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Mizael nega ter matado Mércia e diz ser vítima de armação

“Criaram uma situação para jogar em mim”, disse o ex-PM, que afirmou ainda ter sido torturado por outros policiais; promotoria não quis interrogar o réu

Por Jean-Philip Struck 13 mar 2013, 19h37

O ex-policial militar e advogado Mizael Bispo, de 43 anos, negou na tarde desta quarta-feira ter matado a advogada e ex-namorada Mércia Nakashima. Ele disse ter sido vítima de uma armação de policiais e do delegado responsável pelo caso.

“Criaram uma situação para jogar em mim. Transformaram um problema pessoal que eu tinha com o delegado nisso. Um delegado que quer se candidatar a deputado estadual no ano que vem (…) Eles não queriam o autor do crime, eles queriam um culpado”, disse Mizael. Na terça-feira, o delegado responsável pelo caso, Antonio de Olim, disse não ter dúvida de que Mizael matou Mércia.

O depoimento de Mizael começou às 17h20, após duas testemunhas de defesa terem sido dispensadas neste terceiro dia de julgamento. A condução do depoimento do ex-PM coube à defesa, já que a promotoria manifestou que não tinha interesse em fazer perguntas ao réu – argumentou que o depoimento não seria considerado confiável. Segundo o promotor Rodrigo Merli, Mizael já deu seis versões sobre sua atuação durante o crime no curso do processo. Instigado por seus advogados, Mizael transformou seu depoimento, que durou cerca de duas horas, numa sucessão de negativas sobre cada aspecto da investigação.

Um dos jurados perguntou o que ele achava dos vestígios de alga que foram encontrados em um de seus sapatos, compatíveis com uma espécie que vive na represa de Nazaré Paulista (região metropolitana de São Paulo), onde o corpo de Mércia foi encontrado em junho de 2010. “Nunca estive na represa de Nazaré Paulista. Juro pela vida da minha filha. Tenho certeza que levaram meu sapato lá. Nunca queiram ser vítimas da polícia, não é fácil”, disse Mizael.

Telefonemas – O réu também falou sobre outra prova apresentada pela defesa, um de seus telefones, que segundo peritos, foi usado na noite do crime e foi omitido pelo réu nas fase de investigações. “Não omiti nenhum número. Eu simplesmente esqueci de passar um telefone que comprei junto com a Mércia”, disse o réu. Sobre os dados do telefone, que segundo a Polícia Civil mostraram que o réu rondou a casa dos avós de Mércia no dia do crime, quando ela almoçou no local, Mizael disse que esteve no bairro para visitar um cliente do seu escritório de advocacia.

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Mizael também negou ter segurado transferências de honorários advocatícios para Mércia quando os dois foram sócios num escritório de advocacia. A falta de transferências, segundo o irmão da vítima, Márcio Nakashima, foi um dos motivos para o término do relacionamento entre Mércia e Mizael e da sociedade no escritório. Sobre o relacionamento que teve com a ex-sócia, Mizael disse que após um período de estabilidade, a relação entre os dois se tornou aberta, cerca de nove meses antes do crime. Ainda segundo o réu, eles ainda se viam na época do desaparecimento de Mércia.

Tortura – O ex-PM disse ainda ter sido torturado por policiais. Segundo a versão do ex-PM, em 2010, ele e seu irmão foram parados por uma viatura descaracterizada em Guarulhos. “Fui torturado. Eles me pressionaram para dizer que matei a Mércia”, disse Mizael.

Logo no início do depoimento, o advogado de Mizael, Samir Haddad Jr., tentou sensibilizar os jurados fazendo perguntas a Mizael sobre sua infância e seu tempo da Polícia Militar. “Meus pais eram pobres”, disse o ex-PM, que afirmou nunca ter matado ninguém quando servia à corporação. “Sempre tive medo de trabalhar na rua”, disse Mizael.

Mizael também afirmou que não poderia atirar contra a ex-namorada por causa de uma lesão sofrida em 1999, que o forçou a se aposentar da Polícia Militar. Quando o réu disse que nunca seria capaz de atirar em alguém, o promotor e o assistente de acusação riram. Os dois acabaram sendo repreendidos pelo juiz que preside o júri.

Em seu depoimento, Mizael voltou a contar a versão de que estava com uma garota de programa na noite do desaparecimento de Mércia, em 23 de maio de 2010. “Perguntei quanto a moça iria cobrar pelo programa. Ela disse que era para eu dar qualquer valor. Dei 20 reais para ela.”

Sobre o depoimento do vigia Evandro Bezerra Silva, de 40 anos, corréu no processo e que afirmou em depoimento que acusou Mizael pelo assassinato e afirmou ter buscado Mizael na represa na noite do crime, o ex-PM voltou a insistir na tese de armação. “Ele deve ter os motivos dele. Devem ter oferecido um privilégio. Não entendo, tenho pedido a Deus que ilumine a cabeça dele. Não é verdade o que ele está falando”, disse o réu, de maneira breve.

O julgamento será retomado na quinta-feira às 9h, quando está prevista a fase de debates entre a defesa e a acusação. O veredito deve ser na noite do mesmo dia.

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