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Lula se antecipa e diz que Gabrielli fica na Petrobras

Presidente vai a lançamento de pedra fundamental de refinaria no Ceará e faz anúncio antes de presidente eleita

Por Da Redação 29 dez 2010, 13h11

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ignorou o fato de que está a apenas dois dias do final do seu mandato e a existência da presidente eleita Dilma Rousseff e anunciou que José Sérgio Gabrielli continuará na presidência da Petrobras. “Ontem, a querida companheira Dilma anunciou a continuidade de Gabrielli”, disse Lula, durante a cerimônia de lançamento da pedra fundamental da Refinaria Premium II, que será instalada no Ceará.

Dilma conversou com Gabrielli no começo da semana, mas ainda não havia feito o anúncio oficial. Após as declarações de Lula, a assessoria da presidente eleita confirmou a informação.

“Quero cumprimentar o companheiro Gabrielli por Dilma ter anunciado que ele fica na presidência da Petrobras”, disse. Ao final da cerimônia, brincou com os jornalistas dizendo que as perguntas deveriam ser dirigidas ao presidente da Petrobras e não a ele, que “está de saída”: “A grande entrevista hoje é com o Gabrielli. Ele é o cara.”

Dentro do PT, a expectativa, no entanto, é de que Gabrielli deixe o cargo antes do fim do mandato de Dilma para assumir uma secretaria de peso no governo de Jaques Wagner na Bahia. O presidente da Petrobras é apontado como candidato do PT ao governo da Bahia em 2014.

Lula aproveitou para destacar a importância da refinaria de Caucaia. Ele ressaltou que “política não é feita só de realizações, mas também de gestos”. “Eu precisava do gesto de voltar ao Ceará para assumir o compromisso de que o Ceará terá finalmente a tão sonhada refinaria que tanta gente prometeu e não conseguiu fazer”, disse. O presidente disse que “não foram poucos os políticos cearenses que prometeram a refinaria” e acrescentou: “Eu nunca prometi”.

O presidente sugeriu que o governador reeleito do Ceará Cid Gomes e o presidente da Petrobras definam um calendário para a Refinaria Premium II e apresentem o cronograma a Dilma, ao Ministério do Meio Ambiente e ao Instituto Nacional do Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) para que haja acompanhamento da obra. “Às vezes, a gente pensa que está tudo bem (com a obra) e (o processo) para na mão de um companheiro do Ibama, ou do Ministério Público. A gente pensa que vai inaugurar e nem começou”, disse. Ele afirmou também que, possivelmente, o Nordeste elegeu, em 2010, “a melhor safra de governadores” que a região já teve. “Todos são jovens, preparados. O povo não verá mais sua imagem mostrada pela miséria, pelo analfabetismo. Agradeço, de coração, a reeleição do Cid, a eleição da companheira Dilma e os senadores que vocês elegeram.”

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‘Feito inédito’ – Graças a um feito inédito, Gabrielli já faz parte da história do Brasil. Ele fez com que uma empresa de enorme potencial – com reservas estimadas entre 40 e 80 bilhões de barris só na camada pré-sal e que protagonizou a maior oferta de ações da história, num total de 120 bilhões de reais – virasse alvo da desconfiança do mercado.

Esta realidade se confirmou após a forte queda das ações da empresa durante o processo de capitalização. Para se ter uma idéia, os papeis da companhia chegam ao final deste ano com baixa de 25%. No mesmo período, o Ibovespa – índice que mede o desempenho das ações mais negociadas na Bolsa – apresenta desempenho positivo de 0,23%.

A desconfiança dos investidores em relação à Petrobras fica ainda mais evidente quando se compara o desempenho das suas ações com as da petrolífera britânica BP, responsável pelo pior vazamento de petróleo já visto no mundo, em 20 de abril. Em 12 meses, elas perderam 26,26%, quase o mesmo que a Petrobras em um período de um ano.

O que essas informações demonstram é que as desconfianças dos investidores devem-se às incertezas técnicas inerentes à exploração do pré-sal e aos desafios financeiros de uma empresa que quer por em prática um plano de investimentos bilionário. O maior temor, no entanto, é com o aumento da ingerência do governo numa empresa de capital misto – ou seja, que não tem suas ações apenas nas mãos do estado (veja aqui a análise completa).

Um presidente fora de lugar – Gabrielli, antes de assumir o cargo de diretor financeiro e de Relações com Investidores da Petrobras em 2003, era professor titular licenciado da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Seu foco de estudo eram os incentivos fiscais e o desenvolvimento regional – nada a ver com a indústria de petróleo. Só em 2005, foi escolhido pelo presidente Lula para presidir a empresa. O fato de o governo ter entregue um posto tão estratégico a um profissional ‘de fora’ do setor já passou a ser visto pelo mercado como sinal de perda de qualidade na gestão da empresa.

O alinhamento ideológico e político ficou ainda mais escancarado em outubro deste ano, quando Gabrielli atacou o governo que antecedeu o de Lula lançando mão de argumentos falsos. Ao contrário do que apregoou Gabrielli, os analistas de mercado são unânimes em afirmar que o salto expressivo na produção da Petrobras coincidiu, no governo FHC, com a aprovação da Lei do Petróleo de 1997 – um divisor de águas que pôs fim ao monopólio e instituiu a concorrência no setor de exploração. Mesmo os estudos sobre a camada pré-sal, afirmam os especialistas, tiveram enorme contribuição não só de Fernando Henrique Cardoso, mas também do ex-presidente Itamar Franco. Vale destacar que o crescimento da produção de petróleo entre 1995 e 2002 foi de 109,5%. Já entre 2003 e 2010, o crescimento foi de 30%.


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