‘Meu trabalho vem do mergulho na minha trajetória’, diz Paulo Vieira
Humorista falou à coluna GENTE sobre nova produção
Criada por Paulo Vieira, 33 anos, a série Pablo & Luisão tem feito sucesso na TV Globo, demonstrando que, embora tenha passado um tempo afastada da grade, a comédia ainda tem seu lugar junto à audiência da TV aberta. Em entrevista à coluna GENTE, o comediante tocantinense dá detalhes do processo de criação do projeto e sobre sua principal inspiração artística: a vida real. Paulo tem sua trajetória de vida como a força motriz por trás de suas obras, acreditando que a identificação do público com esse cotidiano é a principal força de sua arte.
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De onde veio a inspiração para criar Pablo & Luisão? Desde a época de Minha Gente, na Record, e depois com Isso é Muito Minha Vida, na Globo, eu já usava a minha família como matéria-prima para contar histórias e observar comportamentos da classe média brasileira. Mas esses projetos eram centrados na figura da minha mãe e na nossa relação. Com Pablo & Luisão, quis ampliar esse universo e olhar também para o meu pai, que aparecia menos. Inclusive, uma vez ele brincou dizendo: “Parece que você só tem mãe”. Aquilo me provocou. A partir daí, eu e o meu irmão começamos um trabalho quase arqueológico de revisitar memórias, reunir histórias da família e resgatar lembranças.
A identificação do público com os personagens vem daí? Sim, a identificação acontece porque esses personagens são muito humanos. Eles não são pessoas perfeitas, sem defeitos; são cheios de falhas, contradições e fragilidades. Embora a série seja inspirada em fatos reais, os personagens são construções ficcionais, quase arquétipos da comédia. Mas, mesmo quando assumem esse lado mais arquetípico, são construídos a partir do erro. E o erro aproxima as pessoas. O que mais encanta em Pablo & Luisão é essa possibilidade de falhar, de se atrapalhar, de não acertar sempre.
Você pediu para que a série não ficasse restrita ao Globoplay. O que te levou a crer na popularidade da produção na TV aberta? Acreditei porque faço parte desse grande público. Não conheço o povo brasileiro por meio de pesquisa de opinião, PowerPoint ou relatório; conheço porque sou parte dele. A minha vida, a minha formação e a minha experiência foram construídas dentro desse universo. Escrevo para a minha família e, de certa forma, para mim mesmo.
Pablo & Luisão apresenta um cotidiano familiar que relembra séries célebres como A Grande Família. Há demanda por esse tipo de comédia “familiar” mais afetiva? A demanda é por coisas verdadeiras, e não por pedidos baseados em métricas, algoritmos e pesquisas. A gente tem mergulhado, no nosso mercado, em uma descrença na capacidade dos artistas de refletirem aquilo que o público quer ver, é disso que vem parte da crise que tem passado no nosso setor. Se a gente escutar os artistas, os poetas, a gente vai se reconectar com o coração do público.
Além de roteirista e criador, você também coordena a escolha do elenco. Como é lidar com esse papel na produção? Fico entre o muito controlador e o caprichoso. Faço questão de estar presente em todos os processos, pois quero chegar a um resultado estético que eu não costumo ver. Acompanho tudo nos detalhes. Eu vou dar um exemplo: a gente estava fazendo uma cena no pit dog, um trailer de rua muito comum no Tocantins, e parte dos copos eram aqueles de plástico colorido, que são caros, e falei que ali deveriam ter os descartáveis brancos. Esse é o tipo de coisa que eu olho. Outro exemplo: não há jarra de suco na mesa da família. Há, sim, uma garrafa PET com suco dentro para eles sacudirem. A minha visão é de que tudo isso é cultura. Cultura são todos os aspectos simbólicos que envolvem a vida: onde a gente faz o suco, a maneira de cortar a abobrinha, a mão na cintura enquanto lava a louça. Tudo isso é cultura. E tenho um capricho grande ao representar a minha cultura e a do meu povo, para que eles comecem a valorizar isso. Sinto que posso contribuir para a construção da autoestima nacional fazendo esse tipo de coisa.







