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Morre Svetlana, a filha única de Stalin

Svetlana, a única filha mulher de Stalin, morreu no anonimato nos Estados Unidos, ao final de uma existência marcada pela guerra fria e a maldição de ser “a princesa” de uma das piores ditaduras do século XX.

Última sobrevivente dos filhos do ditador soviético, Svetlana, que se tornou Lana Peters, faleceu no dia 22 de novembro, no condado de Richland (Estado de Wisconsin, norte), confirmou nesta terça-feira à AFP o assessor jurídico do condado, Benjamin Southwick, ratificando uma informação do New York Times.

A sra. Peters, de 85 anos, sofria de um câncer no intestino, precisou Southwick. Durante toda a vida, tentou fugir, no exílio, da sombra do pai, mudando-se e trocando de nome várias vezes.

Numa entrevista publicada em 2010, no Wisconsin State Journal, ela admitia “estar muito feliz” nesta região afastada da América, contando que “seu pai estragou sua vida”. “Não importa onde eu vá, mesmo na Suíça, na Índia, em qualquer lugar. Numa ilha, na Austrália, serei sempre prisioneira política do nome de meu pai”, desabafou.

A uma pergunta sobre se o pai a amava realmente, a resposta foi afirmativa. “Era um homem simples. Rude, mas muito cruel. Nada nele tinha nuances; mas era muito simples conosco. Ele me amava e queria que eu me tornasse uma boa marxista”.

Nascida Svetlana Stalina, no dia 28 de fevereiro de 1926, levou uma vida “digna de um romance russo”, terminando seus dias numa espécie de cabana sem eletricidade, após anos de nomadismo e exílio, segundo o New York Times.

Apelidada de “a princesinha” do Kremlin, era, quando criança, uma celebridade na então URSS, onde milhares de meninas foram batizadas com seu nome, Svetlana, em homenagem. Stalin cobria sua “pequena andorinha” de presentes, incentivando-a a ver filmes americanos. Mais tarde, ela se tornou professora de inglês e de literatura russa, além de tradutora.

Sua mãe suicidou-se quanto tinha apenas seis anos e Svetlana acreditava que tivesse sucumbido a uma apendicite. O ditador tornou-se, logo, um pai abusivo e distante.

Quando se apaixonou, aos 17 anos, por um cineasta judeu 24 anos mais velho, Stalin mandou-o logo para a Sibéria. Ela conseguiu, no entanto, superar as objeções paternas, casando-se com um estudante de origem judaica, em 1945, com quem teve um filho, também chamado Joseph. O casal se divorciou dois anos depois.

Em 1949, voltou a se casar, desta vez com Iuri Jdanov, filho do braço direito de Stalin, Andreï Jdanov. O casal teve uma filha, mas também se divorciou logo.

Após a morte de Stalin, Svetlana perdeu seu estatuto privilegiado. Tomou o nome de solteira da mãe, tornando-se Svetlana Alliluyeva. As autoridades a proibiram de se casar com um estudante indiano de passagem por Moscou. Ela obteve, no entanto, a permissão de levar, em 1967, as cinzas dele à Índia, quando morreu de doença.

Svetlana aproveitou para escapar da vigilância da KGB e pediu asilo à embaixada dos Estados Unidos em Nova Délhi. Em plena guerra fria, sua deserção fez muito barulho, depois da de Rudolf Nureyev seis anos antes.

Chegando a Nova York, via Itália e Suíça, ela denunciou o regime soviético, “monstro moral e espiritual”. Sua autobiografia, “Vinte Cartas a um Amigo”, registrou vendas de 2,5 milhões de dólares. A KGB, que ela comparou a Gestapo, tentou eliminá-la.

Em 1970, tornou-se Lana Peters após um breve casamento com o arquiteto William Wesley Peters. Contrariando todas as expectativas, retornou a então URSS, em 1984, para rever os filhos que deixara 17 anos antes. Ela denunciou, na época, o Ocidente, explicando ter sido manipulada pela CIA. Mas retornou aos Estados Unidos em 1986, desmentindo, desta vez, seus propósitos antiamericanos.

Segundo o New York Times, ela viveu, depois, entre os Estados Unidos, a França, a Inglaterra e num convento suíço.