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Ministério da Pesca é uma curva de rio política

Pasta é abrigo para petistas que perderam poder, mas que não deixaram de prestar leais serviços

Por André Vargas 10 jun 2011, 22h43

Criado no primeiro dia do primeiro governo Lula, em 1º de janeiro de 2003, o Ministério da Pesca se revelou uma tediosa armadilha para seus titulares. Em linguagem de ribeirinho, é uma curva de rio, local onde a correnteza deposita tudo que não consegue se manter firme nas margens, e passa a boiar em círculos em um remanso até que a próxima enxurrada as salve das águas turvas e paradas. Também é onde os bombeiros costumam procurar os afogados desaparecidos.

Comparar a curva de rio com a pasta que Ideli Salvatti passou para Luiz Sérgio, o ex-ministro da articulação política, não é um exagero. Desgastado no governo, mas sem protagonizar escândalos, Luiz Sérgio ganhou uma espécie de cargo de férias. Com Ideli foi a mesma coisa. Em 2009, ela havia votado no Conselho de Ética pelo arquivamento das denúncias contra José Sarney, presidente do Senado, envolvido no escândalo dos atos secretos.

De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, naquele ano, Ideli foi uma das quatro integrantes do Conselho que teve assessores nomeados ou exonerados pelos atos secretos. Candidata ao governo de Santa Catarina, a ex-senadora acabou em terceiro lugar. Prestigiada, mas sem cargo, ganhou um ministério de consolação, que ocupou por seis meses. Uma pasta sem importância, mas não pobre. Em oito anos, a pasta teve um orçamento que cresceu de 11 milhões de reais para 803 milhões de reais.

No mesmo período, a produção de pescado brasileiro se manteve estável, em quase um milhão de toneladas. O inchaço no orçamento nunca foi justificado. Embora uma pesquisa feita na época da criação da pasta tenha mostrado que a costa brasileira abrigava grande variedade de espécies marinhas, o estudo indicava também que a possibilidades de exploração econômica em grande escala era limitada. Em 2006, um levantamento iniciado pelo Ibama ainda em 1995 confirmou o resultado.

Como mostram esses dados, existem 800 mil pessoas vivendo da atividade pesqueira no Brasil. Significa dizer que o ministério tem 1.000 reais para gastar, por ano, com cada pescador brasileiro. O dinheiro pode não ser suficiente para impulsionar o setor até transformá-lo numa indústria rentável, como no Chile. Mas basta para tornar bastante confortável a curva de rio onde Luiz Sérgio vai esperar pela próxima enxurrada .

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