Lei Rouanet já aprovou R$ 336 mil para amiga de Lulinha unir ‘poesia, gastronomia e fotografia’
Verba autorizada em 2015, no governo Dilma, nunca foi usada porque Roberta Luchsinger e editora não conseguiram captar recursos junto a patrocinadores
Entre 2013 e 2015, Roberta Luchsinger, atual alvo de investigação da Polícia Federal por tráfico de influência e corrupção, em razão de tentativas de obter contrato para empresas privadas no governo Lula (com o apoio do filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha) aventurou-se na gastronomia e deu aulas particulares sobre o tema em São Paulo depois de perder 35 quilos “sem cirurgia nem remédio”. Há exatos onze anos, ela anunciava também que preparava o lançamento de um livro que reuniria “poesia, gastronomia e fotografia”.
Para captar verba para a publicação, segundo dados do governo federal, a editora bateu à porta do Ministério da Cultura e apresentou a proposta via Lei Rouanet. “O projeto Gastronomia em Verso e Prosa (nome provisório) será um livro de arte que tem a missão de unir poesia, gastronomia e fotografia, mostrando que todas essas manifestações artísticas podem se entrelaçar em uma única obra. Por meio de receitas saudáveis escritas de maneira poética e de um ensaio fotográfico primoroso, a obra idealizada por Roberta Luchsinger revelará ao leitor que o universo gastronômico está intrinsecamente ligado à arte”, dizia o resumo do projeto conforme publicação no Diário Oficial da União (veja abaixo).
Consta ainda nos documentos oficiais que o projeto foi aprovado pela gestão cultural do então governo de Dilma Rousseff (PT) com valor de 336. 085 reais. No entanto, a verba nunca foi movimentada por “excesso de prazo sem captação”, ou seja, a proponente não conseguiu recolher o valor mínimo junto a patrocinadores dentro do prazo estipulado (novembro e dezembro de 2015). Segundo dados atuais, o processo de captação via Rouanet foi arquivado.
Roberta Luchsinger é uma das pessoas mais conhecidas da atualidade no Brasil. Segundo investigação da Polícia Federal, a qual VEJA teve acesso, não há dúvida de que Roberta mantinha uma sociedade oculta com Lulinha e Fernando Bittar para intermediar negócios privados junto ao governo. “Os elementos probatórios obtidos no curso da investigação revelam a existência de um núcleo de atuação permanente e coordenada composto por Roberta Moreira Luchsinger, Fábio Luís Lula da Silva e Fernando Bittar, voltado à interlocução de interesses privados perante agentes e órgãos da Administração Pública Federal”, concluíram os delegados.
Nas mensagens, a lobista Roberta jactava-se de uma suposta proximidade com o presidente Lula. Segundo ela, o petista já teria, inclusive, lhe oferecido um cargo no governo. Roberta conta que não aceitou. Em conversa com um empresário em 2024, explicou que preferiu se dedicar à “sociedade” com o filho do presidente. “Fui das poucas pessoas que o Lula chamou e perguntou: escolhe onde você quer ficar. (… ) Eu disse: onde eu estou. Na minha sociedade com Fábio e Fernando. ” E explicou o porquê: “Não estou em cargo nenhum e ando onde quero”. Em sabatina na TV Globo, na última semana, o petista negou que tenha oferecido cargo para Roberta, a quem chamou de “pilantra”.
Ainda de acordo com a PF, como VEJA também mostrou, Lulinha já estava se mexendo nos bastidores havia algum tempo. O grupo precisava de acesso ao Ministério da Saúde. Coube a Marcola marcar uma reunião entre a lobista e Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo da pasta. Essa reunião só aconteceu depois da interferência de Lulinha. “Pousei. Vou lá no Berge”, disse Roberta a Fábio em 6 de março de 2024. “Que ótimo. Vai com tudo. Manda beijo pro Berge e fala que não fui porque você não chamou”, ironiza o primogênito. Roberta não esconde o objetivo: “Precisamos 100% do Berge”.
Após o encontro, Marcola recebeu a minuta de um documento que liberava a produção de medicamentos à base de canabidiol. Nesse mesmo período, Roberta passou a pagar contas pessoais do auxiliar do presidente. Entre fevereiro e novembro de 2024, foram 217 098 reais em faturas de cartão de crédito, boletos de apólice de seguro, financiamento do carro, um par de brincos e um pingente de diamantes com que ele presenteou a esposa. Homem de confiança de Lula, Marcola possuía acesso direto ao gabinete de Lula, testemunhava, inclusive, conversas fora da agenda oficial e até atendia o celular do presidente. Ele acabou sendo exonerado em julho passado, por ordem do presidente. Em sua defesa, garante que as transações foram parte de um empréstimo, que ele quitou depois, e que sua demissão nada teve a ver com isso. A lobista Roberta confirma a história do empréstimo pessoal. Até onde se sabe, Marcola não é investigado no caso.







