Marina defende política ambiental e diz que família Bolsonaro criou ambiente para tarifaço de Trump
Pré-candidata ao Senado por São Paulo afirma que medida atende a interesses políticos e defende reação com base na Lei da Reciprocidade
A ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima e pré-candidata da Rede Sustentabilidade ao Senado por São Paulo, Marina Silva, reagiu nesta quinta-feira, 16, ao novo pacote de tarifas anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificando a medida como uma “agressão comercial injustificável e inaceitável” contra o Brasil.
Em nota, Marina afirmou que a sobretaxa de 25% imposta a produtos brasileiros atende a interesses políticos e eleitorais e acusou integrantes da família Bolsonaro de contribuírem para a deterioração das relações entre os dois países.
“É o Brasil sob ataque econômico movido por interesses políticos, ideológicos e eleitorais. Trata-se de uma ação política que ameaça empregos, renda, empresas e cadeias produtivas dos dois países”, afirmou a pré-candidata.
A manifestação ocorre um dia depois de o governo norte-americano anunciar a ampliação das tarifas sobre mais de 3.000 produtos brasileiros. Segundo estimativa da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham), a medida deverá atingir exportações equivalentes a 11 bilhões de dólares — cerca de 29% de tudo o que o Brasil vendeu aos Estados Unidos em 2025. Considerando o total das exportações brasileiras no ano passado, de 348 bilhões de dólares, o impacto potencial representa aproximadamente 3% da balança comercial do país.
A nova tarifa entra em vigor em 22 de julho. Em nota, a Amcham destacou que a decisão contrasta com o fato de os Estados Unidos registrarem superávit comercial nas trocas com o Brasil. Segundo a entidade, apenas em 2025 o saldo favorável aos americanos chegou a 41,8 bilhões de dólares em bens e serviços.
Ao rebater os argumentos apresentados pela administração Trump, Marina sustentou que os próprios números do comércio bilateral desmontam a tese de que o Brasil impõe barreiras injustas aos produtos americanos. “Nos últimos quinze anos, os EUA acumularam um superávit de 424,5 bilhões de dólares no comércio de bens e serviços com o nosso país. Somente em 2025, 76% dos produtos norte-americanos importados pelo Brasil entraram sem pagar tarifa, e a alíquota média efetivamente aplicada foi de apenas 3,1%”, afirmou.
A ministra também destacou que a iniciativa enfrenta resistência dentro dos próprios Estados Unidos. Segundo ela, 63 das 78 manifestações apresentadas nas audiências públicas promovidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) posicionaram-se contra a adoção das tarifas, evidenciando a preocupação do setor privado dos dois países com os efeitos da medida sobre empresas, trabalhadores e consumidores.
Defesa da política ambiental
Um dos principais alvos da manifestação de Marina foi o uso da política ambiental brasileira como justificativa para a imposição das novas tarifas. A ministra classificou as acusações como “especialmente absurdas” e afirmou que o governo Lula reconstruiu os mecanismos de combate aos crimes ambientais desde o início da atual gestão.
Segundo ela, o país retomou o enfrentamento ao desmatamento ilegal, ao garimpo clandestino e aos crimes ambientais, fortalecendo órgãos de fiscalização e ampliando os planos de prevenção para todos os biomas brasileiros.
Marina lembrou ainda que o desmatamento na Amazônia atingiu o menor patamar da última década e que, no Cerrado, os índices registrados são os mais baixos desde 2021. “Transformar esse esforço reconhecido internacionalmente em justificativa para sanções comerciais é distorcer os fatos e desrespeitar o papel que o Brasil exerce na agenda climática global”, afirmou.
A ministra também contestou outro argumento utilizado pelos Estados Unidos ao mencionar o Pix entre os pontos de preocupação comercial. Para ela, o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos tornou-se uma referência internacional e representa um patrimônio público que ampliou o acesso da população ao sistema financeiro.
Críticas à família Bolsonaro
Embora tenha concentrado boa parte da nota na defesa da política ambiental e da relação comercial entre Brasil e Estados Unidos, Marina reservou as críticas mais duras para adversários políticos.
Sem citar nominalmente Jair Bolsonaro, a ministra afirmou que integrantes da família do ex-presidente contribuíram para criar um ambiente favorável às medidas adotadas por Donald Trump e associou essa atuação aos interesses eleitorais da direita brasileira.
“É especialmente grave que integrantes da família Bolsonaro, que tem o apoio do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tenham colaborado ativamente para criar um ambiente favorável a medidas contra o próprio Brasil. Em nome de seus interesses eleitorais e familiares, trabalharam para enfraquecer o país, pressionar nossas instituições e causar prejuízos à população brasileira.”
A declaração amplia o tom adotado pelo Palácio do Planalto desde o anúncio do tarifaço e insere o episódio diretamente no embate político que antecede as eleições de 2026. Pré-candidata ao Senado por São Paulo, Marina também buscou reforçar a associação entre a política ambiental do governo Lula e a defesa da soberania nacional.
Ao concluir a nota, a ministra defendeu que o Brasil responda às tarifas utilizando os instrumentos previstos no direito internacional, entre eles a Lei da Reciprocidade Econômica e os mecanismos da Organização Mundial do Comércio (OMC).
“O Brasil precisa responder com firmeza, equilíbrio e dentro do direito internacional, utilizando a Lei de Reciprocidade, os instrumentos da Organização Mundial do Comércio e todas as medidas necessárias para proteger os setores atingidos, os empregos e a capacidade produtiva nacional. Soberania não se negocia sob ameaça.”
Marina também recorreu a uma frase divulgada anteriormente pela Presidência da República para reforçar a crítica aos aliados de Bolsonaro. “Não se pode amar o Brasil apenas quando vencemos eleições. Quem pede sanções contra seu próprio país, comemora dificuldades impostas aos brasileiros e se coloca a serviço de interesses estrangeiros não é patriota”, concluiu.







