🔥 9.9: Assine Revista Impressa + Digital Premium por R$ 32,90/mês. Preço especial só hoje.

João Marcello Bôscoli fala do desafio de remixar clássicos da mãe, Elis Regina

Coluna GENTE conversou com o produtor musical

Por Flávio Monteiro 14 ago 2026, 07h00 | Atualizado em 14 ago 2026, 11h42
João Marcello Bôscoli fala do desafio de remixar clássicos da mãe, Elis Regina Priorizar nos meus resultados Google

Trabalhando em um projeto de décadas para remasterizar as obras de sua mãe, Elis Regina, o produtor musical João Marcello Bôscoli, 56, lamenta que o lançamento mais recente, Elis, de 1973, tenha ganhado mais audiência devido a polêmicas do que pela qualidade do material. Em entrevista à coluna GENTE, Bôscoli se defende das críticas feitas pelo padrasto, César Camargo Mariano, que reclamou de uma suposta alteração no disco e apontou não ficar feliz com o fato de o interesse público aumentar devido ao episódio.

(Agora a coluna GENTE também está no Instagram. Siga o perfil @veja.gente)

Por que revisitar o catálogo da Elis? Qual é o objetivo do processo? Começamos a fazer o trabalho de restaurar e remasterizar as obras em 2002, em parceria com a Universal, que é sócia majoritária das tapes. Esse é um processo feito com artistas do mundo inteiro para manter a obra em uma vigência constante por meio da movimentação do catálogo. O resultado é uma presença forte da Elis nos anos 2000, anos 10, anos 20. É uma prática comum. Se você pegar algum artista que goste e olhar nos discos presentes nas plataformas de streaming, verá que existem versões remasterizadas das obras. É importante e necessário que, de tempos em tempos, haja essa adaptação aos padrões técnicos contemporâneos.

O lançamento mais recente, Elis de 1973, gerou desentendimento público com o seu padrasto, César Camargo Mariano. Ele reclamou da nova mixagem, falou que alterava características artísticas do original. Como você responde a essa crítica? Respeito a opinião dele, mas ele não é da família, não é detentor de nenhum direito que permita que ele atue sobre essa obra. A exposição pública foi irresponsável. Ele poderia discordar, fazer algum tipo de reclamação, mas nos bastidores. Isso passa a sensação de que a família age dessa maneira, e não é verdade. Você nunca viu João, Pedro (Mariano) e Maria (Rita), os herdeiros da Elis, atacando iniciativa que alguém fez relacionada à obra dela. E tem várias coisas que não gosto, mas é importante que sejam feitas. Se você olha a ficha técnica, ele não é diretor artístico do projeto, não é produtor, não é artista. Ele é um músico, e tem vários outros músicos. É o arranjador, e tem outros arranjadores.

Seus irmãos, Maria Rita e Pedro Mariano, compartilham dos direitos sobre a obra da Elis. Qual foi a posição deles em relação ao projeto? A gente conversou um pouco. É um constrangimento, né? Somos adultos, e todos os três filhos têm que autorizar qualquer iniciativa que se faça com Elis. A Universal só faz um lançamento quando os filhos, herdeiros legais da Elis, aprovam. Não tem discussão. E a gente já viu, por meio da observação, que, se você não tiver a iniciativa de trabalhar com o catálogo, fazer lançamentos etc., os artistas vão sendo esquecidos — falando dos que já partiram.

Continua após a publicidade

E como está sendo a reação do público? Tem um lado chato, porque muito pouco se falou do álbum em si. Falou-se muito da reação do César, pouco sobre o álbum. E essa confusão gerou ondas de interesse midiático no álbum. Desde que ele foi veiculado no mundo digital, ele nunca foi tão ouvido quanto foi a partir do lançamento desse ano. A audiência explodiu, porque todo mundo queria ouvir o que era polêmica. Mas eu não fico feliz com isso.

E o que as pessoas falavam sobre o álbum quando o ouviam? As pessoas falavam que achavam melhor. Mais agudo, mais alto, mais grave — isso falando de pessoas que não usam termos técnicos, que não trabalham com música. Falo de filhas de amigos meus que gostam de Oliva Deem, da Rosalia, e que montaram uma playlist que continha faixas da Elis desses álbuns remasterizados e que estavam no mesmo volume, no mesmo padrão de áudio. Eu lamento, mas, fora o César, nunca tivemos e provavelmente nunca teremos alguém que ataque publicamente alguma iniciativa. Nunca vi ninguém reclamando de ampliar o estéreo de um álbum, trazer mais volume, tirar o blur. Trazer para os padrões sonoros de hoje. Eu nunca vi alguém parar a sua vida para fazer esse tipo de comentário sobre uma remasterização. Até porque a versão original está lá. Isso é o que eu acho mais constrangedor. A versão original está lá e você pode ouvi-la. Se nós tivéssemos tirado a original, até poderia ser objeto de reclamação. Mas a original está lá. É constrangedor demais, eu e o Pedro ficamos constrangidos, olhando um para o outro. Fazer o quê? É a vida.

Continua após a publicidade

Qual seria a reação da Elis ao ver o trabalho de remasterização das obras dela? Ficaria contente? Eu acho que sim. Elis não era uma pessoa satisfeita com os sons de seus álbuns. Na hora da audição final, que ocorria no estúdio, ela sempre falava: “Deixa eu ouvir uma última vez antes de estragar tudo”. Naquela época você ia para a sala de corte, que tem lá na ficha técnica dos álbuns, onde frequências graves, sobretudo, eram cortadas para aquele som caber em um vinil, que não era lá essas coisas. Eu a ouvia reclamando disso algumas vezes. E ela não ouvia os discos em casa. Elis Regina não ouvia os próprios álbuns em casa e, em sua maioria, não os tinha. Gostaria de ver isso com o catálogo inteiro da Elizeth Cardoso, Doris Monteiro, Nara Leão. É lindo, e soa muito melhor. Se não fosse bom, Michael Jackson, Beatles, Rolling Stones, por que toda banda grande faz? Está todo mundo errado? Não, né. Todo mundo remasteriza, remixa.

O próximo lançamento restaura uma apresentação em programa de TV, certo? Isso. É uma apresentação de 1976 para a TV Bandeirantes, dirigida pelo Roberto de Oliveira, o mesmo que dirigiu Elis e Tom. Em 1982, após a morte da Elis, o irmão dela foi até a Som Livre e deu a ideia de remixar e lançar um álbum. O disco foi gravado, lançado e chegou a ser trilha sonora da novela Corpo a Corpo, do Gilberto Braga. Trinta e cinco anos depois, o master voltou para a família, e é o único álbum que temos 100% dos direitos. Em 2024, lançamos a primeira faixa, Para Lennon e McCartney. Restauramos a voz dela, retiramos todos os vazamentos de instrumentos, ruídos, e substituímos por instrumentos datados de 1976 para trás, visando ter as características sonoras com que a Elis Regina sempre trabalhou. A recepção foi boa, e decidimos continuar o trabalho nas outras nove faixas. O álbum completo será lançado em novembro.

Continua após a publicidade

E qual será o próximo da discografia oficial a ser remixado? Será uma obra de 1970 ou de 71. Entre 2003 e 2026, foram cinco álbuns — além desse que estamos fazendo, que é um caso à parte. Dá pra ver que é tudo feito com critério, sem muita pressa. Estou tentando sempre, como filho e como apaixonado por tudo, colaborar enquanto ainda estiver aqui. A gente vai tentando evitar que haja espaço grande entre o lançamento de coisas relacionadas a Elis. Sempre tentamos manter a agenda viva e o meu objetivo é conseguir, durante a minha vida profissional, remasterizar e remixar todos os álbuns dela. Até porque, no momento em que eu não puder mais fazer no futuro, alguém fará.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner promocional da Editora Abril. À esquerda, um selo laranja com CHEGOU O 9.9 e 80% OFF, e um botão APROVEITE A OFERTA AGORA. Ao centro, texto Na Editora Abril os números se alinharam para você ler as melhores revistas do Brasil por um preço simbólico e capas de revistas como Veja, Quatro Rodas, Saúde e Claudia. À direita, uma mulher sorridente com cabelo castanho, vestindo camisa bege, segura um cartão dourado. No canto superior direito, um ícone de árvore e uma faixa laranja diagonal com ASSINATURA LEIA 15 MARCAS
ECONOMIZE ATÉ 76% OFF

Digital Básico

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 5,99/mês
OFERTA 9.9

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 59,99/mês
A partir de R$ 32,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).