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Mau tempo e erros dos pilotos levaram à queda do avião de Eduardo Campos

Avaliação é do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), responsável por investigar o caso

Um ano e cinco meses depois do acidente, a Aeronáutica divulgou nesta terça-feira, em Brasília, o relatório final com os fatores que contribuíram para a queda do avião Cessna Citation 560 XLS+, de prefixo PR-AFA, a bordo do qual viajavam o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), então candidato à Presidência da República, e mais seis pessoas. Entre as causas que levaram à queda do jatinho estão a desorientação espacial, mau tempo e indisciplina da tripulação no voo, ou seja, a desobediência da carta aeronáutica de aproximação por instrumentos para aterrissagem no Aeródromo de Guarujá (SP). O piloto fez manobras fora da posição recomendada para ter o máximo de segurança e informou dados diferentes dos reais ao operador da rádio, conforme verificado por um radar.

Também pesou a rápida degradação das condições meteorológicas, com névoa e chuva recente, o que prejudicou a tentativa de pouso direta e visual, fora das regras. Nas comunicações com a rádio da Base Aérea, não há registro de que o piloto foi informado das condições de teto e visibilidade no momento antes da aproximação, embora houvesse diferentes informes com previsão de mau tempo para o litoral de Santos (SP) antes da decolagem no Aeroporto de Santos Dumont, no Rio.

A Aeronáutica descartou colisão com aves, drones e outras aeronaves, assim como fogo no jatinho, e concluiu que os motores estavam em funcionamento no momento do impacto com o solo com velocidade de 694,5 km/h. “Em algum momento a tripulação perdeu o controle da aeronave enquanto voava por instrumentos”, explicou o tenente coronel aviador Raul de Souza, responsável pela investigação. “Aeronave descia em situação bem agressiva.”

Não há evidências de que o Cessna teve falhas mecânicas e a documentação da aeronave em dia. Apesar disso, o gravador de voz não funcionava – o que, em tese, impediria a decolagem.

A Aeronáutica não conseguiu determinar como o cansaço dos pilotos e a falta de habilitação específica para o modelo de avião tripulado contribuíram para a queda. A investigação não conseguiu descobrir se eles repousaram o suficiente na véspera do voo. Eles haviam extrapolado horas de voo na semana anterior. Com auxílio de pesquisadores acadêmicos, foi possível verificar em análise de linguagem que o copiloto aparentava fadiga e sonolência na voz. O piloto, por sua vez, já havia reclamado que o parceiro, de perfil passivo, exigia mais trabalho dele, descrito como um comandante com excesso de autoconfiança. “A gente não tem como mensurar, apesar dos traços de sonolência e fadiga na voz, não temos como afirmar que isso tenha influenciado o acidente”, disse o major Carlos Henrique Baldin, que analisou fatores operacionais na comissão de investigadores.

O piloto voava na aeronave desde maio, e o copiloto, desde junho, embora ambos não tivessem a certificação exigida à época e sim uma habilitação mais genérica para a família de aeronaves Cessna 560. O sistema de controle da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) que confere a habilitação e o modelo da aeronave para aprovar o plano de voo não impediu que eles fossem liberados. “Houve o fator humano nesse acidente, mas não posso dizer que foi 100% falha humana”, disse Raul de Souza. “A aeronave fez um desvio sem motivo aparente para a esquerda e estava completamente fora do perfil de segurança da carta. Posso inferir que eles tentaram manter a aproximação de forma visual ou direta.”

O tempo estava ruim na manhã de 13 de agosto de 2014, e os pilotos encurtaram o trajeto e pularam etapas e manobras durante a descida, conforme apuração do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa). Sem conseguir aterrissar, os pilotos optaram por sobrevoaram a pista, conforme testemunhas, e iniciaram um abandono da aproximação. Ao arremeter, eles fizeram uma curva à esquerda com excesso de força G e logo perderam contato com o operador de rádio da Base Aérea de Santos. A aeronave caiu, por provável desorientação espacial, no bairro do Boqueirão. Segundo análise do Cenipa, a tripulação não tinha treinamento para arremeter naquela aeronave, sob pressão e em velocidade acima da recomendada.

O acidente ocorreu durante a campanha eleitoral, enquanto Campos voava do Rio de Janeiro para Santos, no litoral paulista. Além de Campos, morreram no acidente quatro assessores dele – Carlos Percol, Marcelo Lyra, Alexandre Severo e Pedro Valadares Neto – e os dois pilotos, Geraldo Magela Barbosa da Cunha e Marcos Martins (comandante). Doze familiares das vítimas também receberam explicações da Força Aérea Brasileira nesta terça – estavam ausentes apenas parentes do copiloto Geraldo Magela e do assessor especial Pedro Valadares Neto.

Em nota divulgada pelo advogado José Henrique Wanderley, a família do ex-governador disse que “sente necessidade de uma aprofundada análise do relatório do Cenipa” e que “de pronto, lamenta que não tenha sido feito o teste com o simulador de voo”. A família afirmou que aguarda as investigação civil e criminal conduzidas pelo Ministério Público e Polícia Federal. O Cenipa disse que não conseguiu fazer uma simulação virtual do voo com reprodução das condições em Santos (SP) e da aeronave porque a empresa detentora do aparelho nos Estados Unidos já havia atendido a um pedido da Polícia Federal e se negou a permitir outra simulação.

Os quatro fatores que contribuíram para o acidente, segundo o Cenipa

Atitude da tripulação – A realização da aproximação num perfil de aproximação diferente do previsto demonstra uma falta de aderência aos procedimentos, o que possibilitou o início da sequência de eventos que culminaram com uma aproximação perdida, tendo esta sido, possivelmente, influenciada pelo nível de confiança que o piloto possuía em sua capacidade operacional, haja vista suas experiências [tinha usado pistas precárias na África].

Condições meteorológicas adversas – As condições meteorológicas estavam próximas dos mínimos de segurança para a realização da aproximação e abaixo dos mínimos para circular, previstos no procedimento ECHO1 [desrespeitado pelos pilotos]. No entanto, tais condições, por si só não implicavam riscos à operação, caso o perfil do procedimento ECHO1 fosse seguido de acordo com os parâmetros definidos nas publicações aeronáuticas e de acordo com os parâmetros de voo definidos pelo fabricante da aeronave. Ao constatar que os parâmetros citados acima não foram seguidos, observa-se que as condições meteorológicas configuraram-se como um fator complicador para a pilotagem da aeronave o que dificultou a sua estabilização na aproximação final, resultando em uma arremetida.

Indisciplina de voo – Após coordenar sua descida, o PR-AFA realizou uma curva à esquerda e, sem motivo conhecido, desviou-se do perfil da aerovia W6, descendo abaixo do FL060. Em seguida, reportou posições diferentes das reais até o momento em que iniciou uma aproximação final. Esta aproximação diferiu da trajetória da aproximação final definida para o perfil do procedimento ECHO1 e foi realizada com parâmetros de velocidade diferentes dos recomendados pelo fabricante da aeronave. Tais condições reduziram as chances de a aeronave se enquadrar em uma final estabilizada. O fato de a aeronave ter realizado um sobrevoo da pista seguido de uma curva à baixa altura, estando com as condições meteorológicas abaixo das mínimas do procedimento “para circular” [pousar], em vez de realizar o perfil de arremetida previsto no procedimento ECHO1, também implicou riscos para a operação e criou condições favoráveis à desorientação espacial.

Desorientação – No cenário em que se deu a colisão da aeronave contra o solo, estavam presentes diversas condições que eram favoráveis a uma desorientação espacial, como: redução da visibilidade em função das condições meteorológicas, estresse e aumento da carga de trabalho em função da realização da arremetida, manobras com carga acima de 1,15G, falta de treinamento adequado e uma possível perda da consciência situacional. O elevado ângulo de arfagem negativo, a alta velocidade, e a potência desenvolvida pelos motores no momento do impacto também são evidências compatíveis com a desorientação do tipo incapacitante, e apontam para a contribuição desse fator.