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Ministros esperam convencer Bolsonaro a tomar vacina na hora H

Generais do Palácio do Planalto vão defender que o presidente mude de posição e tope ser imunizado para dar um bom exemplo na luta contra a Covid-19

Por Thiago Bronzatto Atualizado em 15 jan 2021, 20h10 - Publicado em 16 jan 2021, 13h00

Antes de mesmo de o Brasil ter uma vacina contra a Covid-19, Jair Bolsonaro declarou que não irá se imunizar e até chamou de idiota quem diz que ele está dando um péssimo exemplo. Apesar dessa posição inflexível, alguns ministros militares do governo esboçam um plano ambicioso: quando todo o processo burocrático estiver resolvido pela Anvisa, responsável pela aprovação dos imunizantes, querem convencer o presidente a se vacinar diante das câmeras.

Entre os envolvidos nessa missão estão os generais da reserva Braga Netto, chefe da Casa Civil, e Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo. Ambos já testaram positivo para a Covid-19, mas dizem reservadamente que pretendem se imunizar e que vão conseguir demover Bolsonaro. Para os militares palacianos, o presidente ganharia em termos de imagem, mostrando que, diferentemente do que alegam os seus opositores, ele está lutando para proteger a vida dos brasileiros. Bolsonaro seguiria o exemplo do primeiro-ministro conservador  de Israel, Benjamin Netanyahu, que, embora criticado, foi a primeira pessoa a ser vacinada no país.

Além da ala verde-oliva, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tem se posicionado de forma favorável à vacinação — que, segundo ele, poderá reativar a retomada do crescimento do país. “Quero a vacina, e ela pode vir da lua ou de Marte. Pode ser qualquer vacina aprovada”, afirma. “Para um liberal é o seguinte: o governo disponibiliza as vacinas para a população e é de livre escolha individual tomar ou não. Mas quem não tomar nenhuma não pode entrar no cinema, porque colocará outras pessoas em risco”, diz o ministro. A pessoas próximas, Guedes confessa que só topará tomar uma vacina aprovada por órgãos reguladores ingleses e americanos. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, também afirma que pretende se vacinar “em alinhamento ao que for recomendado pelo Ministério da Saúde”.

Marchando na contramão, há um segundo pelotão do governo, o ideológico, que está resistente à imunização compulsória e tem declarado guerra contra a CoronaVac. Ministros como Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Ernesto Araújo, do Itamaraty, criticaram o fato de a vacina chinesa ter uma eficácia, segundo eles, abaixo do esperado. A eficácia geral da CoronaVac é de 50,38%, acima do mínimo exigido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela própria Anvisa, de 50%. Cientistas dizem que a vacina chinesa é segura e deve ser usada o mais rápido possível. Não é o que pensam os radicais ideológicos, sempre pautados pela disputa política.

Na última terça-feira, 12, alguns integrantes dessa ala comparavam, em grupos de Telegram, a eficácia geral da CoronaVac com a do Viagra. “Será que o Viagra teria o mesmo sucesso caso a eficácia fosse 50%?”, escreveu o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub. Filipe Martins, assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, também endossou as críticas. “Como você se sentiria se um médico lhe dissesse que ele pode descobrir se você tem coronavírus com base em um exame que é, na verdade, um jogo de cara-ou-coroa? Pois é mais ou menos o que vai acontecer com sua imunização, se você optar por tomar a vacina de 50,38% de eficácia do João Doria”, disse ele.

Nesse duelo entre entusiasta da vacina e negacionistas em meio ao agravamento da pandemia, espera-se que não haja mais atraso na corrida do Brasil por imunização. Desde março do ano passado, o país registrou 207.160 óbitos. Somente no último dia 7, foram mais 84 977 casos da doença, novo recorde nacional até então. Segundo o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, a vacinação começará na quarta-feira 20 se a Anvisa aprovar o uso emergencial dos imunizantes.

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