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Moradores registram em foto momento histórico da Rocinha

Operação pacífica levou curiosos brasileiros e estrangeiros às imediações da Rocinha e do Vidigal para registrar a movimentação de soldados e blindados

Por Leo Pinheiro 13 nov 2011, 14h00

“Eu fotografei os tanques chegando à 10h da noite, às 3h, e às 6h desci para acompanhar de perto. Enviei tudo na mesma hora para minha filha, que ficou desesperada. Ela me perguntou se tinha começado uma guerra no Rio, eu disse que a guerra estava acabando.”

Talita Godinho, moradora do Leblon

Entre as 2h30 e as 7h45 da manhã, os principais pontos de ligação entre as zonas sul e oeste do Rio de Janeiro estavam bloqueados para o trânsito de automóveis, para que as forças de segurança do estado, executassem a planejada reconquista das comunidades Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, há décadas sob domínio de traficantes. Os pontos de bloqueio, no entanto, não inibiram a passagem daqueles que precisavam se deslocar de um lado para o outro da cidade, para trabalhar, e até mesmo curiosos sobre a operação batizada de ‘Choque de Paz’.

Morador de Pedra de Guaratiba e porteiro em um edifício no Alto Leblon, local com ampla visão da favela do Vidigal, Walmir Coutinho acordou às 3h para conseguir chegar às 7h no trabalho. “Peguei um ônibus até o Recreio, depois outro até a Barra e do Largo da Barra até aqui eu tive que vir a pe. Saltei lá às 5h e só vou conseguir chegar no emprego às 7h30. Normalmente eu pego às 6h, mas o colega que está lá entende porque ele mora na Rocinha e sabe tudo o que está acontecendo”, responde Walmir entre um telefonema e outro para informar a sua posição para o colega, Nilson, porteiro do turno da noite.

Confira a cobertura completa:

A cronologia da ocupação policial

Rio: Com blindados, começa a ocupação

Beltrame transforma favela em vitrine

Começa o desmonte do Arsenal da Rocinha

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Galeria de imagens:

A prisão do traficante Nem

A ocupação da Rocinha pelas forças de paz

Preparativos: saída da Rocinha é vigiada

Para outras pessoas, a via crucis de Walmir era um passeio turístico. De máquinas fotográficas em punho, turistas europeus e asiáticos hospedados no hotel Sheraton Rio, que desciam em direção ao Leblon, pela Avenida Niemeyer, por volta das 7h, pareciam se divertir com a imagem de tanques de guerra circulando por um dos cartões postais mais famosos do Brasil, o Mirante do Leblon. Devidamente acompanhados por um segurança do hotel, eles registravam em foto cada novidade.

Concierge do Sheraton, Antonio ressaltou que os hóspedes foram avisados de que as vias públicas estavam fechadas até às 8h e que os ônibus de passeio do hotel só circulariam após às 9h. “Nós avisamos que era uma operação da polícia brasileira e que a orientação das autoridades locais era para não circular antes das 8h, mas não podemos proibir os hóspedes de circular pela cidade. Alguns são mais curiosos”, justificou o funcionário. Antonio diz ainda que, embora a gerência do Sheraton não tenha incentivado os turistas a descerem a rua a pé, o hotel não poderia negar a presença de seguranças para os hóspedes que solicitaram. “Não oferecemos esse serviço especificamente, mas reforçamos a nossa equipe de segurança toda a semana”, completa.

Carioca da gema, Talita Godinho, fotografou, da janela de um edifício ao lado do 23º Batalhão de Polícia Militar, os carros blindados da Marinha e os helicópteros para enviar para a filha, Thaís, que estuda odontologia na Austrália. “Eu fotografei os tanques chegando à 10h da noite, às 3h, e às 6h desci para acompanhar de perto. Enviei tudo na mesma hora para minha filha, que ficou desesperada. Ela perguntou para mim se tinha começado uma guerra no Rio, eu disse que a guerra estava acabando. Depois de décadas os bandidos da zona sul estavam dominados”, comemorou a dona de casa.

Depois das 9h o restante dos cariocas começaram a ocupar as tradicionais áreas de lazer da zona sul, como a orla e a Lagoa Rodrigo de Freitas. O taxista Sidney Dener e sua esposa Rusami Feitosa, saíram da Vila da Penha, na zona norte, e vieram curtir um dia de praia em Ipanema com o filho Miguel, de dois anos e meio, mas antes se asseguraram de que a ocupação da Rocinha tinha sido bem-sucedida. “Antes de vir, acompanhamos pela tevê e vimos que estava sido tudo tranquilo, que a operação foi realizada sem dar um tiro. Moro perto do Complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro e a melhora do ambiente lá depois da ocupação é visível. Agora foi na Rocinha. Só falta o Governo cuidar agora da segurança dos moradores do asfalto”, reivindica.

Apesar do sucesso da ‘Choque de Paz’, Dener ressalta que durante este final de semana vai restringir a circulação de sua família por Ipanema, Arpoador e Copacabana. “Aqui está tudo bem, do Leblon para frente é que deve ter sido mais complicado. Principalmente São Conrado, que foi o maior foco da operação”, disse o taxista.

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