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Incêndio em favela no centro mata um e fere quatro

Corpo carbonizado foi encontrado durante rescaldo. Um bombeiro e três crianças estão entre os feridos. Cerca de mil moradores perderam tudo

Por Bruno Abbud 22 dez 2011, 13h20

“Como será o Natal? Será triste, muito triste”, diz a gari Cintia Regina, de 36 anos, com seu uniforme alaranjado . “Só me sobrou a roupa do corpo. Minhas coisas, meu gato, meu cachorro, tudo queimou”.

Os bombeiros encontraram um corpo carbonizado por volta das 14 horas desta quinta-feira, durante a operação de rescaldo na Favela do Moinho, na região de Campos Elísios, centro de São Paulo. O corpo pode ser de um dos mil moradores afetados pelo incêndio que destruiu a favela na manhã de hoje, informou Marcelo Carnevalle, capitão do Corpo de Bombeiros. Quatro pessoas ─ três crianças e um bombeiro ─ ficaram feridas. Duas delas foram intoxicados pela fumaça e encaminhadas para o pronto-socorro da Santa Casa.

Uma terceira vítima teve fratura de punho e queimaduras e foi encaminhada ao pronto-socorro do Tatuapé. O bombeiro que se feriu foi atingido na cabeça por um aparelho de TV, quando ajudava os moradores com a remoção dos móveis. Ele foi levado para o Hospital das Clínicas. Onze pessoas foram resgatadas pelo helicóptero Águia e acomodadas em um pátio de uma escola perto do local. Um depósito de gás num prédio próximo teve de de ser esvaziado e funcionários de empresas vizinhas foram dispensados do trabalho.

Perto das 10 horas, quando as labaredas avançavam sobre os barracos, Antonio Porto, um catador de materiais recicláveis de 45 anos, juntou seus pertences mais valiosos em uma mochila e correu pela favela para avisar os vizinhos. “O calor estava muito forte”, conta o catador. “Eu saí arrombando as portas dos barracos para mandar todo mundo correr”. Outros catadores começaram a usar as carroças para levar botijões de gás para longe do fogo. “Teve amigo meu que carregou mais de cem botijões para longe”, afirma. “Mesmo assim, eles não paravam de explodir”.

A faxineira Felícia de Sá, de 43 anos, é dona de um barraco que se manteve equilibrado no limite do incêndio. “Meu barraco foi o útlimo que sobrou”, diz. Seu filho, Mateus Izidio, de 10 anos, ajudava a mãe a encher pequenos baldes de água para tentar apagar as chamas que insistiam em permanecer acesas nos arredores. Mateus caminha pelos escombros, lembra do coleguinha que avistou pouco antes, sendo levado numa maca, queimado, para um hospital, e dispara: “Olha! A geladeira da minha amiga”.

Depois desta quinta-feira, o que sobrou da Favela do Moinho foi um mar de cinzas. Os escombros incluíam pedaços de geladeiras, pias, roupas, pratos, bíblias ─ com a proximidade do Natal, era fácil encontrar perus inteiros sob os restos de barracos. Festa de Natal, aliás, será coisa rara para aqueles moradores. “Como será o Natal? Será triste, muito triste”, diz a gari Cintia Regina, de 36 anos, com seu uniforme alaranjado . “Só me sobrou a roupa do corpo. Minhas coisas, meu gato, meu cachorro, tudo queimou”.

Cintia Regina, 36 anos, gari: “Só sobrou a roupa do corpo”. VEJA

Atravessada por um trilho e nascida em torno de uma antiga fábrica, a Favela do Moinho amanheceu perplexa. Os moradores comentavam que, logo cedo, uma mulher com raiva do marido decidira tacar fogo na casa e, assim, comprometer as vidas de todos os moradores. Depois que as labaredas foram vencidas pelas mangueiras, a líder comunitária Alessandra Moja, de 27 anos e grávida de oito meses, tentava arranjar um destino para cerca de 60 crianças abrigadas na única creche do bairro. Outros moradores tentavam encontrar um culpado para a balbúrdia. Alguns choravam. Mas todos pareciam conformados com o destino. “Este é o oitavo incêndio que acontece aqui”, avisa um deles.

(Com Agência Estado)

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