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Janot, sobre desvios da Lava-Jato: ‘Nunca vi tanto dinheiro’

Para procurador-geral da República, esquema desbaratado pela PF se assemelha, em volume de dinheiro, ao escândalo do Banestado

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou nesta sexta-feira que o esquema desbaratado pela operação Lava-Jato da Polícia Federal se assemelha, em volume de dinheiro movimentado, ao escândalo do Banestado. “A operação Lava-Jato tem dimensão bastante grande. Eu nunca vi tanto dinheiro na minha vida e vou morrer sem ver”, disse. O esquema do Banestado movimentou nos anos 90 cerca de 30 bilhões de dólares por meio do uso fraudulento das extintas contas CC-5. Quando deflagrou a Lava Jato, em março, a Polícia Federal estimava que o esquema de lavagem de dinheiro houvesse desviado ao menos 10 bilhões de reais.

De acordo com o chefe do Ministério Público, que acompanha as investigações do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), os recursos utilizados pela quadrilha liderada pelo doleiro Alberto Youssef serviam não apenas para remessas ao exterior por meio de lavagem de dinheiro, mas também eram utilizados em esquemas de corrupção e financiamento de campanhas políticas. “Trata-se de um esquema enorme de lavagem de dinheiro – e esse dinheiro era utilizado em mais de uma forma: tem campanha, corrupção e vários destinos e destinatários dessas importâncias”, relatou o procurador-geral.

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De acordo com Janot, que defendeu no STF a legalidade das investigações conduzidas pela Justiça Federal do Paraná, as apurações sobre o caso vão continuar durante o período eleitoral e, se as investigações forem concluídas antes de outubro, é possível que nomes de políticos venham à tona às vésperas do pleito. “Esses fatos aconteceram todos muito antes do processo eleitoral e foram revelados muito antes também. O que não pode e, afirmo, não faremos é o uso político de uma investigação. Não vou revelar ou deixar de revelar nomes para que se possa deliberadamente interferir nas eleições. O processo eleitoral não dá o tempo da investigação”, disse.

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Em março, a Polícia Federal desarticulou quatro grandes quadrilhas de lavagem de dinheiro e prendeu os doleiros Alberto Youssef, Carlos Habib Chater e Enivaldo Quadrado – este último condenado no julgamento do mensalão. Youssef, preso pelos policiais em São Luís (MA), é um velho conhecido da Justiça e foi um dos personagens da CPI do Banestado, em 2003, quando afirmou em depoimento que pagava propina para os diretores do banco do estado do Paraná para ter facilidades na remessa de dinheiro para o exterior por meio das contas CC-5. Ele havia conseguido o benefício da delação premiada e, por isso, estava em liberdade.

As investigações da Lava-Jato revelaram que empresas-fantasma controladas pelo doleiro Alberto Yousseff, apontado como cabeça do esquema, recebiam em suas contas inexplicáveis depósitos milionários de algumas das mais importantes empreiteiras do país. O dinheiro que entrava de um lado, por meio de contratos simulados de consultoria, saía por outro na forma de repasses a políticos e partidos – os mesmos políticos e partidos que indicavam os apadrinhados que contratavam as empreiteiras pagadoras. Indicado pelo PP à diretoria de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa tinha o poder de decidir quando, como e de quem comprar suprimentos, máquinas e serviços. Youssef, por sua vez, decidia quem poderia vender. Para isso, as empresas candidatas precisavam pagar um pedágio.

O ex-diretor da Petrobras foi preso em 20 de março, a partir de acusações de ocultação de provas no âmbito da operação Lava-Jato. Há cerca de um mês, o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, havia determinado sua libertação. Em liminar, Zavascki suspendeu também todos os inquéritos relacionados à operação policial e às ações penais abertas na Justiça Federal do Paraná contra os investigados, entre eles o doleiro Youssef. Um dia depois, no entanto, Zavascki recuou de sua decisão e manteve as prisões de Alberto Youssef e de outros investigados. Apenas Paulo Roberto Costa permaneceu em liberdade. Ele voltou à cadeia, porém, em 11 de junho, sob a alegação de risco de fuga para o exterior.