Mentira sobre lobista e afago a investigados por corrupção: as falas polêmicas de Lula ao JN
Lula mostrou-se irritado ao falar de casos de corrupção e da crise econômica que rondam seu governo
Entrevistado nesta quinta-feira por César Tralli e Renata Vasconcelos, o presidente Lula resgatou velhas estratégias para tentar se afastar dos escândalos de corrupção que rondam seu governo e seu gabinete no Palácio do Planalto.
Ao falar das investigações da Polícia Federal contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, Lula mostrou-se irritado ao ter que falar das mensagens que o filho dele trocava por celular com a lobista Roberta Luchsinger.
Papel de vítima e defesa de Lulinha
O petista recorreu ao papel de vítima de conspirações dos tempos da Lava-Jato para desviar o foco das perguntas objetivas sobre negócios feitos pelo filho com a lobista.
“Não tem nenhuma acusação. São ilações, ilações, ilações tiradas de telefonemas. Eu conheço isso muito bem, porque já vivi isso”, disse Lula. “Eu estou muito tranquilo com o presidente da República. Tudo que for preciso fazer, no âmbito da polícia e da justiça, para apurar, será dado toda e qualquer garantia”, disse o petista.
Mentira sobre lobista
Além do papel de vítima, Lula mostrou-se despreparado para falar da influência da amiga de Lulinha no governo, algo amplamente documentado em postagens na internet. Ao ser questionado diretamente se ofereceu um cargo para Roberta no governo, como ela diz em mensagens obtidas pela PF.
“Só faltou ela dizer o seguinte, que eu ofereci pra ela o Ministério da Defesa, o comando da Marinha, da Aeronáutica, mas assim, é de uma imbecilidade”, disse Lula. “Eu não conheço essa moça. Nunca vi essa moça na minha vida. Nunca conversei com essa moça. Ela nunca esteve próxima de mim. É o seguinte, malandro é igual em qualquer lugar do mundo”, disse Lula.
Lula foi questionado sobre as falas de Lulinha dizendo para a lobista pressionar um assessor do governo a liberar a burocracia para que clientes do esquema fechassem um contrato multimilionário com o Ministério da Saúde. “Vai com tudo”, disse Lulinha para Roberta, nas mensagens obtidas pela PF. Sobre isso, Lula se atrapalhou:
“Você acha que se eu pegasse o seu celular e fosse investigar tudo que cê falou, só tinha coisa certa, coisa correta? O que que uma pilantra pode fazer no telefone? Ou o que que um cara qualquer pode fazer no telefone? Eu tô dizendo pra você que o fato de ter pego conversa no telefone não justifica absolutamente nada. Até agora, não existe uma prova de um centavo público”, disse.
Defesa de Carlos Lupi sobre fraudes contra aposentados
Lula também foi questionado sobre o esquema de corrupção que roubou milhões de aposentados no INSS. Perguntado sobre a participação de Carlos Lupi, o ministro da Previdência que foi demitido e teve vários auxiliares e aliados presos por participação no esquema, Lula tentou se esquivar ao ser questionado se havia cobrado Lupi pela roubalheira.
““Não pedi explicação, ele saiu do governo. Ninguém nunca reconhece que tinha corrupção. Precisou a CGU e a Polícia Federal investigar. E é assim que funciona, não tem outro jeito”, disse.
Lembrado de que estava outro dia num palanque confraternizando com Lupi, Lula defendeu o ex-ministro: “Deixa eu lhe falar uma coisa: ele não tá condenado. Ele é um cidadão livre. Você acha que você pode deixar de conversar com uma pessoa que é sua amiga, que cometeu erro?”
Defesa de Jaques Wagner no caso Master
A mesma postura irritada de Lula foi adotada quando o petista falou de Jaques Wagner, o senador que era líder do governo no Senado e deixou o cargo ao ter sido alvo de uma operação da PF sobre corrupção envolvendo suspeitas de pagamento de propina no caso do Banco Master. Lula está até pedindo votos para reeleição do aliado investigado.
“Ele é senador da República, candidato à reeleição. É um homem que tem relação comigo há 45 anos, desde o tempo de sindicalista. Eu não posso colocar em dúvida o comportamento e a relação do Wagner comigo por conta de uma ilação. Não posso”, disse.
“A mim não preocupa a dívida pública”
Outra fala controversa de Lula se deu quando ele analisou a crise econômica instalada no país. O petista foi lembrado de que, no atual governo dele, a dívida pública ultrapassou a casa dos 10 trilhões de reais, atingindo 82% do PIB e resgatou a velha cartilha do Estado indutor do crescimento. Confrontado se não tinha preocupações com os rumos do país na atual conjuntura, Lula foi direto: “A mim não preocupa a dívida pública”.
“Eu herdei esse governo em janeiro de 2023 com déficit fiscal de 2,8%. Você sabe o quanto vai ser o orçamento esse ano? Superavit primário de 0,1%. Portanto, se tem alguém nesse país que tem responsabilidade fiscal, sou eu”, seguiu Lula.
O desmonte dos Correios
Ao falar dos Correios, estatal que o governo petista praticamente quebrou — o prejuízo superou a casa dos 20 bilhões de reais –, Lula mais uma vez não se colocou como parte do problema. Preferiu culpar a própria estatal por passar a dar prejuízo sob mando petista.
“Os Correios são uma empresa muito importante pro Brasil, porque ela está em todos os municípios brasileiros. Obviamente, a crise dos Correios é que ele não se adaptou aos novos tempos. Não só a gente tá com uma nova administração nos Correios, que tá com a responsabilidade de fazer o enxugamento que for necessário”, disse Lula.







