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Luiz Henrique Mandetta, sobre 500 mil mortes por Covid: “Estamos à deriva”

Crítico contumaz do presidente Jair Bolsonaro, o ex-ministro repudiou as manifestações que se espalharam por capitais do país neste sábado

Por Felipe Mendes Atualizado em 20 jun 2021, 02h29 - Publicado em 19 jun 2021, 23h27

No dia em que milhares de brasileiros foram às ruas de diversas capitais para protestar contra o presidente Jair Bolsonaro, o país atingiu a triste marca de 500 mil mortes por Covid-19. Em entrevista a VEJA, o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM) lamentou o descontrole da pandemia no Brasil e repudiou as cenas de aglomerações nas manifestações. “As pessoas podem até falar que têm o direito e que precisam se manifestar sobre o que está acontecendo, mas há uma lógica política por trás. E nós estamos tendo mais uma demonstração de que essa lógica política supera a lógica do bom senso”, diz ele.

O ex-ministro também demonstrou preocupação com o avanço nos números de casos e óbitos por Covid-19 no país. Neste sábado 19, foram registradas mais 2.301 novas vítimas fatais pela enfermidade. Segundo ele, há um perigo de que a variante Delta, que tem maior transmissibilidade, ganhe terreno no país, ocasionando um novo colapso no sistema de saúde. “A partir de agora, a gente deve ver o vírus num jogo de gato e rato. O vírus está cada vez mais se modificando e achando estruturas mais competentes para contaminar. Enquanto isso, o ritmo de vacinação no Brasil ainda é lento. Não estou vendo um planejamento. A verdade é que nós estamos em um voo no escuro”.

Para o político, o Brasil já deveria estar projetando a compra de vacinas para a aplicação de doses de reforço em 2022. Como ainda não há estudos que dimensionem o estágio de duração dos imunizantes, o país corre o risco de sair novamente atrás na disputa por doses. “A gente não sabe por quanto tempo a vacina retém a capacidade de anticorpos. O país deveria estar antenado em fóruns internacionais para tentar se antecipar e acelerar soluções contra o vírus, aumentando a capacidade de produção das fábricas do Butantan e da Fiocruz”, esclarece. “A gente tem que prestar muita atenção porque se os EUA, a Inglaterra, a Alemanha e a França, por acaso, anunciarem que vão fazer uma dose de reforço, vai ter outra corrida por vacina. E novamente sairemos atrasados.”

Quando questionado sobre o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, Mandetta disse que o desconforto, diante das atitudes de Bolsonaro nas últimas semanas, é evidente, mas não evita críticas. “As atitudes do Bolsonaro, de promover motociatas, deixam a população em dúvida sobre qual é a direção certa. Não adianta o ministro estar desconfortável e fingir que nada está acontecendo. Isso é negociar seus valores, uma coisa que eu não admitia durante a minha gestão”, afirma ele. “A verdade é que estamos à deriva. O Ministério está perdido, sem equipe técnica. O pessoal que é bom, que reflete na área da saúde, não quer ter seu nome associado a esse governo, vide as duas recusas públicas, da Ludhmila Hajjar e da Luana Araújo. O presidente não quer saber de vacina, ele quer mesmo é andar de moto, nadar, aglomerar. É uma liderança tóxica.”

No âmbito político, ele demonstra estar satisfeito com sua porcentagem nas pesquisas para as eleições presidenciais de 2022. Mandetta se diz preparado para, ao menos, colaborar com uma candidatura de terceira via e diz que o quadro de polarização entre Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem de acabar. “Eu acho incrível que, com esse quadro de polarização, eu, sem microfone, esteja aparecendo com 4% ou 5%. É sinal de que existe um espaço muito grande para construir alguma coisa na linha moderada, no sentido do bom senso”, afirma. “Esses dois mundos [Bolsonaro e Lula] estão completamente radicais, se alimentando um do outro. Se o Lula ganhar a eleição, o conflito vai continuar. Não vamos experimentar uma paz social. Há um percentual enorme da sociedade que quer uma terceira alternativa e eu posso dizer que terão uma alternativa. Se vai ser meu nome ou algum outro, isso ainda não posso dizer.”

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