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Mesmo com feriadão e fase vermelha, isolamento não supera 51% em São Paulo

Taxas ficaram parecidas com as dos dias anteriores; especialistas apontam falta de fiscalização, boicote da população e número alto de atividades essenciais

Por Camila Nascimento Atualizado em 7 abr 2021, 13h17 - Publicado em 7 abr 2021, 13h15

Apesar de a prefeitura da cidade de São Paulo ter antecipado feriados deste ano e até de 2022 para tentar conter a transmissão da Covid-19, a medida foi pouco efetiva na última semana. No pico, o isolamento social no município chegou a 50% no domingo de Páscoa, dia 4, inferior ao verificado no domingo, dia 21, quando chegou a 51%  — nos outros dias do feriadão, o índice não ultrapassou os 47%. Já o estado, que está em fase vermelha desde de março, teve 51% de isolamento no dia religioso, mas também não quebrou a barreira dos 47% nos outros dias.

Segundo infectologistas e epidemiologistas, o percentual mínimo de isolamento deve ser de 70% para que a medida tenha efetividade na contenção à propagação do coronavírus. O feriadão teve dez dias — de sexta-feira, 26, a domingo, 3 — e foi adotado pelo prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB) e outros prefeitos da Grande São Paulo. No período, a taxa de isolamento social na capital paulista variou de 42% a 50% — nos sete dias anteriores, as taxas na cidade variaram de 42% a 51%.

Para especialistas, alguns aspectos podem ter prejudicado o aumento dessa taxa mesmo com a adoção do feriadão, como a ampla lista de atividades consideradas essenciais, a falta de uma coordenação federal para as políticas de distanciamento social, a dificuldade em convencer a população a aderir e a pouca fiscalização nas ruas para garantir a efetivação da medida.

Segundo Carlos Magno Fortaleza, epidemiologista da Unesp e membro do Comitê de  Contingência de Covid-19 do Estado de São Paulo, o feriadão, é “uma medida branda que depende muito da colaboração de pessoas”. “Há um boicote deliberado por parte da população, que não acredita e ainda boicota para que a coisa não funcione, até estimulada por alguns formadores de opinião”, diz.

Para o epidemiologista, o lockdown com a presença ostensiva das forças de segurança nas ruas seria uma ação mais dura, porém capaz de aumentar o índice de isolamento de forma considerável. “Existe sempre o medo de que a população se revolte e existe a questão de que um lockdown precisa de força policial suficiente. O Exército seria o ideal, mas já foi dito pelo presidente que ele já mais será usado para isso. A gente tem uma situação difícil quanto a isso”, afirma.

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Motoboys na Avenida Ibrapuera, em São Paulo, durante o feriado prolongado
Motoboys na Avenida Ibrapuera, em São Paulo, durante o feriado prolongado Filipe Araújo/Fotos Públicas/Divulgação

Segundo ele, a cidade de São Paulo que melhor implantou medidas desse tipo foi Araraquara. “Fez um lockdown real, impedindo as pessoas de saírem as ruas. E a cidade teve, não supreendentemente, um resultado bom. Araraquara está passando três, quatro dias sem ter morte, enquanto nos outros locais temos mortes todos os dias”, afirma.

No entanto, ele pondera que a adoção da fase vermelha no estado não foi inútil, mesmo o isolamento tendo ficado abaixo do esperado. “As medidas não aumentaram o índice como desejaríamos, a meta é 70%. Mas há uma nítida desaceleração do número de casos novos na última semana. Ainda está aumentando, mas muito pouco, quase chegando em um platô. Antes estávamos em uma franca aceleração e caminhando para o colapso das UTIs. Agora temos um pequena redução da população em UTI e na espera por leitos”, diz.

Fortaleza defende que a adoção das medidas continue para que sejam mais bem analisadas, mas ele defende que, se elas não se mostrarem suficientes, sejam implantadas ações menos brandas. “É possível que tenhamos que caminhar para medidas como interromper o transporte coletivo e impedir que as pessoas façam circulações amplas”, afirma o epidemiologista.

Já para o infectologista Jamal Suleiman, do Emílio Ribas, a falta de incentivo e de auxílio financeiro para as pessoas ficarem em casa, além da ausência de uma coordenação federal, continuam sendo os principais motivos para a dificuldade em aumentar o isolamento. “A primeira coisa que tem que acontecer é uma participação popular mais efetiva. Num momento tão agudo quanto este que estamos vivendo, essa é a única forma de frear a transmissão. Mas você não pode trancar a pessoa em casa e não garantir a sua sobrevivência. Se você fecha a atividade econômica, é preciso uma compensação. Há uma desorganização do poder central, em nenhum momento o governo federal fez qualquer movimentação para minimizar de fato esse impacto”, afirma.

Além disso, segundo ele, falta uma restrição maior das atividades essenciais. “Neste momento, você precisa definir bem o que pode funcionar e o que não pode funcionar, mas sistematicamente temos visto ruídos nessa área. Igreja é trabalho essencial? Óbvio que não. Ninguém tem dúvida de que não é uma atividade essencial. As pessoas buscam isso na Justiça, e dão ganho de causa para elas. A desorganização federal só dá mais margem para isso. Nenhum lugar que restringiu a circulação fez isso dessa forma”, avalia.

Outras cidades

Além de São Paulo, várias outras capitais adotaram medidas mais rigorosas nas últimas semanas para frear a propagação do vírus. No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes (DEM) também adotou o feriadão de dez dias. As demais cidades, no entanto, não medem as taxas de isolamento social — a única capital a fazer isso é a de São Paulo

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