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Jornalistas brasileiros detidos no Egito retornam ao país

Em SP, eles relataram momentos de tensão vividos nas mãos da polícia egípcia

Por Adriana Caitano 5 fev 2011, 11h45

“Senti que ia levar um tiro nas costas naquele momento e rezei na hora para isso não acontecer, minha vida toda passou pela minha cabeça”

Corban Costa, repórter, relembrando os momentos de tensão no Cairo

Os dois jornalistas brasileiros da estatal Empresa Brasil de Comunicação (EBC) que foram detidos pela polícia do Egito na última quarta-feira chegaram ao país neste sábado. O repórter Corban Costa e o cinegrafista Gilvam Rocha desembarcaram pela manhã no Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo. Ambos foram enviados pela emissora ao país árabe para cobrir as manifestações populares contra o governo do ditador Hosni Mubarak. Ao chegar em solo nacional, os jornalistas relataram os detalhes das quase 48 horas de tensão que viveram nas mãos das autoridades egípcias.

Bastante emocionados, eles contaram que foram abordados pela polícia ainda no aeroporto do Cairo, capital do Egito. Suas malas foram revistadas e todo o equipamento de gravação foi apreendido. “Com falas incisivas, eles lacraram nosso material e entregaram um recibo em árabe dizendo que nos devolveriam tudo na volta”, afirmou Rocha.

Os jornalistas perguntaram aos policiais o motivo da apreensão dos equipamentos. Como resposta, um dos agentes fez gestos que imitavam facadas no pescoço e na barriga e disse: “Para que não mostrem isso”. Os brasileiros entenderam que o objetivo da ação era evitar notícias a respeito da morte dos manifestantes. Assustados, eles saíram do aeroporto em um táxi rumo ao centro da cidade, na esperança de registrarem o caos vivido pelos egípcios com uma câmera fotográfica e um gravador que não haviam sido apreendidos.

O repórter e o cinegrafista, no entanto, nem chegaram até o epicentro das manifestações. Poucos metros depois do aeroporto, encontraram uma barreira em que militares fortemente armados vistoriavam veículos e passageiros ao lado de tanques de guerra. A dupla passou ao todo por cinco barreiras, com distância média de 200 metros entre cada uma. Em uma delas, jovens com cerca de 20 anos empunhavam metralhadoras.

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Medo – Na sexta barreira, um policial pediu o passaporte dos jornalistas e, ao descobrir a profissão de ambos, vendou-os e os colocou de frente a um muro. “Senti que ia levar um tiro nas costas naquele momento e rezei na hora para isso não acontecer, minha vida toda passou pela minha cabeça”, lembra Costa. “Ficava pensando se eu tinha me despedido das minhas filhas direito”.

Ao lado de um turista alemão, os jornalistas foram levados para uma delegacia, onde foram interrogados sobre o objetivo da viagem. Ao contarem a verdade, eles receberam um pacote de biscoitos cada, assinaram um documento em árabe e foram levados para celas individuais. Na sala, segundo o relato dos brasileiros, não havia janelas. “As paredes eram acolchoadas, tinha uma mesa com duas cadeiras, um espelho daqueles usados para identificação de criminosos e duas câmeras no teto”, detalha o repórter.

Costa e Rocha estimam terem ficado por volta de 18 horas detidos, sem contato com a embaixada brasileira nem explicações sobre o motivo da prisão. Saíram da delegacia com outras oito pessoas em uma van em que eles eram os únicos sem vendas nos olhos. Cerca de 15 minutos depois, foram soltos em uma rua e orientados a seguir rumo ao aeroporto. “Pegamos o primeiro táxi que vimos e passamos ainda por várias barreiras”, destaca Costa.

Tensão – Mesmo após entrarem em contato com familiares, representantes da EBC e da embaixada brasileira no Egito, os dois jornalistas ainda temiam novos ataques. No aeroporto, na quinta-feira, encontraram brasileiros que haviam sido espancados ao serem presos. “Enquanto esperávamos nosso voo, por mais de 15 horas, ficávamos nos escondendo dos policiais armados que andavam por todos os lados. Nem conseguimos dormir”, lembram.

A aeronave em que os brasileiros deixaram o país árabe decolou rumo a Paris na manhã de sexta-feira. “Tivemos duas emoções: a primeira foi quando saímos do solo egípcio e vimos o aeroporto ficando para trás e a outra quando o avião pousou no Brasil e vimos que chegamos em casa”, afirmou Costa. “É claro que é uma frustração ter ido lá para noticiar os fatos e ter feito somente o trajeto aeroporto-delegacia-aeroporto”.

Corban acrescenta que os jornalistas europeus têm sido os maiores alvos da repressão do governo do Egito. Segundo ele, os jornalistas franceses que estavam na mesma van em que eles saíram da delegacia foram torturados e ficaram sem nenhuma bagagem. “Para mim, isso é um ato desesperado do presidente, que não tem outra saída a não ser largar o governo”, comenta. Os brasileiros seguiram para Brasília, onde moram, no voo de 12h30 deste sábado e devem chegar à capital federal às 14 horas. Os equipamentos da EBC apreendidos no Cairo ainda não foram devolvidos.

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