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Motorista que atropelou filho de Cissa Guimarães: ‘Todo mundo mente e só eu estou pagando’

Rafael Bussamra, indiciado por homicídio doloso, diz que vê a cena do acidente quando fecha os olhos e já sonhou com o Rafael Mascarenhas

Roberto Bussamra nega acusação de corrupção: ‘Paguei para afastar a ameaça dos meus filhos’

Indiciado por quatro crimes que podem levá-lo a receber pena de até 34 anos de prisão, o estudante Rafael Bussamra, 25 anos, que admitiu ter atropelado o filho da atriz Cissa Guimarães, vive um pesadelo. Em sua primeira entrevista desde o acidente, ele conta que sofre uma síndrome de perseguição. “Até agora ninguém me parou na rua para me falar nada, mas eu vejo as pessoas me olhando. Não sei se é uma coisa minha, psicológica, mas eu me sinto observado”, confessa.

A situação do jovem e de sua família – também envolvida em acusações de corrupção, devido ao pagamento de propina a dois policiais militares na noite do acidente – ficou mais complicada com a apresentação pela polícia do resultado das investigações, na última quinta-feira. Bussamra, que dirigia o Siena preto, e seu amigo Gabriel Henrique Ribeiro, 19 anos, que conduzia um Honda Civic, foram indiciados por homicídio doloso – quando há intenção de matar. Os dois, no entendimento da delegada Bárbara Lomba, da 15ª DP (Gávea), batiam um pega e assumiram o risco de causar a morte.

Ele nega a acusação. “O termo é uma coisa da Justiça. Aconteceu uma morte sem a minha intenção. Aconteceu um acidente que veio a ter uma morte. Nem eu nem meus amigos, os amigos dele, minha família ou a família dele queriam que isso acontecesse. Ninguém tinha intenção de nada. O nome que a Justiça dá a isso não cabe a mim”, diz Bussamra, que assume ter “uma dívida com a sociedade”, mas considera exagerada a punição proposta pela delegada ao Ministério Público. A Polícia Civil propõe que, além do homicídio, ele responda ainda por corrupção ativa, fraude processual (por ter tentado adulterar o veículo) e por ter fugido do local do atropelamento.

A noite do atropelamento – Em entrevista a VEJA.com, Bussamra sustenta que desconhecia a interdição do túnel e diz que não havia sinalização sobre o fechamento da pista. Pela primeira vez, apresenta uma versão diferente sobre a noite do atropelamento. Ele afirma que não saiu de casa só para fazer um lanche, versão contada à polícia em todos os seus depoimentos. Rafael e os três amigos teriam saído da Barra da Tijuca para a zona sul para um encontro com quatro meninas, que não chegou a se concretizar. “É uma coisa particular, não falei porque não achei que tinha a ver com o caso. Além do mais, elas eram turistas, nunca mais as vi ou tive contato”, argumenta.

Rafael relata que ele e André Liberal, que estava de carona no seu carro, ficaram conversando um bom tempo com os ocupantes do Honda Civic pelas ruas do Leblon e só após notarem que o encontro foi mal sucedido seguiram para a Barra da Tijuca para lancharem. A volta à zona Sul foi decidida, segundo conta, porque o comércio na Barra estaria fechado àquela hora.

Roberto Bussamra Roberto Bussamra

Roberto Bussamra (/)

O jovem também nega a versão dos amigos do filho de Cissa, de que ele e seus amigos passaram gritando para os skatistas. “O Gabriel abriu a janela e gritou para mim uma vez, para me avisar que queria voltar ao Leblon. Falei para ele que não dava para ouvi-lo e pedi que ele ligasse para o meu rádio. Foi o que ele fez em seguida”, relata. “Vejo que nessa história só eu estou falando a verdade. Os amigos do Rafael mentem, os policiais mentem, todo mundo está mentindo e só eu estou pagando”, acusa.

Bussamra hoje se sente inseguro para dirigir e conta que não consegue esquecer a cena do acidente. “A lembrança que tenho do acontecimento foi que eu bati na perna dele, na altura do joelho. Ele escorregou e capotou por cima do meu carro, bateu no meu vidro e foi para o teto. O impacto forte foi no chão. Eu fiquei tentando controlar o carro e carreguei ele por uns segundos. Ele não foi arremessado para a frente, foi transportado”, diz o jovem, que discorda da perícia que indicou que seu carro estaria a 100 km/h.

“Ainda lembro dele com uma fratura exposta no joelho e o rosto ensanguentado, não falava nada e respirava ofegante. Não achei que ele fosse morrer, mas a imagem é marcante. Eu fecho os meus olhos e vejo, já sonhei com ele”, conta Bussamra, que, nesse momento, demonstra nervosismo. Pai do jovem, o empresário Roberto Bussamra, durante a entrevista, tenta manter o filho calmo.

Corrupção – Bussamra, o pai, acabou envolvido no caso a partir da revelação de que dois policiais militares abordaram – e liberaram – o Siena minutos após o acidente. O empresário admitiu ter dado 1 000 reais aos PMs, mas nega que tenha tido a intenção de adulterar provas ou ocultar o caso. O engenheiro diz que insistiu em ir para a delegacia e que, depois disso, as ameaças dos policiais se tornaram mais evidentes. Segundo Roberto, o maior receio dos PMs era o fato terem desfeito a cena do local do acidente e informado à central que o motorista do carro tinha características diferentes das do seu filho. Os policiais avisaram para o batalhão que haviam parado o carro de uma mulher. Os contatos com os militares, segundo ele, começaram assim que o dia clareou. “O sargento diz que não ligou para mim, mas se quebrarem o sigilo telefônico dele verão que ele me ligou quatro vezes cobrando”, acusa o empresário, que acusa os policiais de extorsão. À polícia, ele relatou que o sargento Marcelo Leal e o cabo Marcelo Bigon exigiram 10 mil reais.

O pai de Rafael foi enfático ao dizer que nos primeiros dias se sentiu ameaçado e que só aceitou fazer o pagamento aos policiais para proteger a sua família. “Eu não paguei para liberar o carro, ninguém pagou para liberar o carro ou deixar de ir à delegacia. Nós queríamos ir à delegacia, mas ele (o sargento) não deixou. Paguei para afastar a ameaça dos meus filhos. Não teve corrupção, fomos vítimas de extorsão. Eu tive medo, mas não sei se faria de novo. Eu não dei o resto do dinheiro nem daria porque soube da morte do rapaz. Ali não admiti mais conversar com ele”, afirma.

Para Roberto, o peso da morte de Mascarenhas será carregado por sua família durante muito tempo. O empresário acredita que a opinião pública está contra seu filho e que isso será fator determinante para o filho responder por dolo eventual e não por homicídio culposo – sem intenção de matar. “Eu acredito que todos os indiciamentos apontados pela delegada vão a julgamento pela repercussão do caso, pelo fato de ter uma pessoa da mídia envolvida”, diz, referindo-se à atriz Cissa Guimarães.