativas iniciais indicavam que a propina mensal seria de mais de 300 000 reais. Mas o valor deve subir – os promotores vão refazer as contas até o fim da semana.

Rosely foi convocada para depor duas vezes e não compareceu. Ela e alguns dos integrantes do grupo suspeitavam que estavam sendo investigados, indicam interceptações telefônicas obtidas com autorização da Justiça. A primeira-dama não foi detida graças a um habeas corpus concedido pela Justiça onze dias antes da emissão dos vinte mandados de prisão temporária contra empresários e atuais e ex-integrantes da administração pública.

O mesmo habeas corpus beneficiou seu marido, o prefeito de Campinas, Hélio de Oliveira Santos, o Dr. Hélio (PDT), que não está sob investigação até o momento. O processo corre em segredo judicial.

Depoimento – Nesta segunda-feira, o lobista e empresário que atuava como um dos cobradores do esquema, Emerson Geraldo de Oliveira, prestou depoimento. Ele era considerado foragido desde o último dia 20. Oliveira entregou ao Gaeco um CD com gravações de conversas telefônicas entre ele e Luiz Augusto Castrillon de Aquino.

O material corrobora parte das denúncias de Aquino, presidente da Sanasa entre 2005 e 2008, e que apelou para o benefício da delação premiada por se julgar achacado por Oliveira e seu sócio lobista, Maurício de Paulo Manduca, ainda foragido.

Emerson Oliveira não teria a opção da delação premiada nem se pedisse. De acordo com os integrantes do Gaeco, a investigação foi encorpada nos últimos dias com dados sobre o esquema no período posterior a saída de Aquino da Sanasa.

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Ao contrário do que argumentam os advogados dos envolvidos, as denúncias não estariam embasadas apenas nas escutas e denúncias de Aquino, que chegaram a respingar no empresário e pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Lula com livre trânsito no Palácio da Alvorada. O teor do depoimento do amigo de Lula é mantido em segredo. Ele negou participação no esquema.

“Temos entrecruzamento de documentos, decisões do Tribunal de Contas, escutas autorizadas, gravações entre os envolvidos e até fotos”, diz o promotor Adriano Andrade de Souza.

Mais suspeitas – O alvoroço que a investigação causou entre o empresariado de Campinas abriu espaço para novas denúncias. Uma delas envolveria a compra agressiva de empresas beneficiadas pelo esquema fraudulento. O empresário José Carlos Cepêra, um dos cabeças da quadrilha, teria tentado assumir o controle da Global Serviços. Os donos da empresa já foram ouvidos.

Detido em setembro passado em outra operação do Gaeco, Cepêra está foragido. Na ocasião ele esteve acompanhado pelos lobistas Emerson de Oliveira e Maurício Manduca.

Em outra denúncia, aparece um bilhete assinado pela própria primeira-dama, Rosely, indicando a um empresário a quem recorrer para obter a legalização de um loteamento – mediante pagamento de propina. Seria Ricardo Chimirri Candia, ex-diretor de Planejamento da prefeitura. Candia ficou detido por uma semana e foi ouvido pelos promotores antes de ser liberado, na última sexta-feira (27).

Uma terceira história, entre as que se acumulam em uma pasta na promotoria, aponta que Carlos Henrique Pinto, ex-secretário municipal de Segurança, cobraria para que bares da cidade não sofressem fiscalização. Foragido, ele obteve um habeas corpus e negou as acusações.

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